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Categoria : Colunas

Trasportadoras realizam sonho de Lula: paralisam o país e encurralam Temer
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Josias de Souza

Chamar de greve de caminhoneiros uma paralisação que não existiria sem o apoio das empresas transportadoras de carga é o mesmo que chamar de negociação uma chantagem. Seja qual for o desfecho da crise provacada pela alta dos combustíveis, ficou entendido que o Brasil, com sua predileção pelo transporte rodoviário, está nas mãos do empresariado que controla a frota de caminhões e contrata os serviços de caminhoneiros autônomos.

Nem CUT nem o “Exército do Stédile”. Quem demonstrou força para paralisar o país e encurralar Michel Temer foi o baronato do setor de transportes. Três dias de bloqueios nas estradas foram suficientes para provocar desabastecimento em todas as regiões do país. Não é a primeira vez. Nem será a última. Dá pena a enrascada em que se meteu o presidente. Fraco e impopular, Temer não governa os acontecimentos. É desgovernado pelos fatos.

Em reunião no Planalto, Temer pediu uma trégua de três dias aos representantes do tumulto. Foi prontamente desatendido. Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, presidentes da Câmara e do Senado, se juntaram para tirar uma lasca do governo. A pretexto de arrumar dinheiro para compensar a isenção dos impostos que encarecem o diesel, Maia e Eunício decidiram fazer o favor de colocar para andar a proposta de reoneração da folha de pagamento.

Abre parêntese: a reoneração da folha era solicitada por Temer desde o ano passado. Seus aliados no Congresso deram de ombros. Com os cofres em situação de penúria, o governo avançou sobre o contribuinte. Aumentou, por exemplo, PIS e Cofins, que incidem sobre os combustíveis. Agora, com os caminhões atravessados nas rodovias, os congressistas se dispõem a fazer por pressão o que não fizeram por opção. Fecha parêntese.

A toque de caixa, Rodrigo Maia (DEM-RJ) comandou, na noite desta quarta-feira, a aprovação do projeto que tributa a folha salarial de 28 dos 56 setores que desfrutam de isenção. Em combinação com Maia, o relator da proposta, deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), enfiou um jabuti dentro do texto: um artigo que reduz a zero a alíquota do PIS/Cofins sobre o diesel. Alegou-se que a perda de receita será compensada com o dinheiro resultante da retributação das folhas salariais.

O diabo é que, na véspera, Maia combinara com o governo que a grana que virá das folhas serviria para zerar não o PIS/Cofins, mas a Cide, contribuição que também incide sobre o diesel. Ao farejar o cheiro de queimado, Temer enviou à Câmara o trator que ele chama de coordenador político: Carlos Marun. Numa evidência da falência da autoridade de Temer, os deputados tratoraram o emissário do presidente, ignorando-o. Aprovado em votação simbólica, o projeto vai ao Senado.

Como se fosse pouco, o desentendimento envenenou a calculadora. Pela conta do Planalto, a renúncia fiscal aprovada pelos deputados produzirá um buraco de R$ 12 bilhões. Que o Ministério da Fazenda diz não ter como tapar. Na conta de Maia e do relator Orlando, o custo será de R$ 3,5 bilhões. Alguém cometeu um erro de cálculo do tamanho de R$ 8,5 bilhões. Há no lance eleição demais e sensatez de menos.

Enquanto o Planalto se estanhava com seus pseudo-aliados em Brasília, a Petrobras anunciou no Rio de Janeiro uma redução de 10% no preço do diesel. Pelo telefone, o presidente da estatal, Pedro Parente, comunicou a novidade a Temer cinco minutos antes do anúncio. O refresco tem prazo de validade de 15 dias. Espera-se que em duas semanas o governo consiga produzir um entendimento.

Alheios aos esforços, os bloqueadores de estradas afirmaram que os caminhões continuarão atravessados no asfalto. A Advocacia-Geral da União obteve ordem judicial para desobstruir as vias na marra. Radicalizando-se a fuzarca, a mistura pode acabar mal. Esse é um tipo de briga em que a sociedade brasileira entra com a cara.


