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Categoria : Entrevistas

Venezuela ‘é uma ditadura’, diz Aloysio Nunes
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Josias de Souza

Venezuela ‘é uma ditadura’ análoga ao regime militar brasileiro

Empossado no cargo de ministro das Relações Exteriores há apenas quatro dias, o tucano Aloysio Nunes Ferreira tornou-se a primeira autoridade brasileira a se referir à Venezuela sem eufemismos: “É uma ditadura”, disse ele, em entrevita ao blog. (assista à integra no rodapé e veja os principais trechos em vídeos distribuídos ao longo do post).

O novo chanceler comparou o governo do presidente Nicolás Maduro ao regime militar brasileiro, implantado depois do golpe de 1964: “É uma ditadura com alguns espaços que ainda se preservam, como nós já tivemos aqui no Brasil no tempo do autoritarismo. Você tinha espaços dos quais a oposição se utilizou para acumular forças e pressionar o regime.”

Aloysio afirmou que o governo de Michel Temer lançará mão de “todos os meios” para estimular em organismos internacionais a abertura de “um diálogo real entre governo e oposição”. Classificou de “preocupante” a situação da Venezuela. Enxerga no país vizinho o seguinte: “escalada do autoritarismo, presos políticos, Judiciário manietado, imprensa manietada, violência nas ruas e a falta de uma janela eleitoral.”

Após criticar Trump, Aloysio espera para ver se ‘porre’ passou

Durante a conversa, o ministro recorreu ao humor para comentar uma trapaça do destino. Nas pegadas da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, sem suspeitar que a sorte lhe reservara uma poltrona de chanceler, o então senador Aloysio Nunes foi à canela do adversário de Hillary Clinton como um zagueiro de time de várzea: “Trump é o Partido Republicano de porre. É o que há de pior, de mais incontrolado, de mais exacerbado entre os integrantes do seu partido.”

A diplomacia traz o significado no nome. Funciona melhor quando é macia. Por isso, perguntou-se ao novo chanceler se a canelada não dificultará os seus contatos com autoridades norte-americanas. E ele: “…Porre a gente toma. […] Eu bebo muito pouco, mas já me aconteceu. E eu me recuperei. Curei a ressaca.” Acha que Trump já se recuperou do porre? Aloysio, como que trocando o figurino de senador pelo de ministro, disse que olha para Washington com o mesmo olhar de dúvida do papa Francisco. Prefere “esperar para ver.”

Seja como for, Aloysio não acredita que seus comentários causem transtornos. “Nós temos nos Estados Unidos um extraordinário diplomata, que é o nosso embaixador Sérgio Amaral. Ele tem um roteiro, que está seguindo, em bastante consonância com os norte-americanos, com a nova administração… Essa declaração não cria nenhum problema.”

Aloysio chama Mercosul de ‘ficção’ e espera fortalecer o bloco

No seu primeiro compromisso oficial como chanceler, Aloysio participou, na última quinta-feira, em Buenos Ayres, de uma reunião com os chanceleres dos outros países-membros do Mercosul: Argentina, Uruguai e Paraguai. Suspensa do grupo, a Venezuela não foi convidada. A “revitalização” do Mercosul é uma das prioridades da gestão de Michel Temer. Sem rodeios, o sucessor de José Serra no Itamaraty chamou o Mercosul de “ficção.”

Não seria mais negócio para o Brasil se dissociar dessa ficção?, quis saber o repórter. E Aloysio: “Não, é transformar a ficção numa realidade.” Como? Eliminando barreiras que impedem a conversão do Mercosul numa efetiva área de livre comércio. De resto, o ministro diz haver “um interesse crescente da União Europeia para ter um acordo com o Mercosul.” O Brasil jogará suas fichas nesse acordo, sem desprezar os entendimentos bilaterais.

“Temos interesse em fazer acordos bilaterais com Japão, temos acordos bilaterais com a China, com a Rússia. Com todos os países que compõem a Aliança para o Pacífico —Chile, Peru, México e a Colômbia— nós temos acordos bilaterais, inclusive acordos que vão fazer com que nós tenhamos um comércio inteiramente livre entre o Brasil e esses países.”

A pedido da Argentina, Brasil limita pousos de aviões britânicos

Aloysio informou que o Brasil deve restringir o uso do seu território para o pouso de aviões militares do Reino Unido a caminho das Ilhas Malvinas. Fará isso em atenção a uma reclamação do governo argentino, que reivindica a soberania das Malvinas. Os dois países guerrearam pelo arquipélago em 1982. Esmagados, os argentinos perderam 649 soldados. E mandaram à cova 255 inimigos.

Entre 2015, ainda sob Dilma Rousseff, e 2016, já sob Michel Temer, pelo menos 18 aviões militares britânicos usaram o território brasileiro como escala de reabastecimento de voos que tinham as Ilhas Malvinas como destino final. Em acordo firmado com a Argentina, o Brasil comprometera-se a desautorizar esse tipo de pouso, exceto em duas circunstâncias: emergências e missões humanitárias.

Antecipando-se a uma averiguação que está sendo feita pela Aeronáutica, Aloysio admitiu que é improvável que os 18 pousos sob exame tenham sido emergenciais ou humanitários. Daí a intenção de “tornar mais rigorosos os procedimentos”, desautorizando os pousos quando for o caso. Nas palavras do ministro, a intenção do governo brasileiro é a de tornar os procedimentos “inquestionáveis.”

Aloysio justifica apoio do PSDB a Temer e torce para ele não cair

A chegada de Aloysio à Esplanada dos Ministérios tem um quê de paradoxal. Na disputa presidencial de 2014, ele foi candidato a vice na chapa encabeçada pelo correligionário Aécio Neves. Com a derrota da dupla, o PSDB protocolou no Tribunal Superior Eleitoral um pedido de cassação da chapa rival: Dilma Roussef—Michel Temer. Hoje, o tucanato é o esteio do governo Temer e Aloysio, convertido em chanceler, torce para que o TSE não passe na lâmina o mandato do substituto constitucional de Dilma.

Reuniram-se no processo movido pelo PSDB indícios eloquentes de que milhões em verbas roubadas da Petrobras irrigaram a campanha vitoriosa em 2014. Mas Aloysio endossa a tese segundo a qual a contabilidade da campanha de Temer deve ser apartada da escrituração do comitê de Dilma. “Toda punição, para que se efetive, exige, juridicamente, um nexo de responsabilidade”, afirma. “Quem faz tal coisa sofre tal consequência. Então, é preciso que se apure efetivamente a responsabilidade do candidato à Presidência e do candidato a vice-presidente. Não são coisas que possam ser julgadas sem que haja uma apuração específica de responsabilidade de cada um. Na minha opinião, são questões que podem ser perfeitamente desmembradas –contas de Temer e contas de Dilma.”

Quanto à presençaa do PSDB no governo, Aloysio disse: “É uma questão de responsabilidade política para com o país nós ajudarmos o presidente Temer a tirar o Brasil dessa crise profunda em que o governo anterior o colocou. O governo Temer surgiu da ruína do governo Dilma. […] É uma ponte que tem que ser construída para 2018, em grande parte com pedaços de um naufrágio que ele encontrou na praia. Esse é o Congresso. E sem ele não se governa, não se aprovam as reformas.”

Para Aloysio Nunes, debate sobre anistia de caixa dois é inócuo

Acusado de receber R$ 200 mil no caixa dois da construtora UTC, Aloysio reitera que sua inocência será demonstrada no inquérito que corre no Supremo Tribunal Federal. “O próprio empresário, o dono da UTC [Ricardo Pessoa], disse que eu nunca fui atrás dele, nunca pedi dinheiro para ele. Então, tem que encerrar o inquérito.”

A despeito do drama que o assedia, o novo chanceler considera inócuo o debate sobre anistia do caixa dois. Por quê? “A ideia de anistiar caixa dois eu acho uma besteira, porque só se anistia aquilo que é crime. Caixa dois hoje não é um tipo penal. É o recebimento de dinheiro por parte de um candidato, um dinheiro que ele não declara na sua prestação de contas. É um tipo penal de direito eleitoral.

Aloysio prossegue: “[…] Evidentemente, quem recebe recursos e não declara está cometendo crime eleitoral. Imagine você ter que arranjar um projeto de lei dizendo o seguinte: não é crime eleitoral receber dinheiro e não declarar. O Ministério Público vai continuar a denunciando. Denuncia por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, por corrupção. É um falso problema.”

Íntegra: Aloysio fala sobre Venezuela, Trump, Temer e caixa 2


Ministro afirma que PM parado se alia a bandido
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Josias de Souza

Responsável pelo envio de soldados para realizar o policiamento de rua no Espírito Santo, o ministro Raul Jungmann (Defesa) fez considerações ácidas sobre policiais militares que cruzam os braços. No limite, equiparou-os aos bandidos. “Toda reivindicação é legítima, até o momento em que coloca em risco a vida das pessoas”, disse Jungmann em entrevista ao blog.

“Ao paralisar os seus serviços e levar a saques, a mortes, a sequestros, ao aterrorizamento da população, o policial está contribuindo para o aumento da criminalidade. Ele está, tenha consciência ou não, ficando do lado dos bandidos que matam os cidadãos.” Os mesmos cidadãos que pagam os salários da polícia, por meio dos impostos, realçou o ministro. (veja no vídeo abaixo)


Jungmann recebeu o blog na noite desta sexta-feira (10). Pelo telefone, lhe chegou a informação de que a paralisação da PM capixaba chegara ao final. Algo que seria verificado no início da manhã deste sábado (11), já que ficou acertado que os policiais deixariam os quartéis para trabalhar a partir das 7h. As mulheres dos policiais resistiam ao acordo. Um detalhe exercia pressão sobre os policiais aquartelados.

O ministro contou que havia nas ruas da capital capixaba, Vitória, e nas cidades vizinhas mais militares das Forças Armadas e soldados da Força Nacional de Segurança (2.400 homens) do que todo o contingente que a PM conseguiria prover se não estivesse de braços cruzados (até 1.900 policiais). (assista abaixo)


A pedido de Michel Temer, o ministro da Defesa organizava na noite passada um voo para Vitória. Decolará de Brasília às 8h deste sábado (11). Além de Jungmann, seguirão na mesma aeronave outros três ministros: o general de Exército Sergio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República), Antonio Imbassahy (Coordenação Política do Planalto) e José Levi Mello (interino da Justiça). De carona, segue também no avião o procurador-geral da República Rodrigo Janot.

A comitiva de ministros e o chefe do Ministério Público Federal irão verificar in loco o desenrolar da crise no setor de segurança no Espírito Santo. Para evitar novas surpresas, informou Jungmann ao blog, as Forças Armadas se planejaram para a hipótese de ter de entrar em ação no Rio de Janeiro. Há tropas de prontidão no Rio e também em São Paulo, prontas para eventual deslocamento. “Na eventualidade [de uma paralisação da PM], que creio que não irá acontecer, nós temos condições de, rapidamente, dar uma resposta para que não aconteça um descontrole na cidade e no Estado do Rio de Janeiro”, declarou Jungamnn. (confira abaixo)


A despeito da disponibilidade das Forças Armnadas, já acionadas até para vistoriar presídios, Jungmann reconheceu que há no governo um desconforto com o risco de banalização do uso do Exército, da Marinha e da Aeronáutica em atividades que não lhes são habituais. “Entre as forças policiais regulares dos Estados e as Forças Armadas, nós deveríamos ter uma força nacional permanente”, declarou Jungmann. Hoje, explicou o ministro, a Força Nacional de Segurança é montada para tarefas específicas. Os policiais são recolhidos em vários Estados, numa quantidade que varia conforme a missão.

