Blog do Josias de Souza

Categoria : Colunas

Falta aos Bolsonaro noção de institucionalidade
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Josias de Souza

Não passa semana sem que Jair Bolsonaro, seus filhos ou seus auxiliares pendurem nas manchetes um cacho de declarações polêmicas. O grupo dá frases tóxicas como a bananeira dá bananas. A penúltima esquisitice veio na forma de um comentário do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). O filho do presidenciável favorito declarou que “para fechar o STF basta um cabo e um soldado”. Disse também que se o STF impugnar a candidatura do seu pai “terá que pagar para ver o que acontece.” Indagou: “Será que eles vão ter essa força mesmo?” Ai, ai, ai.

Feita em 9 de julho, a gravação é anterior ao primeiro turno da eleição. Eduardo Bolsonaro dava palestra na cidade paranaense de Cascavel, num curso preparatório para concurso da Polícia Federal. Um dos alunos perguntou se o Exército poderia agir caso o STF impugnasse eventual vitória de Jair Bolsonaro. Um expositor com dois neurônios diria que é impensável uma intervenção do Supremo num processo eleitoral submetido às normas constitucionais. Sobretudo considerando-se que as questões eleitorais estão afetas ao TSE, não ao STF.

O filho do capitão, entretanto, achou sensato injetar no impensável uma dose de inimaginável. Declarou o seguinte: “Aí já está encaminhando para um estado de exceção. O STF vai ter que pagar para ver. E aí, quando ele pagar para ver, vai ser ele contra nós. Você tá indo para um pensamento que muitas pessoas falam, e muito pouco pode ser dito. Mas se o STF quiser arguir qualquer coisa —recebeu uma doação ilegal de cem reais do José da Silva e, então, impugna a candidatura dele. Eu não acho isso improvável, não…”

Após informar que considera “provável” o impensável, Eduardo Bolsonaro engatou uma segunda e prosseguiu: “Cara, se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo, não. O que é o STF? Tira o poder da caneta de um ministro do STF. Se prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular a favor do ministro do STF, milhões na rua? ‘Solta o Gilmar, solta o Gilmar’. Com todo respeito que tenho ao excelentíssimo ministro Gilmar Mendes, que deve gozar de imensa credibilidade junto aos senhores.”

O presidente da República representa um símbolo para a nação. Toca-se o hino nacional onde ele se apresenta, hasteia-se a bandeira. Cada ação sua é exposta ao público nas manchetes. Sua vida e a de sua família estão expostas a permanente escrutínio. Dele se espera que evite procedimentos e declarações vulgares. O mesmo vale para os filhos, um deputado e um senador. Na bica de virar chefe de Estado, Jair Bolsonaro ainda não deu demonstrações de que compreende a dimensão do cargo se dispõe a ocupar. Os filhos tampouco servem como referência dos valores que o presidenciável diz representar.

Falta aos Bolsonaro uma noção qualquer de institucionalidade. Ainda assim, recebem votos. Muitos votos. Depois de examinar o comportamento de políticos como eles, que, por serem representantes de parcela expressiva da população, representam o melhor da sociedade, uma dúvida se impõe: a oferta de candidatos é escassa ou o eleitor brasileiro parou de evoluir?

A despeito da existência de um vídeo que não deixa dúvidas quanto ao despautério dos comentários, até Jair Bolsonaro duvidou: “Se alguém falou em fechar o STF, precisa consultar um psiquiatra.” Mas o filho Eduardo viu-se compelido a confirmar o inegável: “Acredito que o vídeo não é motivo para alarde, até porque eu mesmo o publiquei em minhas redes sociais há quase quatro meses. Trata-se de mais uma forçação de barra para atingir Jair Bolsonaro…”

Na campanha presidencial de 2018, se os resíduos psíquicos fossem concretos, não haveria rede de esgoto que bastasse.


Horário eleitoral é filme de James Bond sem 007
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Josias de Souza

Perde seu tempo quem procura um projeto de governo no horário político da televisão. Em 2014, estava em cartaz a ficção hollywoodiana da chapa Dilma-Temer, patrocinada pelo departamento de propinas da Odebrecht. Na atual temporada, Bolsonaro e Haddad levam ao ar uma espécie de filme de James Bond 100% feito de bandidos —sem um 007 para deter a guerra tecnológica que se alastrou para a trincheira do WhatsApp.

