Ciro: protesto é reação ao ‘crime perfeito do PT’
Josias de Souza
Josias de Souza
Josias de Souza
Os protestos que enchem as ruas provocam nos congressistas estranhas sensações. Quem imagina que sabe mais ou menos o que a rapaziada deseja, teme. Quem acredita que sabe um pouco mais, tem vontade de ficar em casa. Quem está convencido de que sabe tudo, tranca-se no armário. Dá-se a isso o nome de medo.
Entre as placas que ilustram as manifestações de São Paulo e do Rio estão as que combatem a PEC 37. Trata-se daquela emenda constitucional que concede às polícias federal e civil o monopólio da investação penal. Estava combinado que os deputados aprovariam a proposta na quarta-feira (26) da semana que vem. Porém, já não há tanta certeza. O medo do meio-fio fez a PEC subir no telhado.
Reunido nesta terça-feira (18), o Colégio de Procuradores da República, órgão do Ministério Público Federal, forneceu munição aos manifestantes. Divulgou documento batrizado de “Carta de Brasília”. O texto pode ser lido aqui, A certa altura, realça que o Ministério Público não será a única vítima da PEC.
Diz o texto: “A ineficiência da investigação de crimes aumentará porque os atos investigatórios da Receita Federal, do TCU, da CGU, do INSS, da Secretaria de Inspeção do Trabalho, do COAF, do CADE e da SDE, da ANP, do Banco Central, da Receita Federal e dos órgão ambientais, não poderão ser apresentados diretamente ao Ministério Público.”
Josias de Souza
- Globo: O Brasil nas ruas: Capitais já baixam tarifas de ônibus; protestos continuam
- Folha: Ato em SP tem ataque à prefeitura, saque e vandalismo; PM tarda a agir
- Estadão: Manifestantes tentam invadir Prefeitura; SP tem noite de caos
- Correio: Manifestações desnorteiam a velha política
- Valor: Mau humor atinge mercado e megaoferta é cancelada
- Estado de Minas: Noite de vandalismo depois de protesto pacífico em BH
- Jornal do Commercio: Saques e violência em meio a apelos de paz
- Zero Hora: Por dentro do protesto
- Brasil Econômico: Protesto sem líder único e diversas bandeiras
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.
Josias de Souza
- Via Aroeira.
Josias de Souza
A coisa está tão complexa que o melhor a fazer é consultar o otorrinolaringologista. Que receitará ouvidos limpos, olho vivo e boca fechada. Ouvidos limpos para não perder a pluralidade dos slogans do pedaço festivo dos protestos, como a mobilização de 50 mil defronte da Catedral da Sé (vídeo um). Olho vivo para perceber que há método na ação da turba (vídeo dois) e para distinguir arruaceiro de manifestante (vídeo três). E boca fechada para não pronunciar análises ordinárias sobre fatos extraordinários.
1. A festa
2. O método
3. O vandalismo
Josias de Souza
Num instante em que as ruas informam que os governantes brasileiros têm uma visão limitada, o governador pernambucano Eduardo Campos, presidenciável do PSB, sugere aos gestores públicos que “abram os ouvidos à sociedade.” Há na praça, segundo ele, uma pauta nova –a “pauta do século 21”. Baseia-se na “melhoria da qualidade de vida”.
Desde que foi expulso do Éden, o ser humano não busca senão melhorar de vida. Mas Eduardo Campos acha que há políticos e movimentos sociais que não estão “conectados” às ruas. “Alguns, efetivamente, estão completamente desconectados”, ele opinou.
Num flerte com o óbvio, Eduardo Campos afirmou: “É claro que essa não é só uma busca por redução de centavos nas passagens. É uma busca mais complexa, é uma pauta muito mais ampla.” A despeito disso, cuidou de anunciar uma redução de dez centavos nas tarifas de transportes públicos de Recife e arredores. Fez isso às vésperas de uma manifestação. Na capital pernambucana, a rapaziada já informou que descerá ao meio-fio nesta quinta-feira (20).
Josias de Souza
Aécio Neves, presidenciável do PSDB, vê nos protestos que irrompem nas ruas do Brasil “um sentimento difuso” de insatisfação que “deve ser reconhecido e recebido com muita humildade pelos governantes.” Falou de governantes assim, no plural. Mas espremeu os olhos para exergar Dilma Rousseff ao fundo:
“Para mim, fica claro que o Brasil cor-de-rosa, pintado e cantado em verso e prosa na propaganda oficial, do Brasil sem miséria, das empresas batendo recordes de produção, da saúde e da educação avançando, não encontra correspondência na vida real das pessoas.”