Por ordem de Temer, será criada em 2017 uma força permanente de soldados, à disposição da União. “A ideia agora é ter um corpo de 7 mil homens permanente prestando esse serviço”, afirmou Jungmann. O ministro aplaude a novidade. Para ele, as Forças Armadas precisam se concentrar nas missões para as quais estão mais treinadas. Coisas como a “defesa da pátria”, o socorro a vítimas de desastres naturais e a proteção das fronteiras. (veja no vídeo abaixo).


– Atualização feita às 13h06 deste sábado (11): A paralisação dos policiais militares capixabas foi mantida. Frustrou-se o acordo anunciado na véspera. O ministro da Defesa fez um pronunciamento em Vitória.


Caos político ajuda Temer a recolocar a economia no bom caminho, afirma FHC
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Josias de Souza

Fernando Henrique Cardoso está surpreso com os resultados da gestão de Michel Temer. “Eu não imaginava que o governo Temer fosse conseguir no Congresso tanto quanto ele conseguiu”, disse o ex-presidente tucano em entrevista ao blog. Para FHC, os sinais emitidos pela política econômica já permitem até “imaginar uma saída do buraco.” Paradoxalmente, ele atribuiu ao caos político as mudanças que recolocam a economia no que chama de “bom caminho.”

Durante a entrevista, ocorrida nesta segunda-feira (30), FHC comparou a conjuntura atual à situação vivida por ele quando foi ministro da Fazenda do governo Itamar Franco —época em que colocou em pé o Plano Real. “Havia uma situação caótica, semelhante à atual. Saíamos de um impeachment, tivemos o escândalo dos anões do Orçamento, o governo era de transição.”

Hoje, disse FHC, em meio a um cenário em que “está tudo caótico, tudo meio solto, todo mundo meio tonto”, Temer aprovou no Congresso medidas como o teto para os gastos públicos e a mudança na legislação sobre exploração de petróleo. “É nesses momentos de caos que o país consegue caminhar”, afirmou.

As avaliações de FHC foram feitas três dias depois de um encontro que ele teve com Temer. Conversaram na última sexta-feira, em São Paulo. Dias antes, Temer reunira-se em Brasília com o presidente do PSDB, Aécio Neves. Entre outros temas, trataram da nomeação do deputado tucano Antonio Imbassahy para a pasta da coordenação política do governo. Algo que deve ocorrer em fevereiro.

Imbassahy será o terceiro ministro tucano na equipe de Temer. Os outros dois são José Serra (Relações Exteriores) e Bruno Araújo (Cidades). Num instante em que o tucanato ancora seus projetos políticos na gestão Temer, a boa vontade de FHC não o impediu de avaliar os riscos. Para ele, a tática de aproveitar o caos político para emplacar reformas econônicas tem limites. “Se a crise ficar muito grande, perde o controle”, disse.

Ironicamente, o PSDB é o autor das ações que pedem a cassação da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral. Que tal desistir do processo? “Não dá mais para retirar”, lamentou FHC. A eventual cassação de Temer será “ruim, porque vai haver uma complicação muito grande”, acrescentou. “Mas acho que os dados estão lançados. O que tiver que acontecer, vai acontecer.”

FHC aplaudiu a decisão da presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, de homologar os 77 acordos de delação da Odebrecht. “Era preciso fazer. Acho que a ministra agiu direito.” Entre os personagens citados nas delações estão Michel Temer e três presidenciáveis do PSDB: Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra.

Vai abaixo a transcrição da entrevista de FHC:

— Que avaliação faz do governo Michel Temer? Creio que, com todas as dificuldades, há sinais corretos na política econômica, que permitem imaginar uma saída do buraco. Eu não imaginava que o governo Temer fosse conseguir no Congresso tanto quanto ele conseguiu.

— Refere-se à aprovação da emenda do teto de gastos? O governo conseguiu aprovar a emenda do teto dos gastos públicos. Também alterou a legislação de exploração do petróleo, que não é pouca coisa. Está mexendo na estrutura do ensino médio. São coisas muito difíceis. E o governo foi fazendo. Vamos ver agora o que vai acontecer com a reforma da Previdência, que também é muito difícil. Acho que o Congresso, vendo que o déficit é alto, pode avançar. Sei que é difícil porque também enfrentei o problema. Alguma coisa nós fizemos. Perdemos uma votação sobre idade mínima para aposentadoria por um voto.

— Não receia que o agravamento da crise política prejudique a política econômica? Se piorar muito, pode prejudicar. Mas como está, creio que não. Eu me lembro da época em que fui ministro da Fazenda. Havia uma situação caótica, semelhante à atual. Tivemos o impeachment, o escândalo dos anões do Orçamento, o governo era de transição. A tese que eu defendia, nas conversas com a minha equipe na época, era a seguinte: olha, nós só conseguimos fazer alguma coisa quando está tudo desorganizado. Quando os interesses estão encastelados, você não muda nada. Nesse momento, está tudo caótico, tudo meio solto, todo mundo meio tonto. Inclusive o setor político. É nesses momentos de caos que o país consegue caminhar. Basta que haja um rumo e alguma insistência. É claro que tem limites para isso. Se a crise ficar muito grande, perde o controle.

— Sua tese é de que Michel Temer deve aproveitar a desorganização política para avançar nas reformas? É o que eu acho. Creio que o governo, bem ou mal, está tentando fazer isso. Até aqui, teve algum êxito. Mesmo que ele não tenha plena consciência de todos os movimentos que está propondo, mesmo que não seja capaz de explicar à sociedade a direção que vem adotando, o fato é que ele caminha numa boa direção, recoloca a economia no bom caminho.

— O PSDB poderia desistir do processo que ajuizou no TSE para cassar a chapa Dilma-Temer? Não dá mais para retirar, porque é uma ação pública. Não pode mexer.

— Acha que seria ruim se houvesse a cassação do mandato de Temer? É ruim, porque vai haver uma complicação muito grande. Mas acho que os dados já estão jogados. O que tiver que acontecer, vai acontecer. Espero que não aconteça nada que leve a uma comoção maior.

— Até porque, numa eleição indireta feita pelo Congresso, a encrenca poderia cair no seu colo, não? Deus me livre!

— Acha que foi acertada a decisão da ministra Cármen Lúcia de homologar as delações da Odebrecht antes da indicação de um substituto para o ministro Teori Zavscki na relatoria da Lava Jato? Creio que foi acertada a decisão. Ela assumiu a responsabilidade dela como presidente da Corte. Tem brecha no regimento para isso. Era preciso fazer. Acho que a ministra agiu direito.


FHC defende que STF descriminalize as drogas
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Josias de Souza

Fernando Henrique Cardoso disse esperar que a crise no sistema prisional impulsione o debate sobre a descriminalizacão do consumo de drogas no Brasil. Em entrevista ao blog, o ex-presidente tucano declarou nesta segunda-feira (30/01) que caberá ao Supremo Tribunal federal dar “os primeiros passos”.

Corre no Supremo uma ação sobre a posse de drogas para uso recrativo. Três ministros votaram a favor da descriminalização de todas as drogas (Gilmar Mendes) ou apenas da maconha (Edson Fachin), ainda que com a fixação de um limite de 25 gramas para a posse (Luis Roberto Barroso). O julgamento foi suspenso em 2015 graças a um pedido de vista de Teori Zavaschi, morto em acidente aéreo.

“Vamos ver quem será o substituto” do ministro Teori, disse FHC. “Não está claro ainda quem o presidente Temer irá indicar.” A despeito da dúvida, o líder tucano disse confiar no discernimento da Suprema Corte. “A tendência do Supremo é de ser mais razoável nesse tipo de matéria.”

Vai abaixo a transcrição da entrevista:

— Acha que a crise no sistema prisional pode apressar o processo de descriminalização das drogas? Espero que sim. No meu modo de entender, esse processo de estabelecimento de uma nova política antidrogas, que é complicado, caminhará mais consistentemente se passar pela decisão do Supremo Tribunal Federal e, depois, pela Anvisa, que terá de participar da solução também. No Supremo, houve um pedido de vista do ministro Teori Zavascki. Então, vamos ver quem será o substituto dele. Não está claro ainda quem o presidente Temer irá indicar.

— Acha que o Supremo adotará posição favorável à descriminalização? A tendência do Supremo é de ser mais razoável nesse tipo de matéria.

— O que o senhor entende por razoável? Não se pode confundir descriminalização com legalização das drogas.

— Qual é a diferença? Descriminalizar significa que o portador de drogas para seu uso ou o pequeno traficante sem antecedentes criminais não entram no sistema penal. A legalização significaria a autorização para a produção, o que seria mais complicado. Quem é que faz? São passos que devem ser dados com um certo cuidado. As coisas não são simples.

— Em alguns países, como Uruguai, as pessoas foram autorizadas a cultivar maconha para consumo próprio. Defende o mesmo para o Brasil? Isso aconteceu também na Europa. Está acontecendo em vários países. E vai acabar acontecendo aqui também.

— O senhor aprovaria, portanto, a produção de maconha para consumo próprio? Sim. Qual é a minha preocupação? A droga, na prática, é livre nas mãos do bandido. Então, o Estado precisa começar por descriminalizar o que for razoável e, depois, regulamentar. É melhor ter algum tipo de regulamentação do que simplesmente deixar como está hoje.

— Hoje existe a proibição legal, não? Sim, é proibido. Mas a droga circula. E quem vai para a cadeia são os pobres usuários, sobretudo mulheres. Precisamos prestar atenção às experiências internacionais. Temos que observar o que já foi feito em outros lugares —em Portugal, na Holanda…

— O que seria feito depois da descriminalização e da regulamentação? O Estado terá de adotar políticas de prevenção, de educação e de assistência. Eu vi na Holanda. Eles têm postos em que as pessoas, quando querem se drogar, vão para esses locais. Para quê? Para não utilizar agulhas contaminadas, não incorrer na overdose, não morrer na rua. Enfim, é preciso promover a migração desse assunto para a área da saúde pública, para não ficar apenas na repressão.

— No modelo que o senhor defende seriam descriminalizadas todas as drogas? Acho que é bom começar pela maconha. Mas eu aprendi em Portugal a seguinte lição: esse negócio de droga fraca e droga forte é uma ilusão. A maconha, quando consumida desesperadamente, mata. E a cocaína, quando usada de raro em raro, não é tão nociva. Qualquer droga, em níveis intensos, mata. O cigarro também mata. Por isso, esse negócio de droga leve ou pesada é algo ilusório. Depende da forma como a droga é usada.

— De que maneira a deterioração do sistema prisional interfere no debate sobre a descriminalização das dogras? O foco do debate está invertido. Como tem muita gente nos presídios, algumas pessoas dizem: ‘Vamos descriminalizar porque isso alivia a pressão nas prisões.’ Tudo bem, é verdade. Pode ter esta consequência. Mas não resolve por completo o problema da violência dentro dos presídios. Essa violência é fruto de uma luta pelo controle das rotas de drogas. E isso vai continuar existindo, porque o Brasil é um grande consumidor de drogas. Sem mencionar o fato de que o Brasil é rota de passagem de drogas para outros países.

— Qual seria o enfoque correto? O que deve ser levado em conta é que, se você deixar a polícia menos preocupada com o usuário de drogras e com o pequeno traficante, ela pode se concentrar no combate ao grande tráfico, que vai continuar existindo e precisa ser combatido.

— Acha que a retirada de usuários de droga do rol de pessoas passíveis de encarceramento diminuiria a oferta de mão de obra para as facções dentro dos presídios? Sem nenhuma dúvida. Esse seria um efeito muito benéfico, porque os presídios tornaram-se escolas de crime. É razoável, é racional mudar a política atual.

