Blog do Josias de Souza

Categoria : Colunas

Após parir Aécio, STF terá de embalar Picciani
Comentários 20

Josias de Souza

Apenas um brasileiro em um milhão é capaz de entender a confusão jurídica que o Supremo Tribunal Federal provocou ao lavar as mãos no caso de Aécio Neves. Mas basta entrar em qualquer boteco de Copacabana que a encrenca está lá. A coisa ferveu depois que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro tentou sumir com o sabonete no caso que envolve o deputado estadual Jorge Picciani e Cia..

A procuradora-geral Raquel Dodge levou ao Supremo a gueda de braço travada entre o Legislativo fluminense e a Justiça. Sustentou que a votação da Assembleia que anulou a prisão e a suspensão do mandato de três caciques do PMDB —já devolvidos à cela pelo TRF-2— ofende as leis e a Constituição. A doutora pede que a decisão da Assembleia do Rio seja anulada, esclarecendo-se que o veredicto do Supremo que favoreceu Aécio não vale para parlamentares estaduais.

Por 6 votos a 5, os ministros do Supremo autorizaram o Senado a devolver a Aécio o mandato e anular sanções impostas ao senador tucano por uma turma da própria Suprema Corte. Um ano antes, os ministros tinham decidido o contrário num processo envolvendo Eduardo Cunha. Afastaram-no da presidência da Câmara e do exercício do mandato. Por causa disso, Cunha foi cassado, preso e condenado por Sérgio Moro. Não saiu mais da cadeia.

Os ministros que estenderam a mão para Aécio sustentam que o Supremo não foi contraditório ao ignorar que tratara Cunha a pontapés. Faz sentido. Não é que a Corte máxima do Judiciário brasileiro seja incoerente, apenas possui jurisprudência múltipla. O frequentador de boteco também não é contra o roubo. O que ele não suporta é a ideia de continuar sendo roubado por aqueles que foram eleitos para representá-lo.

Embora não ignorassem que o refresco servido a Aécio seria replicado nos Estados, os ministros do Supremo reclamam do mau uso do precedente. Ainda não se deram conta do papelão em que se meteram. Magistrado que se queixa da aplicação da jurisprudência que ajudou a criar é como um comandate de navio que reclama do mar.

O Supremo terá de operar uma mágica retórica para atender aos pedidos da procuradora-geral Raquel Dodge. São conhecidas as histórias de gente tirando gênios da garrafa. Mas ainda não se ouviu nada a respeito de gente obrigando o gênio a fazer o caminho de volta.

Quem pariu Aécio que embale Picciani. Não será simples. É como se o cozinheiro de um botequim prometesse desfrutar um ovo na frente dos frequentadores do estabelecimento. Como ninguém conseguiu realizar semelhante façanha, os magistrados logo perceberão que a respeitabilidade do Judiciário é como a virgindade. Perdeu está perdida. Não dá segunda safra.


Ao restabelecer prisões TRF-2 dá aula ao STF
Comentários 125

Josias de Souza

Em decisão unânime —5 votos a 0—, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região restabeleceu a ordem de prisão contra três caciques do PMDB do Rio de Janeiro: Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi. Com essa decisão, os desembargadores do TRF-2 deram uma lição ao Supremo Tribunal Federal. Ensinaram o seguinte: quando a Justiça não faz da roubalheira uma oportunidade para impor a lei, os tribunais viram uma oportunidade que os larápios aproveitam.

Presos na semana passada, os três xamãs do PMDB fluminense foram libertados por decisão da Assembleia Legislativa do Rio. Abriram-se as celas sem que ao menos o TRF-2 fosse comunicado sobre a revogação de sua decisão. Nesta terça-feira, ao discorrer sobre a encrenca, um dos desembargadores do tribunal, Paulo Espírito Santo, disse ter enxergado as imagens dos deputados deixando o presídio de carro, sem ordem judicial, como “um resgate de filme de faroeste.”

