Blog do Josias de Souza

Arquivo : dezembro 2017

Fome de decência pode minar alianças de 2018
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Josias de Souza

Graças à epidemia de corrupção, o Brasil vive tempos extraordinários. Há cadáveres demais no noticiário político. Em consequência, uma fome de limpeza paira no ar. Alheios à demanda por decência, os partidos se equipam para a sucessão de 2018 de forma ordinária. Costuram-se coligações partidárias sem levar em conta o risco de as candidaturas trançadas de maneira convencional se espatifarem. Considerando-se o prontuário de certos articuladores, espatifar é o termo mais adequado.

Como ocorre às vésperas de toda eleição, o espírito de bazar baixou na política brasileira. Partidos sujos negociam seu tempo de propaganda no rádio e na tevê à luz do dia, na frente das crianças. Há cenas constrangedoras, como a disputa mal disfarçada que Geraldo Alckmin (PSDB) e Henrique Meirelles (PSD) travam pelas vitrines eletrônicas do PMDB e do rebotalho do centrão —PP, PR, PRB, PTB, SD e etc. (Leia aqui notícia do repórter Ranier Bragon sobre o tempo de que dispõe cada legenda.)

Na sucessão de 2014, o grosso dos partidos que orbitam ao redor do governo Temer estavam com Dilma Rousseff. A pupila de Lula tinha a campanha com o maior tempo de propaganda, com mais dinheiro e com mais marquetagem. A megaestrutura foi utilizada para desconstruir adversários, especialmente Marina Silva, não para construir Dilma. O resultado foi um estelionato eleitoral. Reeleita, Dilma adotou o programa econômico de Aécio Neves. Criticada, tornou-se uma gestora caótica. O ciclismo fiscal, a gestão empregocida e a ruína moral custaram-lhe o cargo.

Repete-se agora a mesma pantomima. Um paradoxo aprisiona os candidatos: antes de se venderem no horário eleitoral como protótipos do avanço, eles entregam a alma ao atraso em troca de alguns minutos adicionais de propaganda eleitoral. Com isso, o Brasil vive sob uma crise eterna de compostura. A sociedade é incapaz de enxergar ética nos políticos. E os políticos são incapazes de demonstrá-la.

Alguns candidatos ainda não se deram conta, mas na eleição de 2018 a aversão aos partidos, que leva o eleitorado a buscar novidades, pode transformar as máquinas partidárias e tudo o que elas representam num elemento tóxico. Por mal dos pecados, a grande surpresa da pré-temporada eleitoral chama-se Jair Bolsonaro, cuja estrutura partidária é, por ora, nenhuma. A ascensão de Bolsonaro como alternativa a Lula, um candidato condenado criminalmente, demonstra que, se não for saciada adequadamente, a fome de decência pode levar o eleitorado a mastigar a racionalidade.


Mala da propina vaza pelas beiradas do tapetão
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Josias de Souza

Desde que a Câmara enfiou embaixo do tapete as denúncias criminais que o afligiam, Michel Temer repete que “a verdade prevaleceu” e que o “complô” armado contra o seu governo foi “desmascarado”. É lorota. Houve acobertamento, não esclarecimento. E certas coisas são difíceis de encobrir. Por exemplo: uma mala com propina de R$ 500 mil da JBS.

Para desassossego de Temer, o juiz Jaime Travassos Sarinho, de Brasília, enviou Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala, para o banco dos réus. Denunciado junto com Temer, o ex-assessor da Presidência, terá de responder sozinho pelo crime de corrupção passiva. Em polvorosa, a defesa de Temer tenta reverter no STF o desmembramento do processo. Alega que a mala de Rocha Loures, por conexão, deve ser congelada junto com a investigação sobre Temer.