Bolsonaro exibe ética flexível em ato de prefeitos
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Josias de Souza

Jair Bolsonaro vai se revelando um presidenciável peculiar. As poucas ideias que tem não são boas. E algumas nem são dele. Quando discursa, o candidato passa a impressão de que apenas repete o que a plateia deseja ouvir. Nesta quarta-feira, falando para prefeitos, Bolsonaro defendeu a flexibilização dos rigores do Ministério Público no trato com gestores municipais em litígio com a lei.

Disse Bolsonaro: “Temos de ter coragem de falar sobre o Ministério Público. Faz um bom trabalho? Em parte, sim. Mas tem seus problemas. Que prefeito não fica com medo ou preocupado respondendo por improbidade administrativa? Temos de mudar isso.”

Como assim? “Não é dizer que não vai ter mais fiscalização, não é isso. Mas temos de ser prefeitos, governadores e presidente sem medo. Todos nós podemos errar. E não é do erro que vem acontecendo, vem uma lapada em cima da cabeça da gente.” Sem medo, chegou-se ao mensalão, punido com cadeia pelo STF. Com medo, produziu-se o petrolão. Mas Bolsonaro quer um Ministério Público “parceiro”. Pelo bem do “desenvolvimento do Brasil.”

Os repórteres estranharam a falta de nexo, pois Bolsonaro apresenta-se na campanha enrolado na bandeira do combate à corrupção. E o candidato: Não “tem nada a ver uma coisa com outra. Tem que ter bom senso. Até um simples fiscal não pode chegar num estabelecimento e meter a mão na caneta. Orienta num primeiro momento. Quem nunca reclamou de uma multa de trânsito? Esta é a intenção. O combate à corrupção tem que continuar”.

Bolsonaro sentiu a necessidade de esmiuçar um pouco mais seu raciocínio. “Por exemplo: quando fala de propriedade rural, está lá a emenda constitucional do trabalho escravo. Ninguém é a favor de trabalho escravo. Tem gente do Ministério Público, do Judiciário, que entende que o trabalho análogo à escravidão também é escravo. Tem que botar um ponto final nisso. Análogo é uma coisa e escravo é outra.”

Quer dizer: a pretexto de justificar um absurdo —o relaxamento na fiscalização de malfeitos municipais— Bolsonaro se alinhou com outras três temeridades: desmereceu o trabalho de fiscais fazendários, estimulou a rebelião contra inspetores de trânsito e revelou-se condescendente com a exploração de mão de obra no campo. Fez tudo isso num instante em que negocia uma aliança com o PR de Valdemar Costa Neto, o ex-presidiário do mensalão.

Nesse ritmo, o ex-capitão vai acabar ensinando ao seu eleitorado que não se deve confundir um certo candidato com o candidato certo. Não é que o Bolsonaro seja contra o combate à corrupção. Não, não. Absolutamente! Ele apenas ostenta princípios éticos flexíveis. Natural. Acabar com a corrupção sempre foi a prioridade de todos os que ainda não chegaram ao poder.


Alckmin continua sendo chuchu, só que de xepa
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Josias de Souza

Espremido em sabatina, o tucano Geraldo Alckmin exibiu uma retórica feita 50% de evasivas e 50% de mesmices. O resultado da soma das duas partes é um presidenciável 100% incapaz de responder às duas principais demandas do eleitorado em 2018: limpeza e esperança.

O candidato do PSDB ao Planalto foi evasivo ao responder às perguntas sobre o atacadão de corrupção. Saiu-se com mais do mesmo ao prometer reformas ambiciosas sem esmiuçar uma estratégia para colocá-las em pé. Ao contrário, reconheceu que o próximo presidente terá de lidar com um Congresso fragmentado.

Deixando-se de lado a roubalheira comprovada ou sob investigação —que inclui um Azeredo condenado, um Aécio com nove processos, um Serra com arcas suíças, um Paulo Preto com fortuna nas Bahamas e o próprio Alckmin com o cunhado na caixa registradora das campanhas—, sobram as reformas que o candidato diz que fará: política, tributária, do Estado e da Previdência.