— A mudança na política antidrogas deveria ocorrer imediatamente ou é coisa para o futuro? O que defendo é que as coisas sejam feitas passo a passo. Mas os primeiros passos têm que ser dados agora. A questão já está posta no Supremo Tribunal Federal. E também na Anvisa. A Justiça precisa entender que pode haver outras penas além do encarceramento. As pessoas também podem ser condenadas a realizar serviços comunitários e a outras penas alternativas. A nossa sociedade acha que colocando o cara na cadeia o problema está resolvido. E isso não resolve nada.

— Muitos dizem que a descriminalização das drogas estimularia o consumo. O que acha? Precisa comprovar isso. Não foi o que aconteceu em Portugal, por exemplo.

— O presidente Temer o procurou na semana passada. Falaram sobre isso? Falo com ele de vez em quando.

— Os senhores conversaram na sexta-feira, não? Mas não falamos sobre esse tema. Nessa matéria, minha visão é de que é melhor concentrar as atenções no julgamento que ocorrerá no Supremo Tribunal Federal. O Temer não tem poderes para fazer nada nesse momento. Depende fundamentalmente do Congresso e do Supremo.

— Depois da decisão do Supremo, a regulamentação dependeria de providências legislativas? Exatamente.

— Ao Poder Executivo caberia apenas implementar? Isso mesmo. É preciso que ocorra uma mudança de cultura, que costuma ser lenta. É preciso aceitar que a droga existe, além de não alimentar a ilusão de que a cadeia resolve. É tudo gradativo, não acontece de repente. Mas acho que precisamos caminhar, porque a situação é dramática. O drama dos presídios não se deve apenas às drogas. Mas, em parte, a crise do sistema presional também é consequência disso. O primeiro passo, hoje, está com o Supremo.

— Michel Temer autorizou os governadores a requisitarem as Forças Armadas para vistoriar presídios. Se ainda fosse presidente da República, adotaria essa providência? Eu nunca fiz. Qual é o risco de uma medida como essa, que coloca os soldados na repressão direta? É o risco da corrupção. Mas o governo adotou o cuidado de esclarecer que os soldados não terão contato com os presidiários. Então, creio que foi mais uma medida tópica, para restabelecer o sentido de autoridade. A situação estava completamente fora de controle, uma vergonha. O Estado precisa restaurar sua autoridade.


Para ex-presidente do STF, facção de ‘assaltantes do erário’ é pior que PCC
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Josias de Souza

DESVIO DE DINHEIRO PÚBLICO É GENOCÍDIO

Na explosão de criminalidade deste início de 2017, as quadrilhas que convertem prisões em centros de delinquência e selvageria disputam o noticiário com os corruptos e corruptores pilhados na Lava Jato. Em entrevista ao blog, Ayres Britto, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal na época do julgamento do mensalão, foi convidado a dizer qual das duas facções é mais nociva para o país —a dos mensalões e petrolões ou a dos PCCs e Comandos Vermelhos? (assista no vídeo acima) “Ambas são deletérias”, disse o ex-ministro, antes de acrescentar:

“Os assaltantes do erário são os meliantes mais prejudiciais à ideia de vida civilizada. […] O dinheiro que desce pelo ralo da corrupção —sistemicamente, enquadrilhadamente—, é o que falta para o Estado desempenhar bem o seu papel no plano da infraestrutra econômica, social, prestação de serviços públicos, educação de qualidade, saúde. O assaltante do erário, no fundo, é um genocida. É o bandido número um.”

A conversa com Ayres Britto, gravada na última quinta-feira, vale o desperdício de um pedaço do seu domingo. Além dos trechos que podem ser assistidos ao longo do texto, a íntegra está disponível no vídeo acomodado no rodapé deste post. Para o ex-ministro, o combate ao crime organizado pede ações ousadas do Estado. “Temos um encontro marcado com o tema da descriminalização progressiva das drogas”, declarou. O consumo recreativo seria liberado gradualmente, começando pela maconha, “a mais leve das drogas, a mais usual.” (assista abaixo).

LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS

Ayres Britto parte do pressuposto de que a descriminalização eliminará o mercado mais rentável para os criminosos. “Perderia o objeto a atividade dos traficantes”, afirmou. Nessa versão, o governo passaria a taxar o consumo de drogas, exatamente como faz com o cigarro e a bebida alcoólica. O dinheiro coletado pelo fisco, disse o ex-ministro, seria usado em campanhas de esclarecimento sobre os efeitos nocivos do vício e no tratamento dos viciados. “É repensar o tema com toda a radicalidade”, ele defendeu.

Amigo de Michel Temer há mais três décadas, Ayres Britto tornou-se um interlocutor assíduo do presidente. Os dois conversam amiúde. Encontraram-se há uma semana, no domingo passado, no Palácio do Jaburu. Voltaram a se falar durante a semana, pelo telefone. “Nossos encontros são de amigos”, disse. Mas as conversas não giram apenas na órbita das amenidades.

“É lógico que duas pessoas curtidas na vida pública não deixam de tratar dos temas de interesse nacional, os mais candentes, os mais atuais, os mais recorrentes.” O blog quis saber se Ayres Britto conversou com Temer sobre a descriminalização das drogas. “Falamos, sim, sobre isso. Mais por telefone do que pessoalmente.” Sentiu receptividade de Temer para o tema?, quis saber o repórter. E o entrevistado: “Senti.” (veja no vídeo a seguir).

CONVERSA COM TEMER SOBRE A LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS

A amizade com o presidente não impediu o ex-magistrado, um constitucionalista de mostruário, de analisar com acuidade jurídica o processo sobre a cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer. A ação corre no Tribunal Superior Eleitoral, que já foi presidido por Ayres Britto. A eventual cassação da chapa por abuso de poder econômico e político produziria duas consequências graves: 1) a queda de Temer; 2) a ascensão de um novo presidente, a ser escolhido em eleição indireta realizada pelo Congresso.

O blog perguntou a Ayres Britto se a conjuntura de alta combustão seria levada em conta pelos sete ministros do TSE na hora de julgar o processo que pode custar a Presidência a Temer. E ele: “É claro que é preocupante, em quatro anos, você colocar três presidentes da República. Mas isso é uma opinião muito política. […] O julgador deve se louvar no substrato factual e jurídico do processo. Exclusivamente!”

Sem entrar no mérito de um processo de cassação que não chegou a folhear, Ayres Britto explicou, em poucas palavras, qual é a tentação que os ministros do TSE deveriam evitar: “Quando o julgador começa a se imbuir daquela mentalidade que é válida no Congresso Nacional e começa a decidir politicamente, como se parlamentar fosse, está traindo a sua função.” (confira no video abaixo)

CASSAÇÃO DA CHAPA DILMA-TEMER

Perguntou-se também a Ayres Britto se ele subscreveria a íntegra do Plano Nacional de Segurança, divulgado pelo ministro Alexandre de Moraes (Justiça). A resposta foi negativa. E quanto à decisão de Temer de oferecer aos governadores a possibilidade de requisitar inspeções das Forças Armadas nos presídios? Bem, o ex-presidente do Supremo não chega a rechaçar a providência. Mas fala sobre ela em timbre cético.

Ayres Britto disse não ter dúvidas de que a presença de soldados na região de fronteiras é essencial para conter a entrada de armas e drogas. Mas acrescentou: militares “nos presídios, eu tenho um certo receio. Não rechaço, não refugo, porque o caso é emergente, gravíssimo. Pode haver necessidade mesmo de emprego das Forças Armadas. Mas eu não tenho uma reflexão detida sobre o melhor modo de atuação. […] É preciso planejar bem.”

De resto, Ayres Britto realçou o receio de que o emprego das Forças Armadas acabe se banalizando. “Nós temos um pé atrás com o uso das Forças Armadas por causa do nosso recente passado ditatorial. A gente teme muito banalizar o uso das Forças Armadas. Mas é fato também que temos umas Forças Armadas, hoje, hiper-compenetradas do seu papel de defesa da democracia, não de ataque à democracia.” (assista a seguir).

FORÇAS ARMADAS NOS PRESÍDIOS

Ayres Britto avalia que o Brasil erra ao tratar dos problemas relacionados à segurança pública com visão “punitivista”. O agravamento de penas não se revela um bom antídoto contra a criminalidade. “E não quero dar uma de avestruz”, declarou o ex-ministro. “Não se pode cegar jamais para o fato de que a criminalidade de massa pressupõe desigualdade social aberrante.”

Pesquisa do Datafolha divulgada em novembro do ano passado revelou que 57% dos brasileiros concordam com a tese segundo a qual “bandido bom é bandido morto”. Ayres Britto atribui o fenômeno a um paradoxo: “A sociedade brasileira, politicamente, se arejou mais do que a classe política. […] No plano dos costumes, porém, a sociedade brasileira é conservadora, às vezes até reacionária.”

Na opinião do ex-magistrado, é papel do Judiciário zelar para que não prevaleça a corrente que acha que zelar pelos direitos humanos dos presos e pela civilidade do ambiente nos presídios é o mesmo que premiar a bandidagem. “A Constituição não é conservadora, não é reacionária. É humanista, é civilizada, é democrática. Então, o que cabe ao Judiciário é aplicar a Constituição, ainda que contra os segmentos majoritários da sociedade”, afirmou Ayres Britto. (assista abaixo)

SOCIEDADE BRASILEIRA CONSERVADORA

Ex-presidente do Conselho Nacional de Justiça, Ayres Britto enxerga problemas também no Judiciário. Disse que se disseminou entre os juízes “a ideia falsa de que, lavrada a sentença condenatória, o problema de execução da pena é do Poder Executivo. Não é assim.”

O entrevistado enumerou os tópicos que deveriam merecer mais atenção: o zelo com a progressão de regime a que os presos têm direito, o número de inspeções nas cadeias, a elevação do número de juízes de execução penal, a multiplicação das varas e o aumento dos recursos orçamentários do próprio Poder Judiciário para administração do sistema penal.

Ayres Britto fez reparos também à atuação das Defensorias Públicas. Afirmou que o atendimento aos “necessitados” deixa muito a desejar. “E os penitenciados são necessitados. Olha o perfil social da populaçao carcerária brasileira. E o perfil racial? Não preciso dizer mais nada, não é? É a área típica, própria de atuação das defensorias públicas. Que também nao têm merecido maiores elogios nesse aspecto da execução das penas.” (Abaixo, a íntegra da conversa).

CONFIRA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA


Lula prevê a queda de Temer e a volta de FHC
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Josias de Souza

Lula prevê para Michel Temer um futuro de Dilma Rousseff. Em diálogos privados, ele diz ter certeza de que Temer não concluirá o mandato. O pajé do PT sustenta que o PSDB, hoje um dos principais aliados do governo, trama a volta de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. O retorno se daria numa eleição indireta, decidida no Congresso Nacional —como manda a Constituição para os casos de vacância da Presidência nos dois últimos anos do mandato.

O artigo 81 da Constituição anota: “Vagando os cargos de presidente e vice-presidente da República, far-se-á eleição 90 dias depois de aberta a última vaga.” Descendo até o parágrafo 1º desse mesmo artigo, lê-se: “Ocorrendo a vacância nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita 30 dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional, na forma da lei.”

Em almoço com Dilma, há uma semana, Lula estimou que o governo Temer irá à breca em 2017. Avalia que a derrocada ocorrerá “em breve”. Fareja no ar os primeiros sinais de traição do tucanato a Temer. Prenúncio, segundo diz, da articulação que visa apresentar FHC como antídoto contra a crise.

Depois da conversa com Lula, Dilma também passou a difundir em seus diálogos privados o vaticínio segundo o qual o PSDB fará com Temer o que o PMDB fez com ela. Com uma ponta de ironia, diz que Temer provará do seu próprio veneno. Nas palavras de Dilma, está em curso no Brasil um movimento subterrâneo que resultará em “um golpe dentro do golpe.”