Relatório da Polícia Federal diz que as evidências apontam, “com vigor”, para a participação de Temer no crime da mala. Mas a Câmara e a defesa de Temer pedem a todos que façam papel de bobos, fingindo que a mala da propina não existe. O imenso tapete que esconde as falcatruas nacionais ficou pequeno. Resta saber se Rocha Loures está disposto a responder sozinho pelo lixão que vaza pelas beiradas.


Virgílio manda carta para Alckmin: ‘Enfrente-me’
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Josias de Souza

Tratado como um estorvo que atrapalha a vocação do tucanato para o conchavo de cúpula, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, enviou uma carta ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, novo presidente do PSDB federal. No texto, Virgílio reiterou sua disposição de medir forças com Alckmin numa disputa prévia pela vaga de presidenciável do partido em 2018. “Enfrente-me em campo aberto”, desafiou Virgílio. “Ou perderemos mais uma eleição e nos tornaremos cada vez mais irrelevantes na cena política brasileira.”

Num encontro intermediado pelo senador tucano Tasso Jereissati, Virgílio conversou com Alckmin na última sexta-feira, véspera da reunião da convenção partidária que alçou o governador paulista ao comando do PSDB. O diálogo foi tenso. Beirou a rispidez. Na carta, o prefeito recorda ao governador que chegaram a um entendimento sobre três pontos: 1) O PSDB realizará as prévias presidenciais. Coisa ampla, com a participação de todos os filiados; 2) A campanha será financiada com recursos do Fundo Partidário; e 3) Os contendores se enfrentarão em dez debates.

A despeito do acerto, Virgílio decidiu escrever para Alckmin porque estranhou declarações atribuídas a Alberto Goldman. Presidente interino do PSDB até a ascensão de Alckmin, Goldman disse que a realização de prévias amplas é impossível porque o partido não teria o cadastro de todos os seus filiados. Virgílio anotou: é uma “linha de argumentação que não me convence e, sem dúvida, convence menos ainda o povo brasileiro.”

O rival de Alckmin instou-o a cumprir o compromisso firmado no encontro de sexta-feira: “Confio em que sua palavra é, foi e será definitiva. Espero que o ilustre companheiro declare, alto e bom som, que as prévias acontecerão e que oportunidades iguais serão dadas aos dois postulantes à indicação para a disputa presidencial”. Nesta quarta-feira, já sob a presidência de Alckmin, o PSDB reúne sua Executiva Nacional. As prévias estarão na pauta.

Na carta, Virgílio relata para Alckmin mesquinharias da convenção realizada pelo PSDB no sábado. Coisa como essa: “Durante penosos minutos, fiquei sem saber se teria lugar à mesa ou não”. Ou essa: “Reduziram a potência do som, quando discursei; Ou pior: “Quando se começou a entoar o hino nacional, um certo cidadão, que dizem ligado a você, genro não sei bem de quem, intrometeu-se, bruscamente, entre o presidente Fernando Henrique e eu, espero que mandado por ninguém…”

Como se vê, sob o falso discurso de unidade, o PSDB continua sendo um partido de amigos 100% feito de inimigos. Vai abaixo a íntegra da carta que Virgílio endereçou a Alckmin:

Manaus, em 11 de dezembro de 2017

Caro Geraldo,

Na reunião da última sexta feira, dia 08 deste mês, patrocinada pelo Tasso, decidimos, você e eu, sobre os seguintes pontos:

1) O PSDB realizará prévias para escolha do seu candidato à Presidência da República nas eleições de outubro de 2018. “Prévias amplas, gerais e irrestritas”, abertas portanto a todos os filiados ao partido que nele militem há, pelo menos, um ano. Hoje leio declaração do ex-presidente interino Alberto Goldman, dizendo ser impossível  tal realização democrática, numa linha de argumentação que não me convence e, sem dúvida, convence, menos ainda, o povo brasileiro. Confio em que sua palavra é, foi e será definitiva. Espero que o ilustre companheiro declare, alto e bom som, que as prévias acontecerão e que oportunidades iguais serão dadas aos dois postulantes à indicação para a disputa presidencial;