O doutor resumiu assim a cena: “Acabo de ver, na sexta-feira passada, algo que nunca imaginei ver na vida. Nunca vi uma coisa dessas. Não há democracia sem Poder Judiciário. Quando vi aquele episódio, que a Casa Legislativa deliberou de forma absolutamente ilegítima, e soltou as pessoas que tinham sido presas por uma Corte federal, pensei: o que o povo do Brasil vai pensar disso? Pra quê juiz? Pra quê Ministério Público? Pra quê advogado? Se isso continuar a ocorrer, ninguém mais acreditará no Judiciário. O que aconteceu foi estarrecedor. Que país é esse?”

O desembargador Espírito Santo não disse, talvez por cautela, mas o Brasil virou um país em que a Suprema Corte às vezes fica de cócoras quando o Poder Legislativo faz cara feia. Assim procedeu ao lavar as mãos no caso do tucano Aécio Neves, autorizando o Senado a anular sanções cautelares como a suspensão do mandato e o recolhimento domiciliar noturno. Conforme já noticiado aqui, o STF tinha a exata noção de que abria um precedente que não passaria em branco nos Estados.

O debate sobre as prerrogativas dos legislativos para revogar prisões e sanções impostas a parlamentares federais e estaduais ainda vai dar muito pano para a manga. No Rio, a maioria cúmplice da Assembleia não há de ficar inerte. Farejando o cheiro de queimado, outro desembargador, Abel Gomes, mencionou inclusive a hipótese de o TRF-2 requerer ao STF intervenção federal na Assembleia fluminense.

A confusão certamente chegará ao Supremo, oferecendo aos ministros a oportunidade de se reposicionar em cena. Sob pena de desmoralização do Judiciário. Na antessala das urnas de 2018, não restará ao brasileiro senão a alternativa de praguejar na cabine de votação: “Livrai-me da Justiça, que dos corruptos me livro eu.”


Chefe da PF cita futuro com o passado presente
Comentários 10

Josias de Souza

A cerimônia de posse do delegado Fernando Segóvia ajuda a entender o drama ético do Brasil. O novo chefão da PF declarou que o país atravessa um “vendaval de dúvidas e questionamentos quanto ao futuro da Polícia Federal.” Engano. O futuro, como se sabe, a Deus pertence. O que deixa o brasileiro inquieto é a sensação de que nenhum réu graúdo responde pelo passado. E a coreografia da cerimônia desta segunda-feira reforçou a inquietude. Quem assistiu não viu senão as imagens do pretérito passando novamente diante dos olhos da nação.

Na pele de investogador-mor, Segóvia falou de futuro com o passado presente do seu lado. Michel Temer, o investigado-mor, não discursou. Mas anotou na internet: “Ao doutor Fernando Segóvia, desejo sucesso nesta função que agora assume.” O problema é que o êxito do delegado dependeria em parte do insucesso do presidente na articulação que empreende para estancar a sangria moral que, no seu governo, tornou-se um fenômeno hemorrágico.

Indicado por investigados do porte do ministro Eliseu Padilha e do ex-senador José Sarney, Segóvia foi nomeado pelo primeiro presidente da história a ser denunciado por corrupção, obstrução à Justiça e formação de organização criminosa. Duas denúncias foram congeladas pela Câmara. Mas ainda corre na PF um inquérito sobre supostas malfeitorias portuárias. Segóvia não se lembrava da pendência. Mas assegurou aos repórteres que Temer “continuará sendo investigado.”

A esse ponto chegamos: o comandante da PF é próximo de alguns dos principais alvos da corporação. A proximidade costuma ser conivente. Daí o “vendaval de dúvidas” que sacode a Polícia Federal. Para serenar o ambiente, Segóvia terá de providenciar mais do que um discurso arrumadinho. A interrogação só se dissipará no instante em que o delegado for capaz de demonstrar um distanciamento crítico em relação aos responsáveis pelo redemoinho que o conduziu ao cargo. Sem isso, o futuro será sempre embaçado pelo passado que não passa.