Dilma conversou sobre o tema com uma pessoa que participou do seu ministério, ficando do seu lado até o impeachment. Relatou as previsões que ouvira de Lula. A conversa chegou aos ouvidos do ex-presidente José Sarney. Instado a manifestar sua opinião sobre a hipótese de um retorno de FHC pela via indireta, Sarney declarou: “O Fernando Henrique não pensa em outra coisa.”


Para ministro, mudar ensino médio é tão importante quanto reformar economia
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Josias de Souza


Até a semana passada, se perguntassem a uma autoridade do governo quais são as três prioridades da gestão de Michel Temer, a resposta seria: economia, economia e economia. Desde a última quinta-feira (22), um tema alternativo disputa as atenções dos brasileiros no noticiário e nas redes sociais: a reforma do ensino médio. “Temos que colocar a educação no mesmo patamar de prioridade das reformas econômicas”, disse o responsável pela novidade, o ministro Mendonça Filho, em entrevista ao UOL. A íntegra da conversa pode ser assistida no rodapé da reportagem. Os trechos mais relevantes estão distribuídos em vídeos enxertados ao longo do texto.

Petrificado e ineficiente, o ensino médio tornou-se uma unanimidade nacional. Difícil encontrar alguém que discorde da necessidade de reformá-lo. Mas vinha prevalecendo em Brasília o entendimento segundo o qual a melhor maneira de resolver o problema era discuti-lo exaustivamente. Exaustos, os debatedores tinham a sensação de que sua preocupação era útil. E não precisavam resolver nada. Guindado ao comando da pasta da Educação há quatro meses e meio, o deputado licenciado Mendonça Filho (DEM-PE) migrou do debate acadêmico à prática. Convenceu Temer a baixar a reforma do ensino médio por MP (medida provisória).

Diferentemente de um projeto de lei, a MP vigora a partir de sua publicação no Diário Oficial. E os congressistas têm a obrigação de apreciá-la em até 120 dias. O ritmo de toque de caixa gerou muitas críticas. O ministro Mendoncinha, como é chamado pelos amigos, disse ter ficado “pasmo” (repare no vídeo abaixo). “Medida provisória para atender urgência e relevância no campo econômico é sempre justificável. No campo social da educação, que vive um drama terrível, algumas pessoas ficam meio que arrepiadas. Não tem que ter arrepio. É uma medida legislativa com base na Constituição, que estabelece urgência e relevância.”


A reforma do ensino médio havia sido debatida sob Lula. E nada. Na campanha à reeleição, em 2014, Dilma prometeu adotá-la. Foi deposta antes que pudesse esboçar a intenção de cumprir a palavra. Tramita na Câmara, há quase quatro anos, projeto de lei sobre o tema. Tem o apoio da maioria dos secretários estaduais de Educação. Nem assim consegue furar a fila da pauta de votações do plenário. Há 20 dias, vieram à luz os dados do último Ideb (Índice de Desenvolvimento de Educação Básica). Exibiram, uma vez mais, o flagelo do ensino médio. Apenas dois Estados, Pernambuco e Amazonas, lograram cumprir as metas.

Segundo o ministro, foi o resultado do Ideb, o mais completo instrumento de aferição da má qualidade da educação brasileira, que o levou a agir. “A gente teve o segundo Ideb consecutivo desde 2011 em que não atingimos as metas fixadas para a educação de nível médio no Brasil”, disse Mendonça. “A gente tem um flagelo de 1,7 milhão de jovens que nem trabalham nem estudam. Muitas vezes são dragados e atraídos pela criminalidade, pelas drogas, nas grandes e médias cidades do Brasil. É um drama humano.”

O ministro dá de ombos para os que o criticam por ter convencido Temer a adotar a via da medida provisória, imprimindo à reforma que se arrastava há vários anos um ritmo de truque cinematográfico. “A gente tem que agir com urgência e velocidade, para atender esses jovens brasileiros”, disse Mendonça (veja no vídeo abaixo). “A reforma é para atender os jovens do Brasil, não é para atender as corporações ou quem quer que seja. Todas devem colaborar, porque o objetivo central é atender a juventude brasileira, que não se vê identificada com o formato atual da educação de nível médio e que quer protagonizar e definir o seu próprio futuro.”


Três antecessores de Mendonça, ex-ministros da Educação na gestão Dilma, apressaram-se em criticar o conteúdo da MP da reforma: Aloizio Mercadante, Renato Janine Ribeiro e Henrique Paim. Declararam-se preocupados com a intenção de flexibilizar o currículo do ensino médio, coração da proposta do governo Temer. Receiam que a providência, se mal administrada, acabe por submeter os estudantes a um tratamento desigual —na hora de selecionar as disciplinas optativas às quais se dedicariam na metade final do curso, alguns alunos teriam um número maior de opções do que outros.

Instado a comentar os reparos feitos pela troica de ex-ministros, Mendonça estranhou que nenhum deles tenha sugerido uma alternativa. Da defesa, o auxiliar de Temer foi ao contra-ataque: “O PT passou 13 anos no poder ao longo dos governos do ex-presidente Lula e da ex-presidente Dilma. Até cunhou uma frase muito forte do ponto de vista de marketing, que é ‘Brasil, pátria educadora’. Mas os resultados na área da educação no Brasil são absolutamente deprimentes e distantes daquilo que seria razoável.”

Mendonça realçou que o insucesso do petismo não pode ser atribuído à falta de verbas (assista abaixo). Segundo ele, num intervalo de 12 anos “o orçamento do Ministério da Educação saiu de R$ 43 bilhões para mais de R$ 130 bilhões. Então, a gente triplicou o orçamento sem que a gente tivesse o mesmo desempenho em termos de qualidade na aplicação dos recursos e melhoria do desempenho em termos de aprendizado.” Irônico, o ministro declarou que a equidade entre os alunos será atingida com atitudes urgentes, não com marketing.


O repórter recordou a Mendonça que, em essência, a reforma que Dilma, candidata à reeleição, prometera fazer no ensino médio não é muito diferente do modelo encampado sob Temer. Ferrenho adversário do petismo, o ministro do DEM viu-se compelido a reconhecer: “Houve, sim, uma manifestação, na sua propaganda televisiva, de compromisso daquilo que é essencial em termos de reforma de educação de nível médio no Brasil. Inclusive os vídeos circulam na internet.” O que faltou à presidente deposta, procovou Mendonça foi “coragem ou disposição de levar a reforma adiante.”

Com o debate sobre o tema já caindo de maduro, escorado na posição praticamente unânime dos secretários estaduais de Educação a favor da reforma, Mendonça sugeriu a Temer que fizesse o que sua ex-companheira de chapa se absteve de fazer (veja o que disse o ministro no vídeo abaixo). “Com esse respaldo e com a discussão bastante aprofundada, o presidente tomou a decisão de enviar para o Congresso a medida provisória que reforma a educação de nível médio no Brasil.”

Espera obter apoio pluripartidário à proposta, incluindo o PT? “Espero. Se por ventura o PT puder colaborar nessa direção, será bem-vindo. Educação não pode ter uma divisão partidária. O que se deve discutir, eventualmente, é se a reforma é necessária, se interessa ao Brail, se atende aos interesses dos jovens. Portanto, todos os partidos que queiram colaborar nessa direção são bem-vindos, disse Mendonça (assista abaixo).


Se os planos do governo Temer forem endossados pelo Congresso, os estudantes terão uma sala de aula bem diferente a partir de 2018. O ensino médio, porta de entrada nas universidades, dura três anos. Hoje, todos os alunos são obrigados a aprender nesse período o conteúdo de 13 disciplinas —português, matemática, inglês, espanhol, química, física, biologia, artes, educação física, história, geografia, filosofia e sociologia.

Com a reforma, os alunos serão submetidos, na primeira metade do curso, a um currículo obrigatório mais enxuto. À exceção de português e matemática, outras disciplinas podem ser excluídas da grade. A nova Base Nacional Curricular, que fixa o pedaço do currículo que é obrigatório, será definida no primeiro semestre de 2017.

A ideia é que na parte final do curso, com um ano e meio de duração, o aluno possa escolher livremente as disciplinas que deseja cursar. Mendonça esmiuçou as novidades na entrevista. Você pode conferir o que disse o ministro nos dois vídeos que se seguem. No primeiro, ele fala sobre o pedaço do currículo do ensino médio que será comum a todos, na primeira metade do curso. No segundo vídeo, o ministro discorre sobre a metade final do curso, aquela em que o aluno terá liberdade para escolher disciplinas que ornem com suas aptidões.



Uma das críticas mais estridentes à reforma do ensino médio foi feita pelo apresentador Fausto Silva no seu programa dominical, na TV Globo. “Essa porra desse governo nem começou, não sabe se comunicar e já faz a reforma sem consultar ninguém”, disse Faustão. Ele se indignara com a interpretação errônea de que o governo decidira excluir desde logo, de uma canetada, a educação física do currículo do ensino médio.

”Então, o país que mais precisa de educação faz uma reforma com cinco gatos pingados que não entendem porra nenhuma, que não consultam ninguém e aí, de repente, tiram a educação física, que é fundamental na formação do cidadão!”, bateu Faustão. Conforme noticiado aqui, o próprio Michel Temer preocupou-se em telefonar para o apresentador. Instado a comentar as declarações do astro global, Mendonça muniu-se de panos quentes. Disse respeitar Faustão. Atribuiu suas críticas à falta de informação.

“Muitas vezes eu fico me perguntando como é que algumas pessoas imaginam que o assunto educação não é relevante ou urgente. No caso do Fausto Silva, a quem respeito, acho que há um desconhecimento da realidade do percurso dessa reforma, que envolveu um debate de cerca de três para quatro anos no Congresso Nacional, no mínimo. Precisava alguém que assumisse e decidisse politicamente que iria fazer. E houve a decisão política. Levei ao presidente Temer a possibilidade de a gente levar essa agenda adiante. Ele respaldou, tomou a decisão de forma corajosa”. O ministro acrescentou que o uso da medida provisória apressa a tramitação legislativa, mas não elimina o debate nem a possibilidade de alterar o texto original (assista a seguir).


Vai abaixo a íntegra da entrevista com o ministro Mendonça Filho (Educação). A conversa tem 38 minutos e 55 segundos de duração:


Para FHC, o PT e até o PSDB viraram ‘velharia’
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Josias de Souza

Ex-presidente acha que pode surgir um Trump à brasileira em 2018

Não tenho dúvida de que há risco’ de Lula ser preso, declara FHC

Tucano descrê da versão de Lula sobre sítio e tríplex: ‘Difícil colar!’

FHC diz que ‘teria dificuldade’ de comprar um carro usado de Lula

Manter os direitos políticos de Dilma foi ‘um absurdo’, afirma FHC

FHC compara gestão Temer a uma pinguela: ‘se quebrar, cai no rio’

 

Fernando Henrique Cardoso recebeu o UOL no final da tarde da última segunda-feira (5). Concedeu a sua primeira entrevista a um veículo de comunicação brasileiro desde a deposição de Dilma Rousseff. O ex-presidente tucano fez uma avaliação corrosiva da conjuntura do país. A íntegra da conversa está disponível no rodapé do post. Ao longo do texto, você assiste a alguns dos principais trechos. No vídeo abaixo, FHC diz que o PT e até o seu PSDB perderam o “frescor” que tinham na década de 1990. Reconhece que as duas legendas tornaram-se parte da “velharia” política que dificulta a modernização do país.