Os planos tenebrosos de Bolsonaro são expostos nos filmetes do PT. Assistindo-os, o brasileiro descobre, por exemplo, que será sugado por uma máquina do tempo. Ela o arrastará para um imenso complexo subterrâneo, situado em algum porão da década de 1970. Ali, hordas de esquerdistas formarão filas defronte de salas de tortura. Dentro delas, monstros com a cara do Brilhante Ustra conduzirão sessões ininterruptas de pancadaria e choques elétricos.

As intenções diabólicas que se escondem atrás de Haddad são denunciadas na propaganda do capitão. As peças revelam a existência de uma sala especial secreta sob os alicerces da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. À frente de um painel eletrônico, Osama bin Lula manipula Haddad por controle remoto. Simultaneamente, o gênio petista do mal reativa o Foro de São Paulo e prepara a conversão do Brasil numa espécie de ‘Cuzuela’, mistura da ditadura de Cuba com o caos autocrático da Venezuela.

Num filme convencional de James Bond, algum solitário 007 irromperia em cena para salvar a humanidade. Com uma pistola implantada num isqueiro, o agente secreto eliminaria os supervilões antes que eles apertassem os botões que farão do Brasil um centro de torturas hipertrofiado ou uma clepto-ditadura. Como 2018 virou um filme sem mocinhos, o medo ganhou novas formas e plataformas.

Em 2014, a marquetagem de João Santana intercalou na televisão notícias falsas sobre rivais e um desfile apoteótico de plantações exuberantes, obras públicas tocadas em ritmo febril, fábricas operando a todo o vapor e povo usufruindo de prosperidade inaudita. Deu em estelionato eleitoral, recessão, desemprego e Michel Temer. O Tribunal Superior Eleitoral fechou os olhos para a lama.

Agora, novamente sob a complacência do TSE, o lodo transborda da TV para o telefone celular. Vem da esquerda e da direita. Na quantidade, a milícia cibernética pró-capitão, anabolizada por um caixa dois empresarial, prevalece sobre a guerrilha companheira. Petistas gritam: “Pega ladrão!”. Bolsonaristas respondem: “Olha quem fala!” E a Polícia Federal, acionada pela Procuradoria, investiga os dois lados.

Podendo fornecer informação, a propaganda política levou ao eleitor mistificação e medo. Desinformado e angustiado, esse eleitor irá às urnas em uma semana. A maioria votará não no candidato preferido, mas no mal menor.

O Brasil não reativará o pau de arara. Tampouco virará uma ‘Cuzuela’. Mas o centro tecnológico de produção de maldades continuará ativo. Restará suportar as consequências do voto e torcer para que a democracia providencie um James Bond em quatro anos. Gente como o cronista Rubem Braga, do tempo em que as geladeiras eram brancas e os telefones pretos, talvez passe a conferir as mensagens que chegam pelo celular com um sentimento de hedionda nostalgia.


Caso WhatsApp revoluciona pensamento do PT
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Josias de Souza

A notícia de que empresários financiam ilegalmente o envio massivo de mensagens anti-PT via WhatsApp revolucionou o pensamento do Partido dos Trabalhadores sobre as prisões, as delações e o trabalho da imprensa. Em menos de 24 horas tudo o que o partido considerava como afronta ao Estado Democrático de Direito nos quatro anos e meio de duração da Lava Jato passou a ser legal, necessário e urgente.

Em sua primeira manifestação sobre o caso, o presidenciável petista Fernando Haddad disse que o rival Jair Bolsonaro “deixou rastro” que permite vinculá-lo ao esquema de difusão de mensagens. Implacável, Haddad defendeu o uso da prisão como meio de obtenção de confissões. Mesmo que disponha, por ora, apenas de uma notícia da Folha, jornal que o petismo incluía até ontem no rol da “mídia golpista”.

“Se você prender um empresário desses, ele vai fazer delação premiada”, declarou Haddad. “Basta prender um empresário que vai ter delação premiada e vão entregar a quadrilha toda. Nós estamos falando de 20 a 30 empresários envolvidos nesse esquema. Se prender um, em menos de dez dias a gente vai ter a relação de todos os empresários que estão financiando com caixa dois uma campanha difamatória.”