Casas legislativas viraram tribunais de exceção
Comentários 132

Josias de Souza

Ao livrar da cadeia três parlamanteres soterrados por evidências de corrupção, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro consolida um fenômeno ruinoso. Está entendido que o Congresso Nacional e os legislativos estaduais tornaram-se tribunais de exceção.

Elaborada nas pegadas da queda da ditadura militar, a Constituição de 88 cercou os parlamentares de imunidades que pretegiam o exercício do mandato. Os autores do texto constitucional não poderiam supor que o antídoto da imunidade viraria no futuro o veneno da impunidade. O Supremo Tribunal Federal poderia colocar ordem na gafieira. Mas preferiu atravessar o samba ao omitir-se no caso de Aécio Neves. Uma maioria de cúmplices e de compadres devolveu ao senador tucano o mandato e a liberdade noturna que a 1ª Turma da Suprema Corte havia cerceado.

Estabeleceu-se a partir de Brasília uma atmosfera de vale-tudo que anula o movimento benfazejo inaugurado pela Lava Jato. Tinha-se a impressão de que o Brasil ingressara numa nova fase —uma etapa em que todos estariam submetidos às leis. Devagarinho, o país foi retomando a rotina de desfaçatez. Brasileiros com mandato continuam se comportando como se não devessem nada a ninguém, muito menos explicações.

Congelaram-se as investigações contra Michel Temer. Enfiaram-se no freezer também as denúncias contra os ministros palacianos Moreira Franco e Eliseu Padilha. Enquanto Curitiba e Rio de Janeiro produzem condenações em escala industrial, a Suprema Corte não sentenciou um mísero réu da Lava Jato. Em vez disso, preferiu servir refresco a Aécio Neves, instalando nas Assembleias Legislativas um clima de liberou-geral que resulta em absurdos como o que se verifica no Rio.

Transformados em tribunais de exceção, os legislativos conspurcam a democracia. Neles, políticos desonestos livram-se de imputações criminais não pelo peso dos seus argumentos, mas pela força do corporativismo. Simultaneamente, a sociedade é condenada ao convívio perpétuo com a desonestidade impune. Fica-se com a impressão de que a turma do estancamento da sangria está muito perto de prevalecer.


Campanha de Temer ataca privilégios de Temer
Comentários 185

Josias de Souza

Michel Temer decidiu torrar R$ 20 milhões do contribuinte numa campanha publicitária sobre reforma da previdência. A campanha é cínica, inútil e desrespeitosa. O cinismo está no fato de que a peça critica privilégios dos quais Temer é beneficiário. A inutilidade decorre da evidência de que os parlamentares não condicionam seus votos a nenhuma propaganda, mas a tenebrosas transações. O desrespeito salta da constatação de que, sob Temer, o governo queima verba pública como se fosse dinheiro grátis.

O repórter Bruno Bhogossian informa que o mote da campanha será o ataque a privilégios dos servidores públicos. “Tem muita gente no Brasil que trabalha pouco, ganha muito e se aposenta cedo”, diz o comercial. A carapuça ajusta-se perfeitamente ao cocuruto de Temer. Sua reforma propõe que a idade mínima para a aposentadoria dos homens seja 65 anos. Em 1996, aos 55 anos, Temer requereu sua aposentadoria como promotor do Estado de São Paulo. Recebe há mais de 20 anos uma pensão que, hoje, soma R$ 45 mil. A cifra precisa ser rebaixada para não ultrapassar o teto do funcionalismo, regulado pelos vencimentos dos ministros do SFT: R$ 33,7 mil.