O repórter leu para FHC um comentário que ele gravou em março de 1996. Nessa época, exercia seu primeiro mandato presidencial. Estava às voltas com um paradoxo: prometia o novo de mãos dadas com o arcaico. Incomodado com a dificuldade para aprovar reformas no Congresso, disse a frase que reproduziria no seu livro Diários da Presidência: “Este é o Brasil de hoje, onde a modernização se faz com a podridão, com a velharia, com o tradicionalismo, o qual na verdade ainda pesa muitíssimo.”

Decorridos 20 anos, não lhe parece que PSDB e PT integram a velharia?, quis saber o repórter. E FHC, sem titubeios: “Parece, infelizmente me parece. Curioso que você leu essa frase. Como eu estou relendo o terceiro volume [de Diários da Presidência, ainda por ser lançado], eu repito isso mais adiante, porque era sensível. Você quer melhorar, modernizar, avançar, ser progressista. Mas você precisa dos partidos que existem. E o que existe, a maior parte, é isso. Infelizmente, nós não fomos capazes de superar esses entraves enormes, que eu chamo de atraso. Não é direita e esquerda. É outra coisa, é cultural. São pessoas que querem tirar proveito do Estado.”

Tomado pelas palavras, FHC parece incluir Lula entre os políticos que se aproveitam do Estado. Em tempos remotos, os dois personagens pareciam condenados a percorrer a vida pública juntos. O operário chegou a pedir votos para o sociólogo, então candidato ao Senado, nas portas das fábricas do ABC. No Planalto, cada um ao seu tempo, governaram o país de costas um para o outro, distanciando-se. Hoje, FHC diz que “teria dificuldades” para comprar um carro usado das mãos de Lula. “Eu sempre comprei carro usado. Agora, não mais. Em geral comprava de um mesmo amigo meu, porque eu tinha confiança. Confiança é fundamental para tudo. E hoje a confiança no presidente Lula é relativa.” (veja essa resposta no vídeo a seguir).


FHC trata com ceticismo as explicações de Lula sobre as evidências que levaram a força-tarefa da Lava Jato a indiciá-lo por suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. O ex-presidente tucano descrê, por exemplo, das alegações feitas pela defesa de Lula nos já célebres casos do sítio de Atibaia e do tríplex do Guarujá. Lula sustenta que os imóveis, ornados com equipamentos e benfeitorias providos por empreiteiras encrencadas na Lava Jato, não são de sua propriedade. “É difícil colar”, diz FHC. “É difícil porque houve uso reiterado dos bens. É claro que a Justiça vai ter que provar. Às vezes não é fácil provar.”

Para FHC, não se pode descartar a hipótese de Lula ser preso, como qualquer outro cidadão: “Se for verdadeiro o que está dito aí, se for condenado, qualquer um de nós pode. Não é ele, qualquer um de nós. Você, eu podemos ser presos.” O que ocorreria se Lula fosse parar atrás das grades? “Se não houver um esclarecimento muito grande das razões pelas quais vai preso, haverá uma reação dos seus partidários e, provavelmente, de uma parte da opinião pública”, disse.

A eventual prisão de Lula será “uma questão delicada do ponto de vista político”, avalia FHC. “Imagino que os procuradores e os juízes estão numa situação complicada, porque eles têm a lei. Se houver fatos, o que o juiz vai fazer?” Não há senão a hipótese de cumprir a lei. Daí, na opinião de FHC, não haver dúvida de que “há o risco” de Lula ser remetido à cadeia. “Risco não só para ele, para todos nós, pelas consequências disso”, acrescentou o entrevistado. (veja no vídeo abaixo)


Se fosse senador, teria sido misericordioso com Dilma Rousseff, preservando-lhe o direito de ocupar funções públicas mesmo depois de seu mandato de presidente ter sido guilhotinado? FHC respondeu com um sonoro “não”. Considerou inconstitucional o impeachment meia-sola. “Acho que a obrigação número um do senador é ser a favor da Constituição. Você pode até, na alma, dizer: ‘Ah, meu Deus, que pena!’ Eu, por exemplo, tenho muita dificuldade, mesmo quando escrevo, quando critico, com relação à presidente Dilma. Eu procuro ser uma pessoa que a considera. Mas isso é uma coisa no plano pessoal. Outra coisa é você como senador.”

“Aquilo foi um absurdo, a Constituição é clara”, declarou FHC sobre o veredicto híbrido do Senado. Ele enxerga no “absurdo” as digitais do ministro Ricardo Lewandowski, que comandou o julgamento no Senado. “Vamos falar português claro: o presidente do Supremo Tribunal Federal tomou a decisão e não podia ter tomado essa decisão.” FHC se refere ao fato de Lewandowski ter deferido o requerimento que dividiu o julgamento do impeachment em duas votações —uma na qual os senadores decretaram o impedimento de Dilma e outra que serviu para livrá-la da proibição de exercer funções públicas pelo prazo de oito anos.

Na opinião de FHC, Lewandowski “tinha que, pelo menos, submeter o requerimento ao Congresso. Ele pegou o regimento do Senado. Ora, o regimento do Senado não se sobrepõe à Constituição. A Contituição não diz ‘e’. É ‘com’. Impeachment com inelegibilidade.”

FHC desaprovou também a justificativa de Renan Calheiros para podar o mandato de Dilma e depois passar pomada na própria consciência livrando-a do banimento da vida pública por oito anos. “E ainda [houve] a expressão do presidente Senado, Renan: ‘Ah, além da queda quer que o cavalo dê um coice?’ Não é isso. Não estamos tratando de questão de benevolência. Estamos tratando de questão legal. O Senado tinha que responder apenas o seguinte: houve crime de responsabilidade ou não? Se houve, está capitulado na Constituição o que acontece”, lecionou FHC. “Acho que é tão claro isso.” A despeito da clareza, FHC duvida que o STF vá reformular a decisão do Senado.” (assista no vídeo abaixo)


Embora deixe claro que não serviria refresco para Dilma no Senado, FHC é mais generoso com ela do que com Lula. João Santana, o marqueteiro das campanhas petistas, já admitiu perante o juiz Sérgio Moro que parte da dinheirama surrupiada da Petrobras foi parar na caixa de campanha de Dilma. Perguntou-se ao entrevistado se acredita que o anteparo do comitê eleitoral torna a responsabilidade de Dilma menor do que a de Lula, que é acusado até de corrupção passiva? E ele: “Não diminui, acho que é de outra natureza.”

FHC recorda que Dilma foi presidente do Conselho de Administração da Petrobas. “Então, tem parte da responsabilidade”, ele acredita. Ainda assim, é mais duro com Lula. “O que dizem sobre o presidente Lula é diferente. É uma questão de abuso, para benefícios familiares e pessoais. É mais grave do ponto de vista de conduta pessoal. É preciso esperar com calma e ver o que vai acontecer mesmo. Se realmente for condenado, é gravíssimo. Você não pode dizer: ‘Ah, eu não vi,eu não soube.’ O que é isso? Tem limite para não ver e não saber.” (assista abaixo).


A queda de Dilma teve motivações que vão além das pedaladas fiscais e dos gastos sem amparo legislativo, acredita FHC: “A Dilma é uma pessoa que não tem o treino para falar ao país, ela não tem essa vocação. E muito menos para ouvir o Congresso. Não é só falar. O Congresso você tem que ouvir. E muito. Talvez esse seja o erro maior do nosso sistema presidencialista, que dá a ilusão de que o presidente é um monarca, tem um poder enorme, comparativamente maior que o dos Estados Unidos. Na prática não é assim.”

FHC prosseguiu: “Na prática, os presidentes que têm descaso para com o Congresso têm dificuldades. Veja o presidente Collor. Foi membro do Congresso. Mas ele tinha uma atitude um pouco alheia, um pouco ausente. Ele deixou correr solto. Foi derrubado. Já o presidente Lula, que foi congressista, mas não por isso, por causa do treino como líder sindical, tinha capacidade de negociar, de conversar, de discutir. Eu próprio fui senador muitos anos. Tinha uma certa experiência no Congresso. A presidente Dilma não tinha nenhuma.”

Na visão de FHC, Dilma ostentava em Brasília o pior tipo de ilusão: a ilusão de que preside. “Chega lá, pensa que o presidente tem o poder. Negativo! O poder do presidente depende do apoio. O apoio do Congresso e da sociedade.” De resto, o ex-presidente foi buscar em sua árvore genealógica verde-oliva uma analogia para explicar o que sucede com presidentes que menosprezam o Congresso.

“Eu tenho um complexo. Meu pai foi oficial de cavalaria, foi general. Meu avô foi marechal. Eu, quando monto no cavalo, o cavalo percebe logo que eu sou um mau cavaleiro. E tenta me derrubar. O Congresso faz isso com os presidentes. Ele vê como está o presidente. Ele consegue ou não consegue levar o Congresso para um certo caminho? Quando não consegue, o Congresso ocupa o espaço. E pode paralisar o governo.” (assista abaixo mais esse trecho).


FHC concordou com a tese segundo a qual a Lava Jato expôs as mazelas da elite política e empresarial de uma forma jamais vista no país. Recordou-se na conversa que a operação varejou partidões como PT e PMDB, mas também chegou aos salões do PSDB, transformando Aécio Neves em personagem de inquéritos e José Serra em alvo da delação da Odebrecht. FHC se absteve de contrapor uma peneira à luminosidade solar dos fatos. “É inegável que tem alguns problemas”, disse ele, referindo-se aos companheiros de ninho. “Precisa ver o que vai acontecer.”

Acha que o cenário de terra arrassada pode fazer surgir na sucessão de 2018 uma versão nacional de Donald Trump? “Pode, porque a descrença nos partidos é muito ampla, sobretudo nos mais jovens”, respondeu FHC. “Há uma desconexão. É mundial. Para dizer de uma maneira mais genérica: a democracia representativa liberal está em crise porque não há mais essa conexão entre classe, partido e poder.” Afora a dificuldade das legendas de lidar com questões como “raça, gênero, orientação sexual e religião”, há “a crise moral , que também minou os partidos”, disse FHC. “Eventualmente, pode um demagogo aparecer aí e levar a melhor. Eu espero que não. Mas pode. Nós vivemos um momento de interrogação.”

Acredita, então, que 2018 virou uma janela para o imponderável? “Eu acho que sim”, declarou FHC. “E digo isso com pesar, porque está se vendo um fato que é geral, estrutural, dos partidos. E outro fato, que é a ausência de lideranças capazes de chamar a atenção. Veja que, não por acaso, quando você faz uma pesquisa, sobra o nome da Marina [Silva]. Por que a Marina? Porque a Marina tem uma marca e um estilo. Não sei se a Marina vai ter a capacidade de manter tudo isso e, sobretudo, depois, de dirigir. Tudo bem. Mas tem a marca da Marina. Quem mais tem marca? O Lula tinha a marca, gastou a marca. A Dilma não chegou a ter marca. O PSDB tem uma situação curiosa. Ah, está muito dividido. Não é. É que tem muita gente. Três, quatro que têm nomes nacionais…” (veja no vídeo abaixo).


Antes de 2018, há a travessia do governo-tampão de Michel Temer. A certa altura, FHC comparou a gestão provisória de Temer a uma “pinguela”, denominação dada a pontes toscas, que são feitas de pedaços de pau ou de um tronco único. “A situação atual é como se fosse uma pinguela. Não é uma ponte, é uma pinguela. Mas, se quebrar a pinguela, cai no rio. É pior. Então, nós temos que apostar que vamos atravessar essa pinguela e vamos chegar do outro lado do rio.”

Ironicamente, o mesmo FHC que pegou em lanças pela aprovação da emenda constitucional que autorizou a reeleição agora aconselha Temer a fugir da tentação do segundo mandato. “Eu acho que o Michel Temer tem noção de que foi-lhe dada uma chance histórica. Não creio que ele vá ser mordido pela mosca azul. Vão tentar mordê-lo. A entourage sempre quer que o presidente se reeleja e, se possível, permaneça. Acho que o Michel tem maturidade suficiente para escapar dessa armadilha.”