No petrolão, o PT condena as prisões mesmo quando são precedidas de meticulosos inquéritos. Em junho de 2015, a Executiva Nacional da legenda divulgou uma resolução para manifestar sua preocupação com as consequências do “prejulgamento de empresas acusadas no âmbito da Operação Lava-Jato.”

A manifestação do PT ocorreu cinco dias depois do encarceramento preventivo dos executivos das duas maiores empreiteiras do país: Marcelo Odebrecht, da empresa que leva o sobrenome de sua família, e Otávio Azevedo, da Construtora Andrade Gutierrez. Hoje, sabe-se que ambos estavam lambuzados com o óleo queimado da Petrobras até o último fio de cabelo.

No item de número quatro, o texto da resolução do PT desautoriza prisões como as que Haddad passou a defender: “Se o princípio de presunção de inocência é violado, se o espetáculo jurídico-político-midiático se sobrepõe à necessária produção de provas para inculpar previamente réus e indiciados; se as prisões preventivas sem fundamento se prolongam para constranger psicologicamente e induzir denúncias, tudo isso que se passa às vistas da cidadania, não é a corrupção que está sendo extirpada. É um Estado de exceção sendo gestado em afronta à Constituição e à democracia.”

Dias depois da divulgação da resolução petista, ainda em junho de 2015, a então presidente Dilma Rousseff torpedeou numa entrevista o instituto da delação premiada, incluído numa lei que ela própria havia sancionado. Um dos delatores da Lava Jato, o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC, informara em depoimento que fizera repasses ilegais à campanha de Dilma à reeleição, em 2014. E ela: “Não respeito delator, até porque estive presa na ditadura militar e sei o que é. Tentaram me transformar numa delatora (…) e garanto que resisti bravamente”.

Não bastasse o ataque a um mecanismo que se revelou vital para o êxito do combate à corrupção, Dilma misturou democracia com ditadura. Deu de ombros para o fato de que a delação que sancionara, longe de assemelhar-se à tortura, é uma ferramenta que a legislação oferece à defesa dos encrencados. É uma oportunidade que o criminoso tem de trocar a confissão por benefícios penais.

No mês passado, o próprio Haddad foi denunciado pelo Ministério Público paulista com base numa delação do mesmo empreiteiro Ricardo Pessoa. Acusaram-no de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa. De acordo com a denúncia, Haddad recebeu da UTC propina de R$ 2,6 milhões para pagamento de dívida contraída durante sua campanha à prefeitura de São Paulo, em 2012.

A exemplo de Dilma, Haddad desqualificou o delator. O adjetivo mais brando que utilizou foi “mentiroso”. Em nota, o comitê de campanha do PT esculachou também o Ministério Público: “Surpreende que, no período eleitoral, uma narrativa do empresário Ricardo Pessoa, da UTC, sem qualquer prova, fundamente três ações propostas pelo Ministério Público de São Paulo contra o ex-prefeito e candidato a vice-presidente da República, Fernando Haddad”.

No episódio das mensagens de WhatsApp, cuja divulgação é atribuída a empresários a serviço de Bolsonaro, o PT é bem mais rigoroso. Trata o noticiário da ex-mídia golpista como elemento de prova: “Reportagem da Folha de S.Paulo desta quinta-feira (18) confirma o que o PT vem denunciando ao longo do processo eleitoral: a campanha do deputado Jair Bolsonaro recebe financiamento ilegal e milionário de grandes empresas para manter uma indústria de mentiras na rede social WhatsApp”, escreveu o partido em texto veiculado no seu site.

Está em jogo agora, segundo o novo conceito do PT, “a sobrevivência do processo democrático.” A legenda tem razão. O surpreendente é que, no ano passado, o PT pediu e obteve no Tribunal Superior Eleitoral o arquivamento da denúncia de abuso de poder econômico praticado pela chapa Dilma Rousseff-Michel Temer na eleição de 2014.