Temer aposentou-se precocemente na mesma época em que atuava como relator de outra reforma da Previdência, trançada no governo de Fernando Henrique Cardoso. Sobre sua atuação, FHC escreveu no livro Diários da Presidência: “…Ganhamos na Câmara, uma vitória de Pirro, ou seja, 352 votos contra 134, mas para ganhar o quê? A proposta Michel Temer. Muito pouco avanço. Trinta por cento do necessário…”

Noutro trecho, FHC anotou: “Temos que ir fundo na reforma fiscal, o que é difícil com o Congresso que aí está. A reforma da Previdência foi desfigurada, o Temer cedeu além de todos os limites, porque ele tem o voto de um ou de outro. Agora, eu vejo com espanto que os líderes pediram que o Abi Ackel redija o seu texto sobre estabilidade [dos servidores]. Ou seja: não querem enfrentar as questões reais. É muito difícil obter a modernização do país com este Congresso tão preso a coisas do passado.”

Na sua época, FHC mandou às favas a fama de político diferente. Escorando-se em Max Weber, trocou a moeda da “convicção” pela da “responsabilidade”, tapou o nariz e pagou o preço pelos 30% de reforma que o relatório de Temer foi capaz de produzir. Hoje, Temer não precisa fingir que é diferente. Ao contrário, torna-se cada fez mais igual a si mesmo para agradar aos aliados. À frente de um governo loteado e convencional, ele escancara os cofres por uma reforma que não sabe se terá. Se obtiver 10%, soltará rojões.

Mario Henrique Simonsen costumava dizer: muitas vezes sai mais barato para o contribuinte pagar a propina e cancelar a obra. No caso da publicidade sobre a mexida na previdência, o governo deveria considerar a hipótese de pagar a comissão e esquecer a campanha cínica, inútil e desrespeitosa.


Pajelança de Itu ofende os valores republicanos
Comentários 3

Josias de Souza

Michel Temer executou uma ideia extravagante. Neste feriado de 15 de Novembro, transferiu a sede do governo simbolicamente para Itu. Servidores do Gabinete de Segurança Institucional foram à cidade com dois dias de antecedência para assegurar o êxito do deslocamento. Além do avião e de todo o aparato presidencial, mobilizaram-se um par de helicópteros e meia dúzia de automóveis para a segurança. O Exército enviou um destacamento para evitar que os 3% de popularidade de Temer resultassem em contratempos. Perdeu-se a noção de que realizar gastos com esse tipo de pajelança é uma variante do costume antirrepublicano de jogar dinheiro público pela janela.

“A República e a federação foram fatos extraordinários”, discursou Temer. “Como Itu foi o berço da República, viemos aqui para comemorar esse evento e dar um abraço no amigo.” Chama-se José Eduardo Bandeira de Melo o “amigo” citado por Temer. Ex-sócio do presidente num escritório de advocacia, o personagem foi homenageado junto com a República. Recebeu o título de cidadão ituano. E retribuiu a gentileza com generosos afagos verbais: “Tenho profundo orgulho da presença do presidente Michel Temer, que se mostrou não um político, mas um estadista.”

A agenda temerária de Temer fez lembrar um episódio protagonizado por outro peemedebista folclórico. Aconteceu há quase três deçadas, em 25 de fevereiro de 1989. Presidente da Câmara, Paes de Andrade (PMDB-CE) assumiu o Planalto numa das viagens ao exterior do dono da faixa presidencial, José Sarney. Aproveitando a interinidade, Paes enfiou uma comitiva de mais de seis dezenas de acompanhantes no avião presidencial e voou para a cidade onde nasceu: Mombaça, no Ceará.

Recebido com festa e foguetório, Paes de Andrade instalou em Mombaça um Centro Administrativo Federal, convertendo a cidade dos fundões do Ceará numa hipotética Capital provisória do Brasil. Temer não nasceu em Itu, mas tem o coração parcialmente ituano. O presidente veio à luz em Tietê, cidade vizinha. E trabalhou como professor e diretor da Faculdade de Direito de Itu. “A vinda para cá revela aspecto familiar, sou aqui da região e me sinto em casa”, disse Temer, numa passagem, digamos, Mombaça de seu discurso.

