Blog do Josias de Souza

Arquivo : julho 2018

Bolsonaro é fenômeno com calcanhares de vidro
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Josias de Souza

O que é um fenômeno? Um deputado de ultradireita não é um fenômeno. O endeusamento de Donald Trump não é um fenômeno. Pesquisa eleitoral não é um fenômeno. Fenômerno é um apologista de Trump liderar as pesquisas presidenciais no Brasil recitando teses de ultradireita. Com a aclamação de sua candidatura pelo raquítico PSL, neste domingo, Jair Bolsonaro consolida-se como grande surpresa da temporada eleitoral de 2018. Mas o fenômeno, indica o Datafolha, tem calcanhares de vidro que dificultam sua caminhada até o Palácio do Planalto.

Com Lula fora da raia, Bolsonaro lidera o páreo presidencial com 19%, informa a sondagem mais recente do Datafolha, divulgada em junho. Entretanto, um terço do eleitorado desenvolveu uma ojeriza pelo fenômeno —32% dos entrevistados disseram que jamais votariam no capitão. Bolsonaro tem dificuldades para crescer. Mais: nas projeções de segundo turno, sua liderança derrete.

Se não estivesse inelegível, Lula (49%) surraria Bolsonaro (32%) num hipotético segundo round. Marina Silva (42%) colocaria dez pontos de vantagem sobre o fenômeno (32%). Ciro Gomes (36%) subiria ao ringue estatisticamente empatado com a novidade (34%). Até Geraldo Alckmin (33%) emparelharia suas luvas com as de Bolsonaro (33%), num empate matemático.

Numa eleição imprevisível, em que 33% dos eleitores chegam à beira da urna sem ter escolhido um candidato, tudo pode acontecer. Mas a liderança de Bolsonaro tem, por ora, a solidez de um pote de gelatina. Sem alianças, o candidato terá algo como sete segundos para vender o seu peixe no horário eleitoral. Mal dá para pronunciar o nome.

Bolsonaro alardeia que vencerá a eleição no primeiro turno, fazendo suas barricadas na internet. Em política, impossível não é senão uma palavra que contém o possível.  Mas Valdemar Costa Neto, um PhD em poder, preferiu tomar distância. Ao farejar o risco de Bolsonaro dar com os burros n’água, o dono do PR decidiu apostar num burro mais seco. Entregou o tempo de propaganda do seu partido para o tucano Geraldo Alckmin, estimulando as outras legendas do chamado centrão a fazer o mesmo.

O fenômeno arrancou a extrema-direita do esconderijo entoando raciocínios que transformaram o candidato numa espécie de porta-voz do desalento. Bolsonaro captou no ar o sentimento do armário. Há quatro meses, ao filiar-se ao PSL, declarou que seu modelo é Donald Trump, “um exemplo para nós seguirmos.”

Na área da segurança pública, sua prioridade é liberar as armas, aproximando o Brasil dos Estados Unidos, país onde estudantes adolescentes matam colegas de classe com armas compradas na loja da esquina. Apoiado pela Bancada da Bala, Bolsonaro deseja vitaminar o grupo no Congresso. “Quem sabe teremos aqui a bancada da metralhadora”, vaticionou. “Violência se combate com energia e, se necessário, com mais violência”.

No rol de inimigos de Bolsonaro, “marginais” e “vagabundos” dividem espaço com os homossexuais. “Um pai prefere chegar em casa e ver o filho com o braço quebrado no futebol, e não brincando de boneca”, declarou. “Casamento é entre homem e mulher. E ponto final”.

No final do ano passado, Bolsonaro classificou a turma do MST de “terrorista”. Propôs um tratamento implacável: “A propriedade privada é sagrada. Temos que tipificar como terroristas as ações desses marginais. Invadiu? É chumbo!” Chegou mesmo a defender o uso de “lança-chamas” contra os liderados de João Pedro Stédile.

Deputado federal de sete mandatos, Bolsonaro às vezes soa como se os seus 27 anos de Congresso fossem um mero asterisco. “Se o Kim Jong-un jogasse uma bomba H em Brasília e só atingisse o Parlamento, você acha que alguém ia chorar?”, indagou numa palestra, arrancando risos da plateia.

De economia Bolsonaro reconhece que não entende bulhufas. Nessa matéria, o candidato tornou-se uma espécie de jarro vazio, dentro do qual o economista Paulo Guedes despeja o seu receituário liberal. Guedes disse que, num eventual governo Bolsonaro, seriam mantidos em seus postos membros da equipe econômica da gestão de Michel Temer, um presidente reprovado por oito em cada dez brasileiros.