FHC fala abertamente de suas dúvidas sobre a capacidade de Temer de liderar a aprovação das reformas duras de roer que remeterá ao Congresso. “O que nós temos que ver é se ele tem capacidade de, tendo as carcterísticas que tem, de se transformar em alguém que, mais do que tudo isso, é líder, fala ao povo, diz as coisas como são. E força o avanço.”

Nas palavra de FHC, Temer “nunca foi um líder popular. Não se pode pedir dele o que ele não é. Mas ele pode ser capaz de mover a máquina do Estado, que é do que nós precisamos agora. (veja no vídeo abaixo)


Escorando-se na impopularidade de Temer, tão alta quanto a de Dilma, o PT e entidades companheiras foram às ruas enrolados na bandeira das eleições diretas. FHC afirma que convém entender as manifestações, não minimizá-las, como fizeram Temer e o ministro José Serra (Relações Exteriores). Para o ex-presidente, o mote do petismo esbarra na Constituição.

“Você não tem como fazer eleição agora”, diz FHC. “Tem, se a chapa, em conjunto, for negada pelo TSE. Até fim do ano, porque senão é eleição indireta. O Congresso é que vai decidir. Pior a emenda do que o soneto. Então a possibilidade constitucional é muito pequena. Só tem uma, fora essa: a renúncia. Não tem outra. Não vejo que tenha viabilidade, embora as pessoas estejam dizendo o seguinte: ‘Olha, eu errei, quero votar de novo.”

FHC ironiza: “Quem votou no Michel Temer? Eu não votei, porque eu votei no outro lado. Foram os petistas, que votaram na Dilma. Então, é difícil você imaginar que ele tenha um apoio popular. Isso não quer dizer que ele não deva ter apoio institucional. Vejo o Michel Temer como uma figura institucional, num momento delicado do Brasil, que tem uma tarefa a cumprir. Entendo que o povo não tenha afeição pela situação atual. Ela é consequência da Constituição, não da escolha de cada um de nós, é do impeachment. É consequência dos malfeitos havidos e acumulados e da incapacidade da presidente Dilma de governar o Congresso e o país.” (Assista a mais esse trecho abaixo).


FHC considerou “um erro” o apoio do Planalto à aprovação do pacote de reajustes salariais para 14 corporações de servidores públicos. “O compromisso do PSDB não é com a pessoa do Michel Temer, é com a situação do Brasil”, afirma o presidente de honra do ninho. “É preciso tomar certas medidas. São duras, são inconvenientes do ponto de vista de popularidade. Acho que aumentar salário nesse momento… E é de categorias que não são as que mais sofrem no Brasil.”

“O salário no Brasil, para a imensa maioria, é muito baixo ainda. Então, você tem que ter sempre isso em mente”, disse FHC. Para ele, Temer deveria ter enfrentado os servidores. “É impopular. Mas a grandeza no momento atual não vai derivar de ser popular. Vai derivar de ser firme.”

O que fazer? “Explicar, dizer: ‘Olha, eu estou fazendo isso não é porque eu queira machucar você. Não é porque eu gosto, é porque ou eu faço isso ou você morre. Precisa ter a capacidade. Isso é ter capacidade de expor ao Brasil. Acho que o presidente Temer agora, tem uma chance, de novo, porque ele agora que tomou posse.”

Acusado pelo PT de deixar uma herança maldita para seus sucessores, FHC dá um conselho para Temer: “Tem que dizer ao país em que estado real estavam as contas públicas. Senão, daqui a pouco, cai tudo na cabeça dele. O PT vira oposição e tudo o que o PT fez vai dizer que foi o outro que fez. Tem um momento político delicado.” Vai abaixo a íntegra da entrevista de Fernando Henrique Cardoso.


Roberto Requião afirma que ‘fisiologia esclarecida ainda pode salvar Dilma’
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Josias de Souza

Folhapress

Num instante em que até os petistas duvidam da hipótese de Dilma Rousseff retornar à poltrona de presidente da República, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) resiste em jogar a toalha. Avalia que Dilma pode obter os 28 votos de que precisa para evitar o impeachment recorrendo à mesma arma utilizada por Michel Temer: o fisiologismo. “O senador Armando Monteiro, nosso ex-ministro da Indústria e Comércio, cunhou a expressão fisiologia esclarecida. Essa fisiologia esclarecida ainda pode salvar a Dilma”, disse Requião em entrevista ao blog.

Requião recordou que 21 senadores votaram contra a conversão de Dilma em ré. E faz as costas: “A Dilma, então, precisa de mais sete senadores. E ela tem a República inteira para negociar com a fisiologia esclarecida.” Noutro trecho da conversa, o senador acrescentou: “Ela tem o Brasil na mão e precisa de apenas sete votos. Precisa ser muito inábil para não conseguir.” O julgamento final do processo de impeachment começa nesta quinta-feira. Num colégio de 81 senadores, são necessários 54 votos para confirmar a deposição de Dilma. O Planalto estima que terá entre 60 e 63 votos.

Com a franqueza que lhe é peculiar, Requião soou severo com o PT: “Dentro do PT tinha revolucionários que eram capazes de assaltar um banco para fazer caixa para a revolução. Perto disso, o sobrepreço numa obra pública não significava nada.” Evocou uma frase do ex-presidente do Uruguai: “O Pepe Mujica diz que o principal inimigo do socialismo não é o capitalismo, mas o desejo cultural de acumulação.”

Requião não poupou Lula, seu velho amigo: “Veja o Lula com aquele sítio [de Atibaia]. Tem cabimento isso? Ele tinha entrado naquela vigarice de palestras, que foi inventada pelo Fernando Henrique. O Bill Clinton também fazia a mesma coisa. O Lula, com essas palestras, não precisava ganhar de presente… Ele ia ganhar [o sítio] de presente. Eu sei o que é isso.”

E quanto a Dilma? “Conheço a vida da Dilma. O irmão da Dilma cria tilápia num tanque, na periferia de Belo Horizonte. Eu acho que a Dilma facilitou o trabalho do Sérgio Moro, junto com o [José Eduardo] Cardozo. Eles deixaram o Moro e a Polícia Federal trabalhar. […] Achavam que caía o lado corrupto do partido e ficariam eles, os puros. Só esqueceram de uma coisa: foram beneficiários dessa corrupção para chegar à Presidência da República.”

Requião fez uma revelação inusitada. Contou que, no segundo turno da campanha presidencial de 2014, Dilma estava animada com a atuação do juiz da Lava Jato. “Ela perguntou: ‘Esse teu amigo, o Sérgio Moro, ele vai mesmo tocar essa investigação para a frente? E eu: Não tenha dúvida, o Moro é um obstinado. Ele não pára. A Dilma deu uma risada e disse: ‘Requião, cai a República.’ Ela estava contente com o Sérgio Moro.” Vai abaixo a entrevista:

estrelinha

— Por que o país chegou ao impeachment? Chegamos a isso, em primeiro lugar, pela inabilidade de comunicação da Dilma. Nenhum governante deixaria de ter um terço de amigos no Senado, amigos pessoais até. Depois, por causa do Joaquim Levy, que foi o contrário dos compromissos que a Dilma tinha assumido na campanha. Hoje, sei que a Dilma pensava que, se tentasse aquele ajuste fiscal clássico por um ano, ela resolveria o problema e voltaria à sua agenda política. Ledo e vadio engano, como se demonstrou. Em terceiro lugar, chegamos ao impeachment porque atrás disso tudo há o interesse geopolítico dos Estados Unidos. O impeachment é o avanço norte-americano sobre as reservas minerais —minério, petróleo e água. Essa ação não se dá só no Brasil. Acontece também na Venezuela, na Argentina e na Colômbia.

— Acha mesmo que os Estados Unidos têm essa capacidade de articulação, a ponto de influir no processo de impeachment? Eles têm essa capacidade de articulação. E eles têm agentes. O [José] Serra é um agente desta proposta de liberalismo e globalização. Defende a tese do governo único, global. O Serra é um agente disso.

— Teve a oportunidade de dizer para Dilma que ela precisava melhorar a comunicação com os senadores? Eu não falo muito com a Dilma. Fiz a campanha dela, fiz o primeiro grande comício do segundo turno, em Curitiba. Ela ganhou a eleição. E eu nunca mais falei. Ela se isola. Eu também não podia engolir aquela política econômica do Joaquim Levy. Ela disse a mim agora que achava que mudaria depois de um ano. Achava que acertaria as coisas em um ano, seguraria o mercado e os bancos. Achava que depois tocaria a agenda social.

— Considera que o afastamento de Dilma é jogo jogado? Acho que ela pode não ser impichada. Estamos trabalhando para isso. Creio que teremos 28 senadores.

— Na última votação, Dilma teve 21 votos. O que mudou? Primeiro, nós tínhamos 22 votos. Daí, saiu o João Alberto [PMDB-MA]. Mas vieram outros. Prevalecerá uma visão ética desse processo. Todo mundo sabe que não há crime de responsabilidade. Isso é conversa mole. E há os erros do Temer.

— Que erros? Você acha que não tem ninguém que esteja estupefacto com a boçalidade do Serra no Ministério das Relações Exteriores. Houve a tentativa de compra do voto do Uruguai [para suspender a transferência da presidência temporária do Mercosul para a Venezuela]. Isso foi denunciado pelo chanceler uruguaio. Temer loteou a República. A Dilma, então, precisa de mais sete senadores. E ela tem a República inteira para negociar com a fisiologia esclarecida. O fisiológico esclarecido é o que quer um benefício para se manter na política, mas não quer mais ficar com o Temer e essa vergonha que está acontecendo. Então, o que pode desequilibrar é o favor pessoal, é o favor para a sua reeleição, para a garantia do seu mandato. A diculdade disso é que Dilma não consegue se comunicar.

— O que seria do país se Dilma voltasse? Não posso dizer que seria uma maravilha a volta da Dilma. Mas o país cresceria com isso em termos de debate político. O plebiscito faria o Brasil discutir essa proposta política do Temer, do Serra, do Meirelles, dos diretores banqueiros do Banco Central, dessa gente toda. Esse projeto que está aí não elege nem síndico no Brasil. Estão impondo isso. Não tem a menor viabilidade eleitoral. Isso é um golpe. Assim como achei um golpe a nomeação do Joaquim Levy para a Fazenda. Era um golpe contra os compromissos de campanha.

Por que fala da volta de Dilma sem entusiasmo? Não estou na turma do ‘volta querida’ nem na turma do ‘fora Temer’. O país é o que me interessa.

— O que achou da proposta de Dilma sobre o plebiscito para antecipar a eleição presidencial? Isso foi uma condição para ela voltar. Ela se convenceu de que não tem condições de voltar se não aceitar isso.

— Quem impôs essa condição? O grupo que trabalha pela volta dela.

— A essa altura, a hipótese de volta de Dilma à Presidência não é ilusória? Não. Ela tem o Brasil na mão e precisa de apenas sete votos. Precisa ser muito inábil para não conseguir. Não temos um Congresso ideológico. Será que ninguém está vendo o fisiologismo do Temer, será que ninguém está vendo o que está ocorrendo com o país?

— Acha, então, que Dilma precisa recorrer às mesmas armas para retornar? O senador Armando Monteiro, nosso ex-ministro da Indústria e comércio, cunhou a expressão fisiologia esclarecida. Essa fisiologia esclarecida ainda pode salvar a Dilma. No passado tínhamos os déspotas esclarecidos. Agora, temos os fisiológicos esclarecidos. Pense no efeito estético de fazer essa cachorrada que está no governo voltar para a friagem. O que o Serra faz no Itamaraty é impensável.