Ecoando FHC, Aécio disse: “Esse movimento que ocorre hoje em todo o Brasil não pode nem deve ser apropriado por ninguém. Seria um grande equívoco porque não seria legítimo. É um movimento difuso, mas que encontra em certa insatisfação generalizada o seu motor, o seu combustível maior. É preciso que primeiro respeitemos o movimento.”
Lero vai, lero vem, um repórter recordou a Aécio que a encrenca começou em São Paulo. Um reajuste dos transportes públicos acendeu o pavio. A repressão policial aos primeiros protestos levou à explosão. O que acha dos que tentam transferir parte da responsabilidade para a gestão do correligionário Geraldo Alckmin?
“Acho que, se tentaram, isso não tem o menor efeito”, disse Aécio. “Repito, acho que, obviamente, os que estão no governo têm maiores preocupações, quaisquer que sejam os partidos políticos. É isso que ocorre não apenas no Brasil, isso ocorre no mundo. As redes, hoje, a internet é um avanço do nosso tempo. Portanto, esses movimentos, que ocorrem hoje, no Brasil, ocorreram ao longo dos últimos anos em outros países do mundo. Temos que recebê-los respeitosamente…”
Como se vê, as ruas arrancaram os políticos da zona de comodidade. Não há mais espaço para lentes bifocais. O cor-de-rosa foi substituído pelo cinza nas três esferas de governo –da seara federal de Dilma Rousseff ao âmbito municipal de Fernando Haddad, passando pelo estágio estadual de Geraldo Alckmin -ou do tucano Antonio Anastasia, sob cujo bico a PM se esquece de maneirar. O resto é ilusão de ótica.
Josias de Souza
Após informar no Planalto que seu governo já está ouvindo as vozes das ruas, Dilma Rousseff levou sua sensibilidade auditiva para passear em São Paulo, berço dos protestos. Foi ouvir Lula, seu padrinho e oráculo do PT.
Dilma viajou acompanhada do seu novo consultor político, o ministro Aloizio Mercadante (Educação). Foram para um hotel próximo ao aeroporto de Congonhas. Além de Lula, encontrariam o presidente do PT, Rui Falcão.
Josias de Souza
O assunto era a proposta do governo para regulamentar o setor da mineração. Mas Dilma Rousseff injetou no discurso o assunto do momento: o barulho das ruas. Para ela, o Brasil acordou “mais forte” nesta terça-feira (18). Por quê? “A grandeza das manifestações de ontem comprova a energia da nossa democracia. [...] Essas vozes das ruas precisam ser ouvidas.” Ela acha que seu governo já “está ouvindo as vozes pela mudança”.
Dilma gostou dos dizeres de um cartaz. Abriu aspas: “Desculpe o transtorno, estamos mudando o país.” E emendou: “Meu governo está empenhado e comprometido com a transformação social.” Animou-se a traduzir “a mensagem direta das ruas”. Acha que o asfalto ronca “por mais cidadania, por mais escolas, melhores hospitais, direito de participação, […] melhorias no transporte a preço justo e o direito de influir nas decisões de todos os governos.” O meio-fio também expressa o “repúdio à corrupção e ao uso indevido de dinheiro público.”
Dilma imagina que o governo dela não é parte do problema. Aliás, ela acredita que os humores da sociedade mudam graças ao governo. “Mudam quando nós mudamos também o Brasil. Porque incluímos, porque elevamos a renda, porque ampliamos o acesso ao emprego, porque demos acesso a mais pessoas à educação, surgiram cidadãos que querem mais e que têm direito a mais.”
A certa altura, Dilma se incluiu na cena: “Todos nós estamos diante de enormes desafios.” Segundo disse, “as vozes das ruas querem mais. Mais cidadania, mais saúde, mais educação, mais transporte, mais oportunidades.” O governo também quer, ela aditou: “Eu quero aqui garantir a vocês que meu governo também quer mais.” E prometeu entregar: “Nós vamos conseguir mais para o nosso país e nosso povo.”
Como se vê, Dilma reagiu muito bem aos protestos. Recebeu a voz das ruas como uma espécie de rainha do Cosmos. Tomando-a a sério, as ruas já podem silenciar. Logo, logo o governo vai melhorar o giro das galaxias.
Josias de Souza
Os procuradores da República rejeitaram a versão alternativa à emenda constitucional 37. A peça foi redigida por um grupo de trabalho que inclui delegados e membros do Ministério Público. Votação feita numa rede interna de computadores, revelou que a aversão à formula conciliatória foi unânime. Nesta terça (18), o procurador-geral Roberto Gugel presidirá reunião do Colégio de Procuradores. Reúne gente de todo o país. Será um encontro de pauta única: a PEC 37.