Dogmático aos 63 anos, Bolsonaro comporta-se como se já não tivesse idade para aprender mais coisas. Polêmico, também não exibe a sabedoria dos políticos que aprenderam a ocultar o que ignoram. Para um candidato assim, tão controverso, a tarefa de reduzir antipatias é mais complicada. O fenômeno terá que se desdobrar se não quiser passar à história como o presidente mais fenomenal que o Brasil jamais terá.


Alckmin sofre a primeira chantagem do centrão
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Josias de Souza

Menos de 24 horas depois de celebrar um acordo pré-nupcial com o centrão, Geraldo Alckmin se deu conta de que um matrimônio político, quando se baseia apenas no interesse, transforma-se rapidamente em patrimônio. Percebeu que, para o deputado Paulinho da Força, proprietário do Solidariedade, um dos partidos do grupo, a fidelidade conjugal só é possível a três. A união com Alckmin ainda nem foi sacramentada e Paulinho já acena para Ciro Gomes.

Conforme já noticiado aqui, Paulinho, um cacique da Força Sindical, combinara com sua tribo que condicionaria o apoio a Alckmin à volta do imposto sindical, que obriga trabalhadores a entregarem um dia de labuta para os sindicatos. Na quinta-feira, após reunião do alto comando do centrão com o candidato tucano, informou-se que Alckmin concordara em incluir na sua agenda a criação de nova fonte de renda para as arcas sindicais.

Nesta sexta-feira, em nota veiculada no Twitter, Alckmin levou o pé atrás: “Ao contrário do que está circulando nas redes, não vamos revogar nenhum dos principais pontos da reforma trabalhista. Não há plano de trazer de volta a contribuição sindical.”

Antes mesmo da veiculação da mensagem do candidato, Paulinho já havia sinalizado para o staff de Ciro, com quem parecia fechado dois dias antes, a intenção de trair Alckmin. Como de hábito, impôs uma condição: entregaria os segundos de propaganda do Solidariedade a Ciro desde que o PSB e o PCdoB fizessem o mesmo.

Do lado de Ciro, o aceno de Paulinho foi recebido com desconfiança. Um dos operadores políticos de Alckmin chamou de chantagem a tentativa de adultério pré-nupcial de Paulinho

Quem observa o vaivém da política percebe o seguinte: das várias maneiras de se atingir o desastre nesse ramo, a incoerência é a mais rápida; a solidão, a mais inofensiva; e a aliança com o centrão, a mais cara.


Lula vai se tornando um cabo eleitoral da direita
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Josias de Souza

Nenhum pai faria com um filho o que o pseudo-esquerdista Lula faz com a autoproclamada esquerda brasileira. Preso em Curitiba, Lula transformou sua hipotética candidatura presidencial num cavalho de batalha. Impede o PT de cuidar do Plano B e conspira contra a adesão de aliados ao projeto de Ciro Gomes. Com esses dois movimentos, Lula anima as campanhas da chamada direita.

Os partidos brasileiros, como se sabe, têm muitas cabeças e poucos miolos. O PT sofre da mesma falta de miolos, mas tem uma cabeça só. E Lula, o imperador do petismo, revela-se mais uma vez capaz de tudo, menos de compartilhar o poder e a influência. O imperador do petismo obriga o PT e seus satélites a segui-lo numa procissão que leva à cadeia, não à urna.

Inelegível, Lula aproximaria Ciro Gomes da Presidência se o apoiasse, cedendo-lhe o tempo de propaganda do PT. Em vez disso, conspira para isolar Ciro. As pesquisas indicam que Lula colocaria Fernando Haddad no segundo turno se anunciasse desde logo seu apoio ao poste petista. Mas Lula mantém sua candidatura cenográfica por conveniência penal.

Se esticar essa corda, Lula arrisca-se a assumir em 2018 o papel de cabo eleitoral da direita. Numa eleição imprevisível, já não é absurda a hipótese de um segundo turno disputado entre o tucano Geraldo Alckmin e o capitão Jair Bolsonaro.