— O senador Cristovam Buarque está na sua conta? Não está, mas já esteve. E tem mais: a primeira carta da Dilma ele escreveu junto comigo e o senador Acir Gurgacz. Como ele pode escrever a carta e depois dizer que não vota com a Dilma?

— A carta que Dilma divulgou foi escrita por seus apoiadores? Não, essa foi ela que fez.

— A outra versão era melhor? A outra tinha noções econômicas mais claras. É uma facilidade resolver o problema econômico do país.

— Fácil? O que deve ser feito? Tenho um texto na minha página sobre o que fazer. Chama-se Para Mudar o Brasil. Sou um admirador de um alemão que foi esquecido no mundo porque trabalhou com Hitler. Chamava-se Hjalmar Horace Greeley Schacht. Era um liberal. Quando entregaram a economia da Alemanha para ele, começou dizendo que a Alemanha só comprava de quem comprasse dela. Protecionismo absoluto. Ele enfrentou a banca. Acabou com a ciranda do financiamento da dívida pública e transformou em investimento. Simples. Isso já aconteceu em outros lugares do mundo. Não é uma impossibilidade.

— Quando ainda estava na Presidência, Dilma não o chamava para conversar? Eu nunca pedi um emprego para ela, nunca indiquei ninguém. Até por isso, aquele staff dela queria me ver longe. Preferiam a fisiologia rasteira do Congresso Nacional, trocando tudo por favores, emendas, comissões e empregos.

— O que levou o PT a adotar esse modelo que combina fisiologia e corrupção? Primeiro, eles precisavam de caixa para competir com os conservadores. Dentro do PT tinha revolucionários que eram capazes de assaltar um banco para fazer caixa para a revolução. Perto disso, o sobrepreço numa obra pública não significava nada. Tinha o pessoal dos fundos de pensão, que já metia a mão. A corrupção estava aí, ela é implícita à atividade humana. E eles foram se aprofundando nisso. Conseguiram se perder completamente. O Pepe Mujica [ex-presidente do Uruguai] diz que o principal inimigo do socialismo não é o capitalismo, mas o desejo cultural de acumulação. Primeiro o cara faz uma caixa para a campanha. O sujeito diz: ‘Vamos fazer uma maioria no Congresso, derrotar a direita e implantar a justiça social no Brasil’. Daí ele pega aquele dinheiro e, psicologicamente, patrimonializa. Quando chega na eleição, diz: ‘Esse aqui já é meu’. Vamos arranjar outro dinheiro para a campanha. Esse é o processo.

— Como analisa a participação de Lula em tudo isso? Veja o Lula com aquele sítio [de Atibaia]. Tem cabimento isso? Ele tinha entrado naquela vigarice de palestras, que foi inventada pelo Fernando Henrique. O Bill Clinton também fazia a mesma coisa. O Lula, com essas palestras, não precisava ganhar de presente… Ele ia ganhar [o sítio] de presente. Eu sei o que é isso.

— Como assim? Quando eu ganhei o governo do Paraná pela primeira vez [1991], chegou tanto presente na minha casa —coisa caríssima, de pessoa que eu não conhecia, de empresas, de empreiteiras— que eu chamei a Casa Militar, mandei botar num caminhão e devolver tudo. Não conheço esses caras! Por que estão me dando tantos presentes?

— Precisou de um caminhão? Um caminhão! Na época, eram eletro-eletrônicos, faxes, uma verdadeira loucura. Minha mulher e minha filha disseram: ‘Tem gente que gosta de você, ficou satisfeita, mandou presentes.’ Daí eu estabeleci uma regra: aceito presente, desde que sejam duas garrafas de vinho ou um livro. Livros ganhei muito poucos. Ganhei vinhos maravilhosos. Tenho até hoje uma adega fantástica em casa, remanescente disso.

— Ficou só nos vinhos? Vou de contar uma passagem, mas não vou dizer o nome da empreiteira. Ganhei do [Jaime] Lerner a eleição para a prefeitura. Se você olhar o Datafolha da época verá que terminei como o prefeito mais bem avaliado do Brasil. Daí me candidatei a governador. Já saí na frente nas pesquisas. E uma empreiteira famosa me procurou numa viagem que eu fiz a São Paulo. Isso aconteceu lá atrás, fui eleito para a prefeitura em 1985.

— A empreiteira era a Odebrecht? Não vou te dizer.

— Era a Odebrecht? Não era a Odebrecht.

— O que ocorreu? Essa empreiteira, que não vou dizer qual é, me disse: ‘Requião, nós queremos te ajudar. Você fez uma administração importante em Curitiba, vai ser governador de Estado. Você precisa de um funding. Você vai ser presidente da República, sua carreira será brilhante. Mas sem dinheiro você não vai conseguir avançar. Você sabe que a política é feita assim, a realidade é essa. Vamos fazer assim: você assume o governo do Estado e cada obra que a nossa empresa pegar no governo do Estado você terá 3%. Você indica quem vai receber. Se quiser receber dentro do Brasil tudo bem. Se quiser receber fora, tudo bem. Indica um banco e uma conta. Nós resolvemos isso.

— Como reagiu? Eu mandei o cara à puta que o pariu na hora. E se você quiser saber qual é a empreiteira, é uma que jamais fez nenhuma obra enquanto eu fui governador por três vezes no Paraná.

— Essa empreiteira está envolvida na Lava Jato? Todas estão. Em 1985 já estavam propondo isso: eram 3%. Eles diziam: ‘Não acresce muito ao valor das obras, te damos uma condição de fazer política, não é inflacionário. É uma coisa correta. É como se faz no mundo, Requião’. Isso já estava assim naquela época.

— Acha que Lula não conseguiu resistir à tentação? É o desejo de acumulação. De repente, um jatinho à disposição, uma casa e tal. Veja o que ocorre agora: o [pecuatista José Carlos] Bumlai disse: ‘A Marisa pediu para fazer a reforma [no sítio de Atibaia].’ Não vou condenar a Marisa. É uma moça simplória. Foi primeira-dama da República. É a tentação, é esse desejo cultural de acumulação. Agora, o Lula foi um baita presidente, com sua sensibilidade social. Mas tem a cozinha do apartamentinho. É claro que foram lá e ofereceram a cozinha do apartamento que o Lula ia comprar. Nem acho que seja um crime ele ter aceitado. É uma fraqueza.

— Acredita que Lula pode ser preso? O Lula não vai para a cadeia.

Dilma está isenta de responsabilidade nos casos de corrupção? Conheço a vida da Dilma. O irmão da Dilma cria tilápia num tanque, na periferia de Belo Horizonte. Eu acho que a Dilma facilitou o trabalho do Sérgio Moro, junto com o [José Eduardo] Cardozo. Eles deixaram o Moro e a Polícia Federal trabalhar.

Deveriam ter atrapalhado a investigação? Não. Quero dizer que eles achavam que acabariam com essas práticas no PT. Achavam que caía o lado corrupto do partido e ficariam eles, os puros. Só esqueceram de uma coisa: foram beneficiários dessa corrupção para chegar à Presidência da República. A Dilma achava, como boa guerrilheira, que se beneficiaria disso tudo e salvaria o país. Só que depois se perdeu na avaliação econômica.

— Do modo como fala, parece que Dilma torcia por Sérgio Moro, é isso? Eu fiz a retomada da campanha da Dilma no segundo turno, em 2014. Ela estava com a eleição perdida. Telefonou para mim: ‘Requião, você faria um comício para mim aí no Paraná.’ Ela insistiu. Resolvi fazer. Fiz o maior comício da história do Paraná. A Dilma chegou lá murcha, derrotada, não falava com ninguém. Estava chorosa. Ela me perguntou: vai ter alguém no comício. Eu disse: Ah, Dilma, umas duas, três mil pessoas eu garanto para você. Fomos para o centro de Curitiba, praça da prefeitura velha. Botamos 60 mil pessoas. Ela mudou. Ficou animada. Na volta ela perguntou: ‘Esse teu amigo, o Sérgio Moro, ele vai mesmo tocar essa investigação para a frente? E eu: Não tenha dúvida, o Moro é um obstinado. Ele não pára. A Dilma deu uma risada e disse: ‘Requião, cai a República.’ Ela estava contente com o Sérgio Moro. E o Sérgio é um apreciador da Operação Mãos Limpas. Percebeu que não podia brigar com todo mundo ao mesmo tempo. Então, ele focou no PT. começou a se beneficiar disso. E foi apanhado pelo pecado preferido do diabo, que é a vaidade. Como é que o Sérgio Moro que eu conheci —duro, firme— foi dar uma palestra no instituto do João Dória, esse candidato do PSDB em São Paulo? Como o Sérgio foi tirar foto ao lado desse Dória, que é uma besta? Ninguém pode dizer que o Sérgio Moro é um qualquer. Ele pegou o Marcelo Odebrecht. Mas peca pela vaidade.

— Esse contexto de irregularidades teve influência no impeachment? Falei num discurso que havia 35 senadores implicados. Hoje, dizem que são 40. Mas não creio que isso teve influência. O que influenciou foi a aquela mobilização nas ruas, o ódio à Dilma, amplificado pela imprensa, a Globo batendo pesado, os interesses geopolíticos americanos, o Serra articulando dia e noite. Veja esse projeto do Tasso Jereissati, que proíbe agente político de ser diretor de estatal. O Tasso é correto, não é um canalha. Mas pensamos de forma oposta. E esse projeto é uma idiotice. Para que existe um partido político? Para propor políticas públicas e ocupar o poder. Os mesmos que acham que um dirigente político não pode ser diretor de estatal colocam no Banco Central os vice-presidentes dos principais bancos do Brasil. Aí pode!

— Como membro do PMDB, não se sente representado pelo governo Temer? Não. Eu sou o PMDB. Eles não são. Numa reunião da Fundação Ulysses Guimarães, eles tentaram vender esse programa ‘Uma Ponte para o Futuro’. Eu fui lá, fiz um discurso contra. E 17 Estados aderiram à minha posição. Eles não colocaram o projeto em votação. Iam perder. Esse governo Temer não é o PMDB. É parte de um jogo da política corrompida.

— Faz alguma distinção entre o pedaço corrompido do PT e o PMDB que está no poder? Nenhuma distinção. É a mesma coisa. O problema é o sistema. E tem outra coisa mais séria. Depois da derrota do nazismo sugiu na Europa o Estado social. É o Estado que respeita a sustentabilidade, a natureza, o direito das mulheres, das minorias, reconhece direito dos trabalhadores, financia a educação, a saúde, pensa na aposentadoria. Esse Estado está sendo combatido agora em três frentes pelo dinheiro. Isso segue um tripé: Primeiro, a precarização do Executivo, transformado num chefe de polícia para reprimir manifestações populares. Segundo, a maximização do poder do Banco Central independente. Terceiro, a precarização do Parlamento, com o financiamento de campanha por bancos e grandes empresas. Os parlamentares não são mais do PT, do PMDB. São mandaletes, prepostos dos seus financiadores. Isso tudo resulta em coisas como a precarização do trabalho, o fim das garantias. Quando falam em Banco Central independente, os idiotas pensam em BC independente dos seus países. Mas não é. O que tirou a Inglaterra da União Europeia? Claro que há uma boa dose de xenofobia, de ódio ao estrangeiro. Mas, basicamente, foi o domínio absoluto da Alemanha sobre a economia e a regulamentação do capital, que marginalizou o capital inglês.

Se passar o impeachment Dilma ainda tem futuro político? Não. Acabou.

O PT vai virar o quê? Pó. O baque foi muito grande. Isso não significa que seja definitivo. O PSDB já virou pó e está se exibindo de novo. Lembra que o PT só cresceu porque o governo Fernando Henrique foi um fracasso absoluto do ponto de vista da população. Quebrou o país, diminuiu o emprego, vendeu empresas, não pagou dívida. Agora eles querem completer o serviço.