O processo foi arquivado por excesso de provas. Por um placar apertado —4 votos a 3— os ministros do TSE decidiram enterrar evidências vivas de que a Odebrecht pagara com dinheiro sujo da Petrobras o marketing que moeu adversários do PT como Marina Silva e produziu o estelionato eleitoral que reconduziu Dilma e Temer ao Planalto.

Nessa época, o PT não via no financiamento ilegal de campanhas um risco ao “processo democrático”. Fraude mesmo, alardeou a legenda neste ano de 2018, é uma eleição sem Lula, um político preso que o PT tentou, sem sucesso, transformar em “preso político”. Não é à toa que Jair Bolsonaro está prestes a ser eleito pela maior força política existente no país: o antipetismo. Em matéria criminal, o PT é capaz de quase tudo, menos de oferecer algo que se pareça com um mea-culpa.


Bolsonaro não receberá um cheque em branco
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Josias de Souza

Divulgada a dez dias do segundo turno, a nova pesquisa do Datafolha deu à sucessão presidencial uma aparência de jogo jogado. O staff de Jair Bolsonaro mal consegue conter a euforia. Como sua liderança não chegou a ser colocada em xeque por Fernando Haddad, o capitão aproxima-se do Planalto como se recebesse um cheque em branco do eleitorado. Engano.

O principal atributo de campanhas como a de Bolsonaro, que irradiam um imaginário forte, é ter rompido com a situação anterior, dando a impressão de que nada será como antes. Não é pouca coisa. Foi à cova no primeiro turno aquele PSDB que se oferecia como polo de poder há seis sucessões. Vão à lona no segundo round o petismo e, sobretudo, o lulismo.

No momento, o eleitor mostra-se pago e satisfeito com a retórica de Bolsonaro, feita de probidade, segurança e prosperidade. Mas a situação é mais complexa. Tão complexa que ficou simples como o ABC. A, o programa aguado de Bolsonaro produz alta expectativa; B, a boa vontade virará cobrança em janeiro; C, a corrosão da legitimidade do eleito crescerá à medida que o eleitor for percebendo que o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é o dicionário.

Bolsonaro coleciona no Datafolha 59% das intenções de votos válidos, contra 41% atribuídos a Haddad. O petismo já se dedica à produção de teorias para explicar a derrota. O exercício é tão inevitável quanto inútil, pois não produz a hecatombe que seria necessária para engolir até 28 de outubro os 18 pontos percentuais que separam o substituto de Lula do seu algoz.

Um detalhe potencializa o desafio de Bolsonaro. O resultado da eleição será marcado não pela preferência, mas pela rejeição do eleitorado. Subiu para 54% a taxa de eleitores que declaram que jamais votariam em Haddad. Quer dizer: o capitão será empurrado para a cadeira de presidente pela maior força política da temporada: o antipetismo.

O índice de rejeição a Bolsonaro diminuiu. Mas continua enorme: 41%. Significa dizer que não haverá na plateia muita gente com disposição para aplaudir um governo que não entregue rapidamente a mudança que prometeu.

Do ponto de vista econômico, a aura de Bolsonaro já tem dono: o liberalismo do economista Paulo Guedes. Que esbarrará no fisiologismo do Legislativo. Do ponto de vista político, seu governo precisa virar o sistema do avesso. Fácil de prometer. Difícil de executar.

Em condições normais, o eleitor talvez se esforçasse para distinguir políticos melhores e piores. Mas os gatunos ficaram ainda mais pardos depois que a Lava Jato transformou a política em mais uma ramificação do crime organizado. Depois que o governo empregocida de Dilma Rousseff foi sucedido pela cleptogestão de Michel Temer, a ideologia do eleitor tornou-se uma espécie de radicalismo retrógrado, movido a fúria, desinformação e inconsequência. Deu em Bolsonaro.

Jogando parado, Bolsonaro avisou que não irá a nenhum debate, embora os médicos o tenham liberado. Segundo o Datafolha, 73% dos eleitores avaliam que ele deveria duelar com Haddad diante das câmeras. Entretanto, 76% declaram que não cogitam modificar o voto por causa de debates. Nesse contexto, a fuga parece um grande negócio para o favorito. Mas essa percepção só é válida até certo ponto. O ponto de interrogação.