Além de ferir o erário e oferecer matéria-prima para uma ação popular de ressarcimento dos gastos, Temer achou conveniente ofender a inteligência da plateia. Disse que há pessoas “preocupadas com o que está acontecendo no Brasil”, pois o país tem uma “tendência a caminhar para o autoritarismo.” Declarou que é preciso prestigiar “certos princípios constitucionais”, sob pena de despertar essa “tendência” nacional de “caminhar para o autoritarismo.”

Temer discorreu sobre as ditaduras que infelicitaram o país no século 20. E declarou que elas não resultaram apenas de golpes de Estado. Aconteceram porque o povo também quis. Alguma coisa subiu à cabeça do presidente em Itu. Foi algo muito parecido com uma gigantesca confusão. Ele aparentemente quis dizer que seus rivais, seus investigadores, seus críticos e todos os que o combatem flertam com o autoritarismo. O orador esqueceu de mencionar (ou lembrou de esquecer) que está na berlinda graças a uma septicemia ética produzida por ele, por seus amigos e por seus apoiadores.

Ao contrário do que insinua Temer, o risco de clamor por um golpe é inexistente. Ao contrário, o brasileiro deseja o fim da ditadura da indecência. O que desperta o desalento social é a blindagem da corrupção. Investigações contra o presidente e seus ministros foram enfiadas no congelador. O Planalto tornou-se um balcão sobre o qual ministérios são vendidos como bananas. Sob a batuta de Temer, o grau de primitivismo político e de fisiologia desafia a memória de todos os fatos históricos. O brasileiro merece uma democracia limpa.


Temer dará ministérios aos suspeitos de sempre
Comentários 5

Josias de Souza

O novo ministério de Michel Temer, a ser composto até meados de dezembro, refletirá o Projeto Centrão de país. Nele, exacerbam-se as barganhas, o fisiologismo e as diversas modalidades de atentado ao erário, às instituições e ao pudor a que a nação vem sendo submetida. Num instante em que a Polícia Federal vareja as facções do PMDB do Rio de Janeiro e do Mato Grosso do Sul, o presidente da República negocia a entrega de ministérios ao rebotalho do Congresso.

Temer desperdiçará mais uma oportunidade de fazer uma concessão à decência. Em vez de acomodar na Esplanada uma equipe acima de qualquer suspeita, entregará ministérios aos mesmos suspeitos de sempre. Um auxiliar do presidente tentou justificar: “Se o governo não fizer composições, não governa. Como aprovaremos a reforma da Previdência e as medidas do ajuste fiscal?” Com esse mesmo tipo de argumento produziram-se escândalos como o mensalão e o petrolão.

Presidente circunstancial, Temer não é o primeiro a transformar a administração pública em bazar. Mas seu balcão foi aberto depois do esfacelamento da polarização tucano-petista. O que dá aos conchavos atuais um quê de novidade. Suprema ironia: de tanto se colocarem como polos opostos da política brasileira, de tanto se unirem ao atraso para se enfrentar um ao outro, PSDB e PT acabaram dominados pelo arcaico. Agora, quem dá as cartas é o centrão. Uniu-se a Eduardo Cunha para expurgar o PT do Planalto. Reorganiza-se para desalojar o PSDB da Esplanada.

Com incrível sensibilidade para detectar oportunidades de negócio, o centrão vislumbrou nas denúncias da Procuradoria contra o inquilino do Planalto a oportunidade de capturar o presidente, terceirizando o exercício da Presidência ao PMDB. Enquanto Temer finge que governa, o centrão faz suas transações. A pasta das Cidades, levada ao mercado da baixa política depois da saída do tucano Bruno Araújo, deve ser entregue ao PP, uma legenda que se destaca no universo dos trambiques.

O PP ocupa o topo do ranking dos enrolados na Lava Jato. Seus encrencados somam 18 deputados e 3 senadores. A despeito disso, Temer já abriu negociação com o presidente do partido, o senador piauiense Ciro Nogueira, ele próprio acusado de lavagem de dinheiro. A pasta das Cidades já foi controlada pelo PP, sob Dilma Rousseff. Produziram-se picaretagens variadas. Tudo desaconselha a repetição do crime. Mas no Projeto Centrão de país tudo não significa nada.