Não atribui ao PSDB nem o mérito da estabilização da moeda? Por esse raciocínio, seria preciso atribuir ao Lula o mérito da recuperação brasileira e não ao boom das commodities. Lula fez distribuição de riqueza, aumentou o salário mínimo. Mas não cuidou da macroeconomia. Não sabe nem o que é isso. Basta lembrar que ele insistia para a Dilma colocar o Henrique Meirelles de volta.

Considera o Temer e seu grupo dissidentes no PMDB? Esse grupo não representa o partido. E o Temer é o melhor de todos eles.

Votará contra as propostas de um eventual governo do PMDB? Claro que vou votar contra.

Tem interlocução com o Temer? Depois que ele assumiu, nunca mais falei com ele. Eu apoiei a eleição do Temer [para a presidência do PMDB]. O Paraná foi o primeiro Estado. Achava que ele era menos ruim que o Romero Jucá no comando do partido.

O que acha da Operação Lava Jato? Sérgio Moro é meu amigo. Trabalhamos juntos quando fui governador do Estado. Ele como juiz federal, eu como governador. Combatemos o narcotráfico, a corrupção. Ele é um paladino, formado na escola americana. Acha que vai moralizar tudo. Mas não tem a menor noção de economia global. Veja a recessao brasileira: 2% é por conta da Lava Jato.

— Acha que a Lava Jato deveria ser evitada? Não. Mas se o governo não estivesse envolvido nisso, ele teria feito uma intervenção nas empresas. Botava um general preparado no controle, manteria essas empresas vivas e o emprego estável. Não tiveram coragem de intervir porque se envolveram.

Intervir significaria estatizar as empreiteiras? Exatamente. Eu interviria imediatamente. Tomava conta das empresas e punha um general lá administrando.

— O juiz Sérgio Moro realiza o papel que lhe cabe, não? Sim, ele faz o papel dele, sem dúvida. Mas não tem noção dos prejuízos. E está perdendo a linha. Esse negócio de querer investigar os presentinhos que Lula ganhou é brincadeira.


Simone Tebet: ‘A gestão Dilma levou à tempestade perfeita e ao impeachment’
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Josias de Souza

Partidária do impeachment, a senadora Simone Tebet (PMDB-MS) avalia que Dilma Rousseff poderia ter produzido um desfecho diferente para o seu mandato. “Se ela tivesse renunciado lá atrás, levaria a uma comoção da sociedade, pedindo que o vice renunciasse também, para que houvesse nova eleição. Essa seria uma saída que talvez atendesse melhor aos anseios das ruas.” Ao prolongar a própria agonia, a presidente petista deixou os congressistas sem alternativa, disse a senadora em entrevista ao blog. “A gestão da Dilma levou o país à tempestade perfeita e, em consequência, ao impeachment.”

O PMDB foi sócio do governo do PT, recordou o repórter à senadora. A Lava Jato exibe a cumplicidade das duas legendas. Sendo peemedebista, não sente incômodo? Simone Tebet respondeu assim: “Não. Até porque, se houver a comprovação de qualquer coisa contra o Temer no futuro, ele também pode passar pelo mesmo processo”. Vai abaixo a entrevista da senadora:

— Durante todo o processo, Dilma e seus partidários matelaram a tese de que o impeachment, tal como foi conduzido, é um golpe. Como a senhora espera ser tratada pela história? Não tenho medo do que os livros de história vão contar. Até porque essa história vai ser escrita por todos nós: os professores nas salas de aula, os jornalistas nos meios de comunicção, os historiadores nos livros. Vai ser escrita também pelos milhões de desempregados e por aqueles que se sentem lesados pela corrupção desenfreada que se estabeleceu no Brasil. Eu me insurjo contra a expressão golpe de Estado, não necessariamente contra a palavra golpe. Golpe qualquer um pode dizer, porque é um discurso político. Golpe de Estado é um termo jurídico, significa uma ruptura inconstitucional. Isso não houve. O impeachment está na Constituição. Preservados os pressupostos jurídicos preliminares, a decisão é política. Tanto que não cabe recurso ao Supremo. Os livros vão deixar tudo muito claro.

— Está convencida de que o uso de recursos de bancos públicos para bancar despesas do Tesouro —as chamadas pedaladas fiscais— e a liberação de créditos suplementares sem autorização do Congresso justificam o impeachment? Não havendo golpe de Estado, o julgamento depende do posicionamento ideológico e pessoal de cada um. A questão é enxergar se havia ou não a gravidade dos fatos a ponto de levar o impeachment adiante. Entendo que não basta analisar os fatos isoladamente. Para acontecer o impeachment, numa democracia moderna, é preciso que haja uma tempestade perfeita. A gestão da Dilma levou o país à tempestade perfeita e, em consequência, ao impeachment. Está caracterizado o crime de responsabilidade. Muitos dizem que parece pouco. Eu poderia até absolvê-la, desde que não estivesse num país que vive a sua maior crise política, econômica e social por uma série de questões relacionadas à gestão dessa presidente. Então, os fatos mencionados no processo existiram. Analiso esses fatos. Mas não tenho como me basear apenas neles. Tenho que analisar todo o contexto para decidir se absolvo ou não. É um julgamento político.

— O que a senhora está dizendo é que pesa no julgamento o chamado conjunto da obra? Exatamente. Se você tivesse crime de responsabilidade com uma economia forte, com apoio popular e do Congresso, sem uma gestão fiscal e econômica errática, você poderia até absolver a presidente, mesmo diante do cometimento desses crimes de responsabilidade de que ela é acusada agora. Esse é um julgamento político.

— Nas manifestações de rua havia o ‘fora Dilma’, mas não se viu o ‘fica Temer’. O PMDB, foi sócio do governo do PT. A Lava Jato deixa claro que o PMDB foi também cúmplice. Sendo a senhora do PMDB, isso não lhe causa incômodo? Não. Até porque, se houver a comprovação de qualquer coisa contra o Temer no futuro, ele também pode passar pelo mesmo processo. Assim é a democracia. Eu não tenho outra saída legal. A única saída legal é a que estamos adotando. A carta da presidente Dilma chegou com quase dois anos de atraso. Se ela tivesse renunciado lá atrás, levaria a uma comoção da sociedade, pedindo que o vice renunciasse também, para que houvesse nova eleição. Essa seria uma saída que talvez atendesse melhor aos anseios das ruas. Não aconteceu. A presidente levou o problema até o último minuto do segundo tempo. Falar agora em plebiscito, que é inconstitucional, nos faz ficar sem saída. Não tenho nenhum incômodo com essa situação. Todos os partidos estão sujeitos a ter bons e maus políticos. Não é só o PT ou o PMDB. Tem outras siglas que estão sendo investigadas. Uma vez comprovado, todos têm que ser julgados pelos seus crimes. Mesmo o presidente —o atual e os futuros.

— No Brasil pós-redemocratização, tivemos quatro presidentes eleitos: Fernando Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Dois foram abalroados pelo impeachment. A taxa de mortalidade é de 50%. Isso é sinal de vitalidade ou de precariedade da nossa democracia? Isoladamente, isso é neutro. O que acho mais grave é que não temos condições de eleger um presidente da República com estabilidade para governar se não mudarmos pelo menos um item da nossa legislação eleitoral: a cláusula de barreira. Ninguém vai governar numa democracia forte e consolidada como a nossa com quase 40 partidos constituídos. Com essa profusão de partidos, você entra no presidencialismo de coalizão. Um presidente, por mais que tenha votação extraordinária, ainda que saia das urnas com 80% dos votos, ele não vai fazer maioria no Legislativo. Para obter a maioria, ele começa a fazer concessões de ministérios, cargos. Aí você já começa um governo Frankstein, sem coesão. O presidente não tem liberdade para escolher nem aqueles que serão os seus gerentes. Muitos falam de reforma política. Acho que se avançássemos só nisso, a clausula de barreira, capaz de reduzir o número de partidos, teríamos um presidencialismo mais forte, menos sujeito a intempéries.

— Acha que o PMDB se beneficará politicamente do processo de impeachment? Não creio. O presidente Temer terá de implantar um conjunto de reformas que não são populares, mas necessárias. Creio que ele conseguirá fazer isso, porque não tem a intenção de ser candidato a presidente da República. Vai querer sair como o Itamar Franco saiu. E o Itamar só foi reconhecido bem depois. Também no caso do presidente Temer, só a médio prazo virá o reconhecimento de que o remédio foi amargo, mas o esforço era necessário. Se tudo der certo, começaremos a colher os frutos daqui a quatro ou seis anos. Portanto, é uma vontagem termos um vice-presidente que não tem a intenção de ser presidente da República novamente. Ele pode fazer mais livremente o dever de casa.

— O que imagina que ocorrerá no país com a efetivação de Michel Temer? Hoje, o sucesso do país depende muito mais do Congresso do que do governo Temer. O Temer já colocou suas cartas na mesa. Já sabemos o que podemos esperar, o que pensa a equipe econômica. Cabe ao Congresso, sem deixar de fazer os embates necessários, deliberar sobre aquilo que é relevante para tirar o país rapidamente dessa crise. É preciso ter bom senso.

— Haverá bom senso depois do julgamento final do impeachment? A preocupação com o day after é crucial. O dia seguinte é o grande ponto de interrogação. O sucesso das medidas econômicas a serem implantadas pelo governo Temer dependem muito mais de nós, do Congresso, do que da equipe econômica. Essa equipe é, indiscutivelmente, o dream team brasileiro. É um time de ouro. Ninguém discute a competência, a capacidade e a racionalidade dessa equipe. A questão é saber se o Congresso Nacional, na sua diversidade, vai deixar de lado as querelas partidárias e pessoais para se concentrar no essencial. É preciso saber se cada um vai dar sua parcela de contribuição ou se o Congresso vai continuar sendo fisiológico, partidarizado e voltado para interesses regionais, às vezes até pessoais. É preciso decidir se vamos colocar os interesses da sociedade em primeiro plano.

— Não acha que a fisiologia e os interesses pessoais já prevaleceram no Congresso? Sim. Mas a minha questão é se vai continuar assim. O governo Temer é frágil hoje por ser um governo de fato, mas não de direito. O impeachment não se encerrou. Consequentemente, ele é um presidente interino.

— Não lhe parece que as relações fisiológicas entre Legislativo e Executivo tendem a permanecer inalteradas? Sem a reforma política, essa relação persiste. A pergunta que faço é se nesse momento de crise, diante de projetos importantes para serem votados, se esses projetos serão tratados de forma diferente pelo Congresso. Falo de projetos como o teto que impõe limite para os gastos públicos e a reforma da Previdência. Sem prejuízo da ampla discurssão que os temas devem merecer, esses projetos precisam ser tratados pelo Congresso de outra forma. As eleições de outubro serão decisivas. O recado das urnas vai apontar o novo posicionamento do Congresso. Creio que as urnas vão ser decisivas.

— Acha que medidas como o teto dos gastos e a reforma da Previdência serão aprovadas? Acredito que sim. A reforma previdenciária será mais polêmica. E tem que ser. Mexe com o futuro de todos nós. Tem que ter um amplo debate. Mas terá que ser aprovada. Qualquer que fosse o governo, Dilma ou Temer, teríamos que avançar nessa questão. O segredo está na forma como vamos explicar esse assunto para a sociedade. Temos que alcançar o equilíbrio, sem exigir demais de quem já está com expectativa de direito, mas cada um pensando nas futuras gerações, que são os nossos filhos. Precisamos privilegiar as regras gerais, não as exceções. Essa reforma previdenciária é tão urgente quanto a reforma política.