É verdade que há algo de sádico na forma como os candidatos são expostos, questionados, insultados e até ridicularizados nos debates. Neste segundo turno de 2018, a perversão ganharia nova dimensão, pois um dos contendores convalesce de duas cirurgias provocadas por uma facada.

Mas o sadismo não seria necessário apenas para o esclarecimento de eleitores que parecem dar de ombros para o contraditório. Valeria mais pela educação democrática que propiciaria a um candidato com pendores autocráticos. O mesmo Datafolha que coloca Bolsonaro a um milímetro da poltrona de presidente da República já revelou que sete em cada dez brasileiros enxergam a democracia como o melhor sistema de governo.

É mais uma evidência de que, eleito, Bolsonaro não vai dispor de um cheque em branco do eleitorado. Tiros para o alto ou murros na mesa não serão aceitáveis. O capitão terá de aprender a negociar. Algo que jamais fez nos seus quase 28 anos de Parlamento.


Eleitor envia pelo Ibope más notícias para Doria
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Josias de Souza

O eleitorado de São Paulo enfiou dentro da pesquisa do Ibope duas más notícias para João Doria. A primeira foi a ascensão de Marcio França, que conquistou um empate técnico. A segunda foi o crescimento do seu índice de rejeição, agora 12 pontos acima da taxa atribuída ao rival. Juntas, as duas novidades conduzem a uma conclusão aziaga: o amor que a candidatura de Doria nutre pelo projeto presidencial de Jair Bolsonaro, por platônico, ainda não deu à luz os votos almejados.

Numa conta que inclui apenas os votos válidos, como faz a Justiça Eleitoral, o Ibope informa que Doria obteve 52% das intenções de voto, contra 48% amealhados por França. Como a margem de erro da pesquisa é de três pontos para o alto ou para baixo, o quadro é de empate técnico. Nas urnas do primeiro turno, Doria obtivera 31,77% dos votos. Pelo Ibope, cresceu 20,23 pontos. França arrancou das urnas 21,53% dos votos. Subiu mais que Doria: 26,47 pontos.

Conforme já comentado aqui, Doria entrou no segundo turno com o pé esquerdo. Quando grudava na candidatura do adversário a pecha de “esquerdista”, França arrastou o apoio do capitalista Paulo Skaf. Quando voou até o Rio de Janeiro para posar ao lado de Bolsonaro, foi esnobado pelo capitão. Quando fez pose de protagonista numa reunião da Executiva do PSDB, Geraldo Alckmin chamou-o de silvério. França cuidou de encostar a fama de “traidor” na imagem do rival.

Doria sempre se apresentou como um “gestor”. Teve a oportunidade de mostrar serviço na prefeitura de São Paulo. Mas abandonou o mandato municipal para tentar a sorte nas urnas estaduais. Coisa de político. França acusa-o de quebrar o compromisso que assumira com o eleitorado da cidade. A julgar pelos dados que o Ibope colecionou, França vai prevalecendo sobre Doria na gincana em que um coloca defeitos no outro.

Especialista na produção de eventos, Doria precisa agir rapidamente para evitar que sua candidatura vire um espetáculo para o qual o eleitor não foi convenientemente ensaiado. O Ibope indica que o eleitorado aproxima Doria da beirada da frigideira. Ou produz novidades capazes de inverter a curva ascendente de França ou se arrisca a surgir dentro do óleo quente nas próximas pesquisas.


A verdade está no fígado de Cid, não no cérebro
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Josias de Souza

Na última segunda-feira, Cid Gomes extraiu do fígado os ataques que dirigiu ao PT. Nesta quarta-feira, após ouvir o cérebro, o irmão de Ciro Gomes gravou um vídeo  para desautorizar o uso de sua explosão na campanha de Jair Bolsonaro. A nova manifestação soou como um traque lançado sobre a terra arrasada. O estrago está feito.

Continuam valendo todos os estilhaços de segunda-feira, a saber: Fernando Haddad vai “perder feio” a eleição. E será “bem feito”, porque o PT “fez muita besteira” e se recusa a protagonizar “um mea-culpa”. Não há muito a fazer, pois “o Lula está preso, babaca.”