PIB miúdo joga cal sobre ocaso de Michel Temer
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Josias de Souza

Antes de sofrer uma pane moral em 17 de maio de 2017, quando o grampo do Jaburu escalou as manchetes, Michel Temer desenhava nas conversas com empresários e congressistas um cenário triunfante para a sucessão de 2018. Previa que, neste segundo semestre do ano eleitoral, a economia estaria crescendo na casa dos 3%, com aumento da renda e queda do desemprego. Em relatório divulgado nesta sexta-feira, a equipe econômica do governo confirma que a realidade atrapalhou a fantasia presidencial.

Ecoando estimativas já feitas pelo Banco Central, o documento reduz a previsão oficial de crescimento do PIB, que já havia caído para 2,5% em maio, para 1,6%. O mercado projeta uma taxa ligeiramente mais mixuruca: 1,5%, com viés de baixa. Quanto à inflação, o relatório do governo anota que deve subir de 3,4% para 4,2%. Tudo isso contra um pano de fundo tisnado pela precarização do trabalho e pela presença de mais de 13 milhões de brasileiros no olho da rua.

Temer chegou a sonhar com a reeleição. Imaginou que passaria à posteridade como presidente das reformas. Reformou a própria biografia, piorando-a. Descerá a rampa como o presidente mais impopular da história. Com sorte, viverá o resto dos seus dias no ostracismo. Com azar, será recolhido pelos rapazes da Polícia Federal para uma escala no inferno. Nesse cenário aterrador, o PIB miúdo de 2018 cai sobre o ocaso de Temer como uma espécie de pá de cal. Parte do pó cai sobre a campanha presidencial do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles.


Três maiores rivais de Ciro são: Ciro, Ciro e Ciro
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Josias de Souza

Ciro Gomes perseguia três objetivos na primeira fase da campanha presidencial: 1) Atrair um pedaço do eleitorado órfão de Lula, sem avalizar o discurso petista que reduz toda corrupção a uma perseguição lavatista; 2) Firmar-se como o anti-Temer, sem fechar as portas para uma aliança que lhe permitisse ocupar um pedaço do tempo de TV do governista centrão; 3) Trazer sua língua na coleira. Consideradas as circunstâncias, parecia uma estratégia de profissional. Que Ciro executou com um amadorismo que não orna com a experiência de quem disputa o Planalto pela terceira vez.

Até o início da semana, Ciro parecia ter encontrado a trilha que conduz ao segundo turno. Nesta sexta-feira, o candidato foi aclamado na convenção do PDT sem um nome para acomodar na vice e sem aliados para levar a bordo. Ao discursar, soou como um personagem desnorteado. É cedo para fazer avaliações peremptórias. Mas as aparências indicam que, se não encontrar uma forma de domar a si mesmo, Ciro tomará novamente o atalho que vai dar no brejo.

Na prática, a campanha de Ciro começou no dia em que Lula foi preso. Caiu-lhe no colo, por gravidade, um pedaço do eleitorado da divindade inelegível do PT —o suficiente para vitaminá-lo nas pesquisas, colocando-o numa posição numericamente à frente de Geraldo Alckmin, com vista para os calcanhares de Marina Silva e Jair Bolsonaro. Com o tempo de propaganda do PP e do Solidariedade, que considerava no papo, Ciro chegaria à convenção triunfante. Em vez disso, colocou suas diatribes verbais a serviço de Alckmin, empurrando o dote eletrônico do centrão para o rival.

Pode-se dizer que Ciro não faz o primeiro turno dos seus sonhos. Mas há males que vêm para pior. Se não conseguir costurar uma aliança com o PSB e o PCdoB, o candidato do PDT terá conseguido a façanha de realizar os seus piores pesadelos. Como que farejando o cheiro de queimado, Ciro retomou o discurso que o aproxima da estrela vermelha do PT, distanciando-o do pedaço do eleitorado que ele terá de disputar com Alckmin: algo como um terço dos brasileiros que, entre irados e desalentados, se declaram sem candidato.

“Depois de tudo que houve com o ex-presidente Lula, nossa responsabilidade aumenta muito”, disse Ciro na convenção. “São 207 milhões de pessoas que temos que vestir, que empregar, garantir que se alimentem e que tenham um cuidado médico decente. Todas elas já viram no passado recente que é possível ser diferente quando o governo é conectado com o povo.” Na noite da véspera, discursando para uma plateia de sindicalistas, Ciro já havia flertado com a adesão ao slogan petista do “Lula Livre”.