2) Falando em igualdade, repiso que, há meses, requisitei formalmente, à direção nacional, a lista com nome, e-mail, telefones e endereço de cada filiado ao PSDB. Como não obtive êxito, repito a você a justa reinvindicação. Tão justa, que poderia, até mesmo, seguir em tom de cabível exigência. Gente com vocação para a vitória, afinal, não usa de escapismos para fugir a um enfrentamento saudável e necessário;

3) Do mesmo modo, acertamos, eu e você, que a pré-campanha, certamente, haveria de contar com recursos do fundo partidário, divididos em partes milimetricamente iguais entre as suas atividades e as minhas;

4) Finalmente, realizaríamos pelo menos dez debates, nas mais estratégicas cidades brasileiras. Debates respeitosos, porém duros, que exporão o PSDB, com seus feitos e suas mazelas, com suas ações e omissões, ao escrutínio da militância e, sobretudo, ao olho no olho com a nação brasileira.

Sobre a convenção, nela registrei alguns fatos insólitos: 1) durante penosos minutos, fiquei sem saber se teria lugar à mesa ou não; 2) visivelmente reduziram a potência do som, quando discursei; 3) para o instagram da Rede 45, eu simplesmente “não fui” à convenção. Que feio! 4) quando se começou a entoar o hino nacional, um certo cidadão, que dizem ligado a você, genro não sei bem de quem, intrometeu-se, bruscamente, entre o presidente Fernando Henrique e eu, espero que mandado por ninguém, certamente com intuito de evitar alguma 1a página retratando aquele momento entre o notável sociólogo e seu antigo ministro e duas vezes líder do seu governo. Miudezas, Geraldo, que – tenho certeza! – não fazem parte da perspectiva generosa que, obrigatoriamente, deve fazer parte do caráter de um candidato a dirigir o Brasil.

Fiquei feliz com as “vaias” de uma das charangas, porque elas logo silenciaram – e viraram aplausos – diante das razões de quem não é dúbio e não teme jogar na casa do adversário. Não confundamos, aliás, o conceito do PSDB, junto aos brasileiros, com a convenção tão recentemente realizada. O Brasil estava bem distante das centenas de pessoas que foram ao nosso evento, levadas, em sua maioria, por lideranças partidárias. Eu mesmo levei minha “claque”: minha esposa, um deputado estadual, um vereador, um dirigente, e mais duas ou três pessoas. Uma multidão!

Não permita, por fim, que se agigante um sentimento de rancor contra o seu Estado, meu prezado Geraldo. O deputado Caio Nárcio tentou subir ao palanque, para abraçar alguém, e foi barrado por uma senhora de postura marcial: “o senhor não pode subir”. Ao que o deputado respondeu: “Sei que não posso. Não sou paulista”.

Você sabe como discordei, apesar de toda a estima pessoal, de termos um presidente do PSDB que, ao mesmo tempo, fosse postulante à presidência da República. O gesto truculento contra o Tasso, soa então como pessoal. E o desmentido dessa jurisprudência, pois, soa como casuística também. Somente me resta, agora, opinar que a única postura que lhe cabe, neste momento, é acabar com esse disse-me-disse sobre as prévias. Declare, com a firmeza que o caracteriza, que elas acontecerão…e serão amplas, irrestritas, livres e lisas.

Declare que o PSDB terá de fechar questão a favor da reforma da previdência, em nome do Brasil e não das próximas eleições. Declare que conduzirá nosso partido pelo caminho aberto do reencontro com os brasileiros e não pelos atalhos que levam a decisões de cúpula, ao menoscabo aos nossos militantes.

Enfim, companheiro, enfrente-me em campo aberto. Ou perderemos mais uma eleição e nos tornaremos cada vez mais irrelevantes na cena política brasileira.

Saudações tucanas.