Falar é mais fácil do que fazer. FHC e Lula também prometeram reformar a política e o sistema tributário. Cada um passou oito anos no Planalto. Na política, reformaram-se a si mesmos, rendendo-se ao toma-lá-dá-cá. Nos tributos, avançaram sobre o bolso do contribuinte sempre que o caixa do Tesouro ficou vazio. Na Previdência, ambos conseguiram arrancar do Congresso apenas remendos, não reformas.

Na seara ética, Alckmin se esforçou para preservar a pose de limpinho: “Moro no mesmo apartamento. Então, eu me sinto indignado, porque há uma tendência agora no Brasil de defenestrar a política, dizer que é todo mundo igual. Não, não é. Quem enricar com política é ladrão”, declarou, antes de soletrar: “L-a-d-r-ã-o”. Pode ser um ótimo desabafo. Mas não resolve.

O problema não é a incapacidade da imprensa ou do eleitorado de enxergar moralidade na política. A questão é que os políticos são incapazes de demonstrá-la. Alckmin é presidente nacional do PSDB. Ele deslizou ao tratar das malfeitorias partidárias porque não tem nada de novo a oferecer. Se tivesse, já teria colocado sobre a mesa o pedido de expulsão de Azeredo, um ofício enviando o réu Aécio para o conselho de ética partidário e meio quilo de explicações convincentes sobre sua própria situação.

Adhemar Ribeiro, o cunhado de Alckmin, frequenta dois inquéritos como coletor de verbas sujas carreadas para campanhas do tucano. Instado a dizer algo a respeito, o candidato definiu o irmão de sua mulher assim: “Ele é casado com uma banqueira, dono de financeira, simpatizante do partido, nada mais do que isso. Não tem nenhuma relação com o governo.”

Alckmin teria soado mais convincente se dissesse algo assim: “Chamei meu cunhado para uma conversa. Perguntei: que história é essa de que você apanhou, em meu nome, parte dos R$ 10 milhões da Odebrecht e R$ 5 milhões da concessionária CCR? Ele me disse que não pegou. Portanto, se eu não pedi o dinheiro e ele não recolheu, os delatores são mentirosos. Serão processados por mim.”

Tomado pelas respostas que ofereceu na sabatina, Alckmin continua sendo o mesmo chuchu de sempre. A diferença é que seu receituário ficou mais aguado e ele perdeu o frescor ético. Virou parte da xepa.


Chegada do 1º tucano à gaiola qualifica a faxina
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Josias de Souza

Ao encaminhar Eduardo Azeredo para o xadrez, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais qualificou a faxina, tornando-a menos seletiva. A cúpula miliciana do PT, incluindo Lula, foi encarcerada. A falange do (P)MDB está representada no xadrez por presidiários do porte de Eduardo Cunha, Sérgio Cabral e Geddel Vieira Lima. Até corruptores da estirpe de Marcelo Odebrecht já amargaram sua cota de cana. Faltava um tucano na gaiola. A prisão de Azeredo chega bem e vem tarde. Representa pouco se for considerado tudo o que já se descobriu sobre os seres da sua espécie. Mas já é um bom começo —sobretudo porque o PSDB vai preso junto com seu protegido.

O feitiço dos tucanos acabou enfeitiçando o ninho. Em 2005, quando se revelou que o mensalão petista tinha um DNA tucano, o PSDB meteu o malho na tesouraria petista “não contabilizada” de Delúbio Soares e passou a mão no bico de Eduardo Azeredo, que tivera a caixa de campanha anabolizada pelas mágicas do mesmo operador: Marcos Valério. Azeredo servira-se dos truques financeiros de Valério na sua malograda campanha à reeleição para o governo mineiro, em 1998. Ao livrar o filiado ilustre das labaredas de um processo ético-disciplinar, o PSDB pulou na fogueira.