Supremo pode avacalhar a Operação Lava Jato
Comentários 68

Josias de Souza

Vêm aí mais duas boas oportunidades para o brasileiro conferir de que lado está o Supremo Tribunal Federal. A presidente Cármen Lúcia marcou para quinta-feira da semana que vem o julgamento que pode limitar a abrangência do foro privilegiado. Depois, em sessão a ser agendada, a Suprema Corte decidirá se mantém ou não a regra que abriu as portas das cadeias para os condenados na segunda instância. Uma combinação malandra de veredictos pode inaugurar uma pizzaria que servirá impunidade a larápios graúdos e avacalhará a Lava Jato.

Suponha que a maioria dos ministros do Supremo vote a favor da restrição do foro, nos termos propostos pelo relator Luís Roberto Barroso: permanecem no Supremo apenas os processos relativos a crimes cometidos por congressistas e ministros durante e em razão do exercício do mandato ou do cargo público. Nessa hipótese, desceriam do Éden Supremo do Judiciário para o mármore quente da primeira instância todos os processos relacionados à Lava Jato. A arquibancada soltaria fogos.

Agora imagine que, em julgamento posterior, a mesma Suprema Corte decida rever a jurisprudência que autorizou a prisão após a confirmação das sentenças por um tribunal de segunda instância. Neste caso, as senteças de juízes como Sergio Moro lançarão fachos de luz sobre as propinas e outras delinguências. Mas depois que o país enxegar a roubalheira, as luzes serão apagadas e os condenados recorrerão em liberdade à segunda, à terceira e até à quarta instância do Judiciário. Os processos se arrastarão por mais de dez anos. E muitos serão assados no forno da prescrição.

O procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, parecia sentir um cheiro de queimado quando falou sobre o tema numa entrevista ao blog, no mês passado. Ele lamentou a inexistência de punição de criminosos graúdos pilhados na maior investigação anticorrupção da história:

“Faltam os grandes chefes desse esquema criminoso, as pessoas mais responsáveis entre todas por ele, que foram os políticos poderosos que organizaram. Falta a responsabilização deles. E a responsabilização deles tramita exatamente no Supremo Tribunal Federal.” (reveja abaixo um trecho da entrevista do procurador)

‘Falta responsabilizar os grandes chefes’, lamenta o procurador

No fundo, o Supremo Tribunal Federal julgará a si mesmo. Condenou-se à execração quando abriu o caminho, por 6 votos a 5, para o Senado anular as sanções cautelares impostas ao senador tucano Aécio Neves. A plateia tem agora mais um par de oportunidades para verificar se o Supremo utiliza sua supremacia para fazê-la de idiota.


PSDB faz por pressão o que não fez por opção
Comentários 13

Josias de Souza

O capítulo mais constrangedor de uma novela é aquele que o sujeito deixou de executar antes de ser eliminado do espetáculo. Em 18 de maio, menos de 24 horas depois da explosão do grampo do Jaburu nas manchetes, o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) anunciou sua decisão de deixar o posto de ministro das Cidades. Pressionado, deu meia-volta. Nesta segunda-feira, Bruno fez por pressão o que deixara de fazer por opção seis meses atrás. Exonerou-se. Fez isso com a corda no pescoço, num instante em que Michel Temer se preparava para apertar o nó entrelaçado pelos partidos do centrão.

Emparedada pela ala anti-Temer do ninho, a banda governista do PSDB ensaiava um desembarque conjunto. Planejava a entrega simultânea das cartas de demissão de Bruno e dos outros três ministros emplumados: Aloysio Nunes Ferreira (Itamaraty), Antonio Imbassahy (Relações Institucionais) e Luislinda Valois (Direitos Humanos). Isso ocorreria antes de 9 de dezembro, dia da convenção que levará à vitrine o racha do tucanato. Como parte da coreografia, Temer manteria dois tucanos na Esplanada —não mais como representantes do partido, mas como beneficiários de uma hipotética “cota pessoal” do presidente.