“O Brasil nunca será um país em paz enquanto o companheiro Luiz Inácio Lula da Silva não restaurar a sua liberdade”, afirmara, antes de criticar o vaivém de decisões judiciais que manteve o companheiro na cadeia em 8 de julho: “Aquele domingo foi uma das coisas que eu mais assustado assisti como um velho professor de direito. Como è que pode tanta aberração lidando com coisas graves como a liberdade do maior líder popular do país ou o próprio direito, regra de convivência que substitui a lei do mais forte, a prepotência da violência e o caos.”

Após cruzar toda a pré-campanha esquivando-se com maestria do discurso petista anti-Lava Jato, Ciro flerta perigosamente com o lero-lero que se opõe a uma operação anticorrupção que arrasta a simpatia da grossa maioria do eleitorado. Faz isso dias depois de ter chamado uma promotora de “filho da puta” (imaginava tratar-se de um homem) e de ter deixado no ar a ameaça de agir contra a autonomia do Ministério Público caso chegue à Presidência.

A eleição mais imprevisível desde a redemocratização continua em aberto. Nada está perdido. Mas se alguém perguntar ao correligionário mais estúpido de Ciro Gomes quais são os três maiores adversários do candidato do PDT, ele responderá: “Ciro, Ciro e Ciro”.


Bolsonaro tem bancada oculta e ‘guerrilha virtual’
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Josias de Souza

Frustradas as tentativas de firmar alianças, Jair Bolsonaro se equipa para realizar uma campanha solo. Pra tentar se vacinar contra a pecha de sectário, compõe uma bancada suprapartidária de apoiadores ocultos. E espera contar com uma “guerrilha virtual” de internautas dispostos a defendê-lo espontaneamente dos ataques que receberá de adversários durante a campanha.

“Nossa bancada já soma 112 parlamentares”, disse ao blog o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), articulador de Bolsonaro no Legislativo. “Está em curso um movimento que vai nos permitir, até 8 de agosto, anunciar o apoio de algo como 150 parlamentares, talvez um pouco mais.” Os congressistas se achegam a Bolsonaro com o compromisso de que seus nomes sejam mantidos em sigilo pelo menos até um eventual segundo turno. Leva o rosto à vitrine quem quer.

Bem posicionado nas pesquisas, Bolsonaro dispõe de algo como sete segundos no horário eleitoral. Não terá como responder no rádio e na TV a eventuais ataques de rivais com mais tempo de propaganda. Embora reconheça que o nanismo eletrônico é preocupante, Lorenzoni acredita que Bolsonaro conseguirá superar o obstáculo.

“Ele tem um impressionante volume de apoiadores na faixa etária dos 16 aos 24 anos”, afirmou o deputado. “Essa gurizada realiza um trabalho muito forte na internet. Coisa espontânea, voluntária. É uma verdadeira guerrilha virtual a favor do Bolsonaro. Defende o candidato de forma apaixonada. Isso tem e continuará tendo um poder muito grande na campanha.”

O repórter recordou a Lorenzini que, na sucessão de 2014, a candidatura de Marina Silva foi passada no moedor pelo marketing da campanha petista de Dilma Rousseff. O deputado avalia que Bolsonaro não corre o mesmo risco. “Até a eleição passada, alguns partidos ainda gozavam de credibilidade. Hoje, a sociedade não acredita em nenhum partido tradicional. As pessoas tendem a desacreditar de qualquer coisa que venha dos partidos políticos.”

Por que a bancada pró-Bolsonaro é oculta? “Temos um compromisso de confidencialidade com cada um”, declarou Lorenzoni. “Desde novembro do ano passado, fizemos 11 cafés da manhã, almoços e jantares de parlamentares com o nosso candidato. Foram filmados e fotografados. Dizia-se que um governo do Jair Bolsonaro não teria governabilidade. Pois já termos do nosso lado 112 parlamentares. Teremos 150 até 8 de agosto. Há apoiadores de todos os partidos, exceto do PT, PCdoB e PDT.”

Lorenzoni prosseguiu: “A confidencialidade é necessária porque não queremos criar problemas para os parlamentares em seus partidos. Há três tipos de apoiadores: os que declaram sua opção abertamente; os que evitam se expor em respeito às alianças dos seus partidos, mas liberam seus grupos para fazer campanha pelo Bolsonaro; e os que se comprometem a arregaçar as mangas no segundo turno. Não tenho dúvidas de que, uma vez eleito, o Jair Bolsonaro terá uma base de 350 parlamentares.”