Os tucanos cometeram o mesmo erro que apontavam nos petistas. Trataram com consideração quem merecia punição. Hoje, sabe-se porque agiram assim: não havia inocentes na legenda, apenas culpados e cúmplices. Como sucede em todas as agremiações partidárias, ninguém ignora os crimes cometidos ao redor nos verões passados. Azeredo renunciou ao mandato de deputado para fugir da condenação no Supremo. E nenhum correligionário se animou a representar contra ele no Conselho de Ética da legenda. Azeredo foi condenado a mais de 20 anos de cana na primeira instância. E nada.

Ex-presidente nacional do PSDB, Azeredo chega à condição de corrupto com sentença de segunda instância e ainda mantém intacto seu assento na Executiva Nacional da legenda. Como o partido não foi capaz de mostrar aos transgressores a saída de incêndio, acumulou-se entulho na entrada. O réu Aécio Neves coleciona uma ação penal e oito inquéritos. A Odebrecht enfiou R$ 23 milhões numa caixa eleitoral de José Serra, com escala na Suíça. A mesma empreiteira empurrou R$ 10,3 milhões nas arcas eleitorais clandestinas do hoje presidenciável Geraldo Alckmin. Tudo isso sem uma delação do operador Paulo Preto.

Os tucanos, como os petistas, perderam todas as oportunidades que a história lhes ofereceu para demonstrar que possuem uma noção qualquer de ética. Os PT continuará afirmando que o PSDB protege os seus corruptos. E vice-versa. A má notícia é que os dois partidos têm razão. A boa notícia é que a Lava Jato transformou a blindagem num péssimo negócio. Espalhando-se a faxina, qualifica-se a própria democracia.


Maus números envenenam candidatura Meirelles
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Josias de Souza

O MDB sai de fininho da fábula da reeleição de Michel Temer e oferece a Henrique Meirelles dois meses para se firmar como um candidato viável ao Planalto. O primeiro desafio do ex-ministro da Fazenda será explicar os maus números produzidos pelo triunfalismo econômico do governo. A esperança de Meirelles de chegar a 2018 navegando nas águas da prosperidade bateu no iceberg do desemprego.

Há dois anos, a agenda do governo Temer girava em torno de Meirelles. Sabia-se que ela resultaria em qualquer coisa, menos em popularidade. A equipe econômica prometia austeridade e reformas. Dizia-se, contudo, que a recompensa viria na sucessão, na forma de um pujante crescimento econômico. Hoje, há sobre a mesa ruína fiscal e desemprego. E a previsão do PIB de 2018, que era de 3%, foi revisada. Para baixo: 2,5%.

O rigor fiscal sumiu no ano passado, quando o Planalto teve de comprar —com dinheiro de emendas, favores tributários e benesses ilimitadas— o apoio para congelar na Câmara duas denúncias criminais contra Temer. A mexida na Previdência, mãe das reformas, foi trocada por outra prioridade de Temer: não cair. E o crescimento será insuficiente para recuperar a ruína de Dilma Rousseff.

A efervescência do dólar incomoda. Fez o Banco Central interromper a sequência de podas na taxa de juros após uma dúzia de quedas sucessivas. A oscilação no preço internacional do petróleo, cujas altas são repassadas quase que em tempo real para as bombas, inferniza o consumidor e deixa o governo zonzo. Mas nada se compara ao desastre que infelicita o mercado de trabalho.

Além de sofrer com a radiação da amoralidade impopular de Temer, Meirelles entra na campanha arrastando as correntes das estatísticas do IBGE. Elas revelam um drama em quatro camadas. A primeira, mais visível, exibe 13,7 milhões de pessoas à procura de um emprego.

Na segunda faixa, há 6,2 milhões de brasileiros vivendo de bicos e quebra-galhos enquanto procuram por uma colocação melhor. Na terceira camada, há uma legião de 4,6 milhões de criaturas que, tomadas pelo desalento, desistiram de brigar por um contracheque. Na última faixa, há 3,2 milhões de esforçados que não podem trabalhar —mães que não têm onde deixar os filhos, por exemplo.

Quer dizer: Meirelles vai à sorte dos votos com o peso dos 70% de reprovação de Temer sobre os ombros e com as correntes do IBGE amarradas no tornozelo. Há na praça pelo menos 27,7 milhões de eleitores desempregados, subempregados, desalentados e desafortunados que não têm grandes estímulos para votar em alguém que fala sobre o futuro sem entregar no presente a prosperidade que prometera há dois anos.