De novidade, apenas uma declaração de voto desnecessária —“…Votarei no Haddad no dia 28”— e uma desautorização tão inútil quanto uma tentativa de desfritar um ovo —“…Não é correto o que fez o outro candidato usando imagens minhas.”

No final do mês, confirmando-se a vitória de Bolsonaro, os petistas incluirão o pavio curto de Cid e a recusa do irmão Ciro em subscrever uma tal “frente democrática” no rol dos passivos que levaram ao infortúnio de Haddad. Mea-culpa? Nem pensar. Ficará entendido que a verdade está no fígado de Cid, não no cérebro.


Temer perdeu a reputação e o senso de ridículo
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Josias de Souza

O brasileiro gosta tanto de piadas que Michel Temer imagina que ninguém mais se incomoda de ser presidido por uma anedota. No mesmo dia em que veio à luz a notícia sobre seu indiciamento no inquérito sobre portos, Temer vangloriou-se num discurso para empresários de ter silenciado o asfalto com o sucesso de sua gestão.

“…Nós não tivemos problemas no país, não tinha movimento de rua”, discursou o presidente na Associação Comercial do Paraná, em Curitiba, nesta terça-feira (16). “Claro que em algum lugar qualquer tem cinco, seis, dez ou 40 que se reúnem e dizem ‘Fora, Temer’. Mas, isso faz parte da democracia, ouço aquilo e digo: ‘Que coisa boa!’ Tem gente se manifestando, é verdade. Mas se bem que agora tem o ‘Fica, Temer’ que está correndo pela rede, não é?”.

Horas depois de flertar com o ridículo, Temer foi pendurado novamente nas manchetes na constrangedora posição de acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Como previsto, a Polícia Federal entregou ao Supremo o relatório final do inquérito que apura se o presidente editou um decreto favorecendo empresas do setor de portos em troca de propinas.

Foram indiciados Temer, sua filha Maristela e mais nove pessoas. A Polícia Federal pediu ao ministro Luis Roberto Barroso, relator do caso na Suprema Corte, a prisão de quatro pessoas. Entre elas o coronel da Polícia Militar paulista João Baptista Lima, amigo e operador do presidente da República.

Folheando-se o processo, percebe-se que, na opinião da Polícia Federal, a poltrona de presidente da República é ocupada por um desqualificado. O pior é que os quase 90% de brasileiros que desaprovam o governo Temer concordam com os investigadores.

Antes do grampo do grampo do Jaburu, Temer apresentava-se ao país como paladino da austeridade e chefe de um governo reformista. Depois da divulgação do seu diálogo vadio com Joesley Batista, abriu os cofres do Tesouro para comprar sua permanência no cargo. Às voltas com duas denúncias, está prestes a colecionar a terceira. A Presidência de Temer já não derrete, apodrece.

Num ambiente assim, discursos engraçadinhos como o que Temer pronunciou para empresários em Curitiba revelam que o presidente não perdeu apenas a compostura e a reputação. Perdeu também o senso de ridículo.


Desabafo de Cid perfura como prego em caixão
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Josias de Souza

Ao chutar o balde num ato pró-Fernando Haddad, no Ceará, o senador eleito Cid Gomes espalhou o cheiro de enxofre que emana dos subterrâneos da candidatura presidencial do PT. O miasma ficará no ar até o próximo dia 28, quando o eleitor voltará às urnas. O desabafo do irmão de Ciro Gomes foi perfurante como prego em caixão: o PT “vai perder a eleição”, declarou. Vai “perder feio“.

Num instante em que o petismo tenta atrair a família Gomes para o polo democrático anti-Bolsonaro, Cid cobrou na noite desta segunda-feira (15) um mea-culpa do PT. Hostilizado por militantes petistas, abespinhou-se: “…Não admitir os erros que cometeram é pra perder a eleição. E é bem feito… Vão perder feio! Porque fizeram muita besteira, porque aparelharam as repartições públicas, porque acharam que eram donos de um país. E o Brasil não aceita ter dono…”

A certa altura, a plateia entoou um velho coro: Olê, olê, olê, oláááá, Lulaaaa, Lulaaaa…” E Cid: “Lula o quê? O Lula está preso, babaca! O Lula está preso, o Lula está preso, e vai fazer o quê? Deixa de ser babaca, rapaz, tu já perdeu a eleição.”