Nesse enredo, o tucanato desceria do muro, só que de lados opostos. A ala oposicionista poderia dizer que prevaleceu. A banda governista poderia alegar que manteve um pé na Esplanada em nome dos interesses maiores do país, não por razões subalternas ou fisiológicas. Se a configuração do palco for mantida depois que Bruno saiu de sua marca antes do tempo, restará saber qual será a reação da plateia, que não foi suficientemente ensaiada para o festival de cinismo.

Seja qual for o desfecho da novela, o PSDB vai a 2018 numa situação muito diferente da que gostaria. A legenda compartava-se como uma locomotiva cujo ponto final seria o Planalto. O tucanato havia estruturado algo muito parecido com um projeto de retorno ao poder. Espremiam-se no vagão presidencial três grão-tucanos: Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin. O impeachment forçou o projeto tucano a fazer baldeação no governo Temer. Nele, a locomotiva cruzou duas estações: a da ruína fiscal e a do descalabro ético. Nenhuma delas conduz ao sonho presidencial.

Na antessala de 2018, parte do PSDB se deu conta de que Michel Temer é um aliado tóxico. Se o governo tiver algum êxito na economia, o PMDB de Temer será capaz de tudo, menos de dividir eventuais dividendos com sócios tucanos. Se o PIB, por medíocre, for insuficiente para corrigir os efeitos da gestão empregocida herdada de Dilma Rousseff, restará apenas bola de ferro da perversão moral. Aécio, Serra e mesmo Alckmin, dos três o menos enlameado, já arrastam suas próprias correntes. E todos eles têm experiência suficiente para saber que não poderão fazer pose de limpinhos diante do eleitorado e usar luvas de renda para falar do governo Temer.

Daí a constatação exposta por Bruno Araújo em sua carta de demissão: já não há mais no PSDB “apoio no tamanho que permita seguir nessa tarefa” de ser ministro. Faltou ao tucanato perceber que, em política, quem não ambiciona o poder erra o alvo. Mas quem persegue o poder a qualquer custo, mesmo como força auxiliar de um agrupamento temerário como o PMDB de Temer, vira o alvo.


Falta interesse público à guerra interna do PSDB
Comentários 62

Josias de Souza

Ganha um kit com a íntegra dos áudios e dos vídeos que expõem a ruína moral de Aécio Neves quem for capaz de apontar um mísero sinal de preocupação com o Brasil na guerra que o PSDB trava consigo mesmo em cena aberta. Se Aécio e Tasso Jereissati estivessem liderando facções em litígio por um projeto de políticas públicas capaz de injetar esperança na sucessão de 2018, muito bem. Mas não é disso que se trata. A causa mais visível da encrenca é uma disputa encarniçada pelo poder partidário. Os tucanos arrancam as próprias penas por interesses mais palpáveis do que o etéreo interesse público. Por exemplo: o controle de cofres de ministérios e da caixa registradora que receberá um naco dos R$ 2 bilhões do recém-criado fundo de financiamento eleitoral.

Ao anunciar sua candidatura à presidência do PSDB, Tasso comprometeu-se com o aprofundamento da autocrítica e disse que vem aí um novo e rigoroso código de ética do tucanato. Admita-se que a preocupação do senador com a moralidade seja genuína. Neste caso, poderia abrir o inventário dos erros com o fornecimento de uma resposta: por que transformou a agenda criminal de Aécio num processo de desmoralização partidária ao articular a unanimidade dos votos do PSDB a favor da anulação, no plenário do Senado, das sanções impostas pela 1ª Turma do STF ao investigado?