Alckmin não pode fingir que cunhado não existe
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Josias de Souza

Geraldo Alckmin reage às investigações que o assediam de maneira peculiar. Seja qual for a acusação, manda dizer que “continua disposto a prestar todos os esclarecimentos necessários às autoridades competentes.” Embora seja candidato à presidência da República, parece considerar que não deve nada ao eleitorado, muito menos explicações.

As pesquisas indicam que o presidenciável tucano talvez tenha perdido a hora de compreender que o potencial do seu projeto escoa pelo ladrão. Na sondagem mais recente, do instituto MDA, a taxa de intenção de votos de Alckmin caiu de 8,6% para 5,3%. Em alta, só a sua rejeição, que subiu cinco pontos e já registra 55,9%.

Estavam sobre a mesa as delações dos executivos da Odebrecht. Somaram-se a elas novas acusações de representantes da CCR, concessionárias de rodovias que resultou de uma sociedade da Andrade Gutierrez com a Camargo Corrêa. Em ambos os casos os depoentes mencionaram um nome: Adhemar Ribeiro.

Adhemar é irmão de Lu, a mulher de Alckmin. Não faz nexo atribuir o risco de naufrágio do candidato às nuvens que os delatores colocaram sobre sua embarcação e fingir que não há um cunhado no convés. Os trovões da Odebrecht e da CCR espantam menos do que o fato de Alckmin não ter brindado Adhemar com um raio que o parta.

No caso da Odebrecht, o cunhado foi apontado como intermediário de Alckmin no recebimento de parte dos R$ 10,3 milhões provenientes do departamento de propinas da empreiteira. Na investigação da CCR, Adhemar é mencionado como coletor de algo como R$ 5 milhões.

O nome de Alckmin soou nas delações de pelo menos dois executivos da Odebrecht. Benedicto Júnior, chefe do Departamento de Operações Estruturadas, eufemismo para setor de propinas, contou que a empreiteira repassou dinheiro de má origem para as campanhas de Alckmin em 2010 e 2014.

O executivo Carlos Armando Paschoal declarou que, na campanha de 2010, R$ 2 milhões foram entregues ao cunhado. “Passei a contactar o Adhemar Ribeiro, que definia locais de entrega dos recursos. As entregas foram preponderantemente feitas no escritório dele.”

Pode-se acusar a Odebrecht de muita coisa, mas é impossível deixar de admirar sua organização. O pagamento de propinas a políticos cabia a uma divisão da empresa criada exclusivamente para este fim: o setor de Operações Estruturadas. O departamento tinha suas próprias instalações e seu próprio corpo de funcionários — e, desgraçadamente para Alckmin, seus próprios arquivos.

Ainda é desconhecido o grau de sofisticação da caixa paralela da concessionária CCR. Mas num ponto as revelações de seus representantes coincidem com as delações da Odebrecht: as coletas de Adhemar Ribeiro são associadas à campanha de Alckmin em 2010.

Quando diz que “continua disposto a prestar todos os esclarecimentos” e, simultaneamente, sonega explicações sobre o irmão de sua mulher, o presidenciável tucano está, no fundo, pedindo à plateia que faça como ele: se finja de bobo pelo bem da melhor candidatura que a oligarquia tucana pode oferecer ao Brasil.

Cada minuto que Adhemar permanece em cena sem uma boa explicação, o problema aumenta. No estágio atual, é como se Alckmin tivesse do seu lado não um cunhado, mas um elefante. Para o tucanato, está combinado que nada aconteceu. E pelo resto da campanha, Alckmin viverá uma experiência surreal.

Há um elefante no convés. E ninguém comenta. Alguns promotores distraídos esbarram na tromba do animal. Mas Alckmin e o tucanato convencionaram que o elefante não está lá. Mais: se tromba houvesse, seria da alçada da Justiça Eleitoral, não da Lava Jato ou da promotoria paulista.

O problema de certos espetáculos políticos é que o eleitor não foi bem ensaiado para o papel de bobo.