Para Cid Gomes, Jair Bolsonaro é uma criação dos “donos da verdade” do PT. Tomado pelas palavras, Cid avalia que o mea-culpa do petismo demorou tanto que tornou-se desnecessário. Coordenador da derrotada campanha de Ciro Gomes, o senador cearense parece considerar que o caso do PT já não é de autocrítica, mas de autópsia.


Na segurança, ideia de Bolsonaro estimula crime
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Josias de Souza

Em matéria de propostas para os problemas nacionais, Jair Bolsonaro raramente se mostra um candidato bem-alimentado. Ou está com excesso de alimentação ou morrendo de inanição. Nesta segunda-feira, o capitão declarou a uma rádio de Barretos (SP) que o projeto do seu hipotético governo é fazer o Brasil “ser igual 40, 50 anos atrás”. Disse isso no instante em que discorria sobre a insegurança que vigora nas grandes cidades do país. A solução seria o encarceramento. “Cadeia não recupera ninguém”, afirmou. “Cadeia é para tirar o elemento da sociedade”.

Se fosse possível enfiar o Brasil numa máquina do tempo, um recuo de 50 anos transportaria o país para 1968. Nessa época, a população brasileira era de 93,1 milhões de pessoas. Não havia telefone celular nem facções criminosas dentro dos presídios. O regime era militar. E o general de plantão, Costa e Silva, editou o AI-5, que autorizava o Estado a recorrer a todas as arbitrariedades que uma ditadura é tentada a adotar.

Hoje, a população mais do que dobrou, ultrapassando a marca de 208 milhões de pessoas. A urbanização desenfreada potencializou o mercado do crime. Cadeia é um outro nome para escritório de criminoso. O regime é democrático. E existe uma Lei de Execuções Penais que prevê a ressocialização de criminosos por meio do trabalho e da educação. .

Bolsonaro trata a prisão como início da solução. Na verdade, é o início do problema. Como se sabe, não há no Brasil nem pena de morte nem prisão perpétua. Ou seja: cedo ou tarde o preso será devolvido às ruas. O diabo é que o sistema prisional ficou tão violento no país que as prisões estão vomitando essa violência em cima da sociedade.

Como reconhece o capitão, “cadeia não recupera ninguém”. A omissão do poder público nos presídios, vitamina as facções criminosas. Abandonados pelo Estado, os presos ficam à mercê do crime organizado. Na prática, o Estado fornece mão-de-obra para as facções. Em troca de supostos favores e de proteção, os condenados são compelidos a cumprir ordens da criminalidade mesmo após deixar as cadeias. É esse o modelo preconizado por Bolsonbaro. Sem AI-5.

Em tempo: assista abaixo ao vídeo gravado durante visita de Bolsonaro Bope, no Rio de Janeiro. Aqui, notícia sobre o tema.


Haddad não vai à cadeia, mas envia um preposto
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Josias de Souza

Beneficiado por um habeas-Lula, Fernando Haddad absteve-se de bater ponto na cela especial de Curitiba nesta segunda-feira. Entretanto, num sinal de reverência, enviou um preposto: o tesoureiro do PT, Emidio de Souza. Melhorou a cenografia, pois o candidato saiu da cadeia. Mas não alterou o enredo, pois a cadeia não saiu da candidatura. Emidio é, hoje, o petista mais ligado a Haddad no comitê eleitoral.

Está entendido que as visitas semanais de Fernando Haddad à carceragem da Polícia Federal visavam acelerar a transferência de eleitores de Lula, empurrando o candidato para o segundo turno. Mas ficou entendido que os encontros também grudaram na imagem de Haddad a brutal taxa de rejeição do seu padrinho, potencializando o discurso anti-PT do rival.

Jair Bolsonaro está com um pé no Planalto. Quando colocar os dois, o alto comando do PT talvez inclua o beija-mão carcerário no rol dos erros cometidos durante a campanha. A derrota de Dilma Rousseff na disputa por uma cadeia no Senado por Minas Gerais estilhaçou o discurso de que apresentava o impeachment como golpe. O provável insucesso de Haddad aniquilará a retórica segundo a qual Lula é preso político.