Ao explicar a destituição de Tasso do cargo de presidente interino do PSDB, Aécio declarou que seu objetivo é assegurar que a disputa do correligionário com Marconi Perillo pela presidência do partido “se dê em alto nível.” Em timbre magnânimo, o ex-amigo de Joesley Batista acrescentou: “Me preocupa o PSDB sair da agenda ou da vanguarda das grandes reformas que precisam ocorrer no Brasil para se limitar a uma disputa interna.” Se Aécio estivesse interessado com a altura do nível, teria evitado o rebaixamento do teto do partido, renunciando à presidência. De resto, não pode falar em vanguarda, a menos que pretenta começar pela promiscuidade arcaica que uniu seus interesses penais às conveniências de Michel Temer, seu parceiro de infortúnio.

Considerando-se o estágio de degradação da política, a qualquer hora, em qualquer partido político, algo de errado pode estar acontecendo. Isso é parte do jogo. O problema começa quando correligionários se metem em encrencas, como Aécio e outros tucanos, e a legenda finge que não é com ela. No artigo em que defendeu o desembarque do PSDB do governo Temer, Fernando Henrique Cardoso anotou que o PSDB “pode apresentar algum nome competitivo” em 2018. “Mas precisa passar a limpo o passado recente. Deveria prosseguir no mea-culpa […], sem deixar de dar a consideração a quem quase o levou à Presidência.” Quer dizer: pediu complacência com Aécio, que perdeu o Planalto para Dilma Rousseff por muito pouco.

Tasso atendeu aos desejos de FHC, poupando Aécio em sua hipotética autocrítica: “Nos três últimos anos, o que nós vimos foi uma imensa onda escândalos de corrupção envolvendo políticos e empresários em todos os partidos. O nosso, com certeza, foi o que menos sofreu. E menos sofreu porque o nosso partido tem os melhores quadros políticos no Brasil. São aqueles quadros que fazem política com ética, decência, moralidade e espírito público.” Menos de 24 horas depois de ter feito essa declaração, o senador foi destituído por Aécio. E modulou o tom: “O meu PSDB não é o PSDB desses caras.”

Em 2005, quando o mensalão mineiro do PSDB escalou as manchtes nas pegadas do mensalão do PT, o tucanato passou a mão na cabeça de Eduardo Azeredo, que presidia a legenda. Nessa época, como agora, os tucanos preferiam apontar os erros alheios. Criticavam a tesouraria petista de Delúbio Soares, anabolizada pelas mágicas financeiras de Marcos Valério, o mesmo parceiro de Azeredo. Desancavam o petista Waldomiro Diniz, que assessorava José Dirceu na Casa Civil e, simultaneamente, fechava negócios esquisitos à sombra.

O tucanato não se deu conta de que, assim como o PT flertava com o risco da desmoralização ao tolerar Delúbios e Waldomiros, o PSDB também comprometia o seu futuro ao tratar com “consideração” quem merecia punição. Ficou entendido que não havia inocentes na legenda. Condenado, Azeredo continua filiado ao partido. Nenhum correligionário jamais ousou representar contra ele no conselho de ética da legenda. Gravado num diálogo vadio com Joesley Batista, delatado por Marcelo Odebrecht e Cia., investigado em nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal, pendurado nas manchetes de ponta-cabeça, Aécio Neves é tratado com “consideração”. De novo, verifica-se que só há no mundo dois tipos de tucanos: os culpados e os cúmplices.

Antes de se tornar porta-voz do desembarque, FHC dizia coisas assim: “Diante da circunstância brasileira, depois do impeachment [da Dilma], o que temos que fazer é atravessar o rio. Isso [o governo Temer] é uma ponte. Pode ser uma ponte frágil, uma pinguela? Tudo bem. Mas é o que tem. Se você não tiver uma ponte, você cai no rio. Não adianta fazer muita especulação.” Beleza. A ponte balançou quando Temer foi delatado pela turma da JBS. Ruiu quando Temer entrou para a história como primeiro presidente da República denunciado criminalmente um par de vezes. O que fez o PSDB? Desperdiçou a sua hora. Caiu no rio. Contra esse pano de fundo, há duas possibilidades: ou o PSDB começa a se levar a sério, agindo dez vezes antes de pensar, ou o debate que incendeia a legenda no momento terá o peso de uma lápide.