Depoimento da filha de Temer à PF é gelatinoso
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Josias de Souza

Intimada pela Polícia Federal para explicar a origem do dinheiro que financiou uma reforma em sua casa, a psicóloga Maristela Temer, filha de Michel Temer, prestou um depoimento que tem a consistência de uma gelatina. Antes do interrogatório, os investigadores suspeitavam que a reforma foi paga com dinheiro de propina. Depois, as suspeitas aumentaram.

Maristela foi inquirida em 3 de maio. Mas só agora a coisa veio à luz. Ela contou que Temer indicou para auxiliá-la na reforma o amigo e faz-tudo João Baptista Lima, coronel aposentado da PM paulista. É o mesmo personagem a quem os delatores da JBS afirmam ter repassado, a pedido de Temer, propina de R$ 1 milhão.

A depoente disse ter comparecido a uma reunião na Argeplan, empresa do coronel Lima. Participou do encontro a mulher do anfitrião, Maria Rita Fratezi. Foi ela quem tocou a obra. Mas Maristela sustenta que madame apenas ajudou. Nessa versão, o trabalho de Maria Rita foi gratuito e não existe contrato.

Maristela Temer reconhece que Maria Rita realizou pagamentos a fornecedores, por vezes em dinheiro vivo. Jura ter devolvido o dinheiro. Mas “não sabe precisar a forma do ressarcimento.” Hã?!? Em algumas ocasiões” pagava em espécie, com dinheiro recebido de seus pacientes. Em outras, emitia cheques.

Em resumo, Maristela quer que a PF acredite na seguinte versão: Maria Rita, a mulher do coronel Lima, trabalhou na obra sem receber um tostão furado. Tirou dinheiro da própria bolsa —ou do bolso do marido— para pagar aos fornecedores. Foi devidamente ressarcida, mas não há vestígio de comprovantes.

Se Maristela Temer tivesse que transformar seu depoimento num conto, começaria o texto assim: “Era uma vez…” Considerando-se a consistência gelatinosa do enredo, a PF receia que não será possível encerrar com o tradicional “todos foram felizes para sempre.”


Dirceu atual faz do Dirceu de 1968 uma alegoria
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Josias de Souza

Em outubro de 1968, quando foi preso pelas forças da ditadura, José Dirceu, tenros 22 anos, era um mito estudantil, um projeto de estátua de bronze. Decorridas cinco décadas, Dirceu, agora com 72 anos, retorna à gaiola, em plena democracia, como uma espécie de pardal de si mesmo. Com desenvoltura dialética, o ex-mito suja a testa de bronze da estátua que não conseguiu ser.

Dirceu revelou-se um idealista que ainda não tinha chegado à chave do cofre. Queria reformar um sítio em Vinhedo, não o Brasil. Toda aquela vontade de sacrificar-se pela causa, todo aquele desejo de servir à classe trabalhadora, tudo aquilo era impulsionado pelo dinheiro. Dirceu abandonou a ideologia para cair na vida. Aviltou os fins para se apropriar dos meio$.

Até o escândalo do mensalão, Dirceu ainda conseguiu manter as aparências. Punho esguerdo erguido, foi preso e recolhido à Papuda imaginando-se beneficiário da atenuante de não ter agido em proveito próprio. No petrolão, restou demostrado que evoluiu definitivamente do socialismo de resultados para a apropriação pessoal. Na condenação mais recente de Dirceu, confirmada pelo TRF-4, Sergio Moro escreveu:

“O mais perturbador em relação a José Dirceu de Oliveira e Silva consiste no fato de que praticou o crime inclusive enquanto estava sendo processado e julgado pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal na Ação Penal 470 [mensalão], havendo registro de recebimento de propina, no presente caso, até pelo menos 23/07/2012. Nem o processo e o julgamento pela mais Alta Corte do País representou fator inibidor da reiteração criminosa, embora em outro esquema ilícito. Agiu, portanto, com culpabilidade extremada…”

A primeira prisão de Dirceu, aquela de 1968, ocorreu num sítio em Ibiúna (SP), durante o célebre congresso estudantil. Oito líderes foram levados ao Forte Itaipu, em Santos. Beneficiados por habeas corpus, quatro saíram. O resto ficou no xilindró. Entre eles, Dirceu. Foram libertados em 7 de setembro de 1969, junto com um grupo de políticos, trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick.

O projeto de estátua voou para Cuba. Recebeu-o Fidel Castro em pessoa. Abrigou-se na “casa dos 28”, ninho de treinamento de guerrilha. Entrou no Brasil em 1971, como integrante do Molipo (Movimento de Libertação Popular). Voltou a Cuba no mesmo ano, fez plástica no rosto com médicos chineses. Em 1975, retornou ao Brasil.

Vivendo clandestinamente em Cruzeiro do Oeste (PR), sob falsa identidade, na pele de dono de alfaiataria, casou-se com uma dona de butique. Teve um filho. Só emergiu depois da anistia, com o rosto reconstituído por nova plástica cubana. Elegeu-se deputado estadual e federal. Apossou-se da máquina do PT. Ajudou a fazer de Lula presidente. Virou um poderoso chefão da Casa Civil. Chegou ao cofre.

Hoje, o Dirceu do petrolão, reincidente do mensalão, empurra o Dirceu de Ibiúna para uma espécie de clandestinidade eterna. O corrupto que vai preso neste maio de 2018 faz do mito estudantil que foi detido em 1968 uma alegoria. Dirceu deve puxar uma cana longa. Sem um embaixador americano para servir de moeda de troca, terá de rezar para que o Supremo volte atrás na jurisprudência que permitiu a prisão de condenados na segunda instância. Quando sair, já não verá o sitio de Vinhedo. A propriedade vai ao martelo junto com outros imóveis. Coisa de R$ 11 milhões.


Lava Jato encarcera a fina flor do poder petista
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Josias de Souza

O TRF-4 rejeitou nesta quinta-feira o último recurso que separva José Dirceu da cadeia. Trata-se de um embargo de declaração do embargo infringente, eufemismo para embromação. Com o retorno de Dirceu para o xadrez, o PT chega a um ponto situado muito além do fundo do poço. Lula e os nomes que ele próprio considerava como opções presidenciais —Dirceu e Antonio Palocci— foram dissolvidos pela Lava Jato. Fica demonstrado que um raio pode cair várias vezes sobre o mesmo partido.

Houve um momento em que o PT poderia ter saído do caminho da ruína, tomando a trilha da ética. Em 2005, quando foi deslocado do Ministério da Educação para a presidência de um PT em chamas, Tarso Genro pronunciou a palavra mágica. Contra o desgaste do mensalão, ele sugeriu a “refundação” do partido. Continuando nessa linha, o petismo chegaria à autocrítica. Mas Tarso foi desligado da tomada pelo grupo “Construindo um Novo Brasil”, antigo Campo Majoritário —uma corrente personificada na figura de José Dirceu.

O tempo passou. Lula reelegeu-se em 2006. Em 2010, sem condições de prestigiar Dirceu e Palocci —feridos respectivamente pelo mensalão e pelo caso da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo—, a divindade petista fabricou o “poste” Dilma Rousseff. Nessa época, Lula cavalgava uma popularidade acima dos 80%.

O relógio correu mais um pouco. Em maio de 2014, ao discursar na convenção em que o PT aclamou Dilma como candidata à reeleição, Lula parecia adivinhar o que estava por vir. Comparou o PT original, fundado por ele em fevereiro de 1980, com o partido que ocupava a Presidência da República havia 12 anos:

“Nós criamos um partido político foi para ser diferente de tudo o que existia”, declarou. “Esse partido não nasceu para fazer tudo o que os outros fazem. Esse partido nasceu para provar que é possível fazer política de forma mais digna, fazer política com ‘P’ maiúsculo.” A Lava Jato dava seus primeiros passos. Sem suspeitar que a operação iluminaria seu próprio calcanhar de vidro, Lula foi ao ponto:

“Nós precisamos recuperar o orgulho que foi a razão da existência desse partido em momentos muito difíceis, porque a gente às vezes não tinha panfleto para divulgar uma campanha. Hoje, parece que o dinheiro resolve tudo. Os candidatos a deputado não têm mais cabo eleitoral gratuito. É tudo uma máquina de fazer dinheiro, que está fazendo o partido ser um partido convencional.”

Hoje, sabe-se que, enquanto Lula discursava, o dinheiro sujo que a Odebrecht roubara da Petrobras entrava na caixa registradora do comitê Dilma Rousseff-Michel Temer. Não é intriga de inimigo. Quem contou foi o casal do marketing petista —João Santana e Monica Moura.

Sabe-se também que o próprio Lula já havia se tornado “uma máquina de fazer dinheiro.” Afora os milhões amealhados sob o pretexto de remunerar palestras, já havia o provimento dos confortos do tríplex e do sítio. De novo, não é intriga da oposição. Além das delações de empreiteiras companheiras (Odebrecht e OAS) e das provas reunidas pela força-tarefa de Curitiba, há a palavra de Palocci.

Preso e moído pelas investigações, Palocci tentou apresentar Lula a si mesmo numa carta que enviou ao PT, desfiliando-se da legenda: “Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’ enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto Lula são atribuídos a dona Marisa?”, indagou.

A Lava Jato encarcerou a fina flor do poder petista. No momento, o PT é presidido por uma boneca de ventríloquo: Gleisi Hoffmann, ré da Lava Jato, prestes a ser julgada no Supremo. Sua única missão é convencer a plateia de que Lula, preso e inelegível, retornará ao Planalto. Embora tenha ultrapassado o fundo do poço, o PT escolheu viver no mundo da Lua. E a pergunta de Palocci continua ecoando: “Até quando?”


Ruína política de Temer trava avanço econômico
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Josias de Souza

A economia brasileira encolheu 0,13% no primeiro trimestre de 2018, informa o Banco Central. Foi uma decepção. Quem entende do riscado avaliava que haveria uma alta. Nada exuberante. Mas um resultado positivo. Coisa de 0,1% ou 0,2%. Esse indicador serve como uma prévia do PIB oficial dos três primeiros meses do ano, que será divulgado em 30 de maio. Significa dizer que vem aí um pibinho chocho.

Um dia depois da pajelança promovida por Michel Temer para celebrar o “sucesso” dos seus dois anos de governo, confirma-se a atmosfera de pessimismo que puxa as previsões de crescimento anual da casa dos 3% para as cercanias de 2,5%, com viés de baixa. Isso seria insuficiente para recuperar o estrago feito pela recessão fabricada na gestão da “supergerente” Dilma Rousseff.

A conjuntura eleitoral, a efervescência do dólar e a alta do petróleo envenenam a conjuntura. Mas nada é mais radioativo do que o melado que escorre do Palácio do Planalto desde o dia 17 de maio de 2017, quando Michel Temer recebeu para uma conversa noturna o delator Joesley Batista. Um novo governo foi inaugurado depois do grampo do Jaburu.

Antes do diálogo vadio, a prioridade de Temer era completar a agenda de reformas, aprovando a mexida na Previdência. Depois do grampo, objetivo central de Temer passou a ser não cair. Ele conseguiu arrancar da Câmara o congelamento de duas denúncias criminais. Mas comprometeu irreversivelmente a estratégia econômica. Além de transferir a encrenca previdenciária para o sucessor, Temer fez tantas concessões tributárias às corporações com assento no Legislativo que agravou a crise fiscal, hoje o principal problema econômico do país.

Antes do escândalo da JBS, Temer apresentava-se ao lado de Henrique Meirelles como paladino da austeridade, patrono da emenda constitucional que limitou o teto de gastos. Depois, abriu os cofres do Tesouro para que as bancadas aliadas plantassem bananeira dentro deles. Hoje, Temer já não governa os acontecimentos. É governado pelos fatos. A equipe econômica, composta de gente competente, faz o que pode para evitar que a coisa se deteriore além do necessário enquanto o presidente da República, às voltas com duas denúncias e dois inquéritos, apodrece no cargo.