Arthur Virgílio Neto


Loures sem Temer é como o Piu-piu sem Frajola
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Josias de Souza

Foi ao banco dos réus Rodrigo Rocha Loures. Denunciado junto com Michel Temer, o homem da mala, como ficou conhecido, será processado por corrupção passiva desacompanhado do presidente, já que a Câmara congelou as investigações contra o inquilino do Planalto. Como na música de Claudinho e Bochecha, interpretada por Adriana Calcanhoto, Rocha Loures sem Temer é como “avião sem asa, fogueira sem brasa, futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola.”

Dias atrás, o delegado Fernando Segovia, indicado por Temer para a direção-geral da Polícia Federal, dissera que uma mala com propina, como a que Rocha Loures recebeu da JBS, recheada com R$ 500 mil, não permite saber se houve ou não corrupção. Segovia ignorou relatório no qual a PF anotou que as evidências apontam, “com vigor”, para a participação do próprio Temer nos malfeitos que conduziram à filmagem de Rocha Loures recebendo a propina.

Deve-se a abertura da ação penal contra Rocha Loures a uma decisão do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal. No mesmo despacho em que enviou as investigações contra Temer ao freezer, Fachin remeteu o pedaço da denúncia referente a Rocha Loures para a primeira instância do Juduciário. Fez isso porque o ex-assessor da Presidência não dispõe de foro privilegiado.

Desde então, os advogados de Temer e do próprio Rocha Loures tentam reverter no Supremo o desmembramento determinado por Fachin. Alega-se que a manutenção do Piu-piu na grelha da primeira instância desvirtuará a decisão da Câmara, já que o Frajola será inevitavelmente investigado por tabela. A palavra final sobre os recursos será do plenário da Suprema Corte.

Enquanto arrasta a tornozeleira eletrônica na sua prisão domiciliar, Rocha Loures deve desperdiçar o seu tempo treinando o depoimento que terá de prestar no curso da ação penal aberta pelo juiz Jaime Travassos Sarinho, de Brasília. Decerto dirá que não reconhece o homem filmado correndo com a mala pelas ruas de São Paulo. Alegará que leva sustos frequentes diante do espelho. Se lhe perguntarem sobre Temer, indagará: “Um barbudo, gorducho, casado com uma feiosa?” A alternativa à fantasia seria Piu-piu fazer uma delação premiada para denunciar o Frajola.


Rocha Loures, o homem da mala, tornou-se réu
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Josias de Souza

Conhecido como ‘homem da mala’, Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor de Michel Temer no Planalto, virou réu no processo que apura o recebimento de propina de R$ 500 mil da JBS. Deve-se a decisão ao juiz Jaime Travassos Sarinho. O caso corre na 10ª Vara Federal de Brasília. Leia os detalhes aqui.


Ausência vira arma anti-reforma da Previdência
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Josias de Souza

O governo precisa de 308 votos para aprovar a reforma da Previdência na Câmara. Pode-se evitar que o número mágico seja atingido de duas maneiras: votando contra a proposta —o que expõe o deputado ao risco de retaliação— ou simplesmente ausentado-se do plenário no dia votação. Cresce o número de deputados que tramam não dar as caras.

Utiliza-se contra Michel Temer a mesma feitiçaria usada pelo presidente para enterrar duas denúncias criminais. A continuidade das investigações contra o presidente e os ministros palacianos Moreira Franco e Eliseu Padilha exigia o aval de 342 do 513 deputados. No vale-tudo adotado para evitar que a marca fosse alcançada, o Planalto pressionou deputados que não tinham coragem de se expor à sanha das redes sociais para que sumissem do plenário na hora de a onça beber água.

O movimento pela ausência cresce na proporção direta do aumento da pressão governamental para que os partidos recorram ao “fechamento de questão”, como é chamada a ferramenta estatutária que permite a punição de filiados rebeldes. Avalia-se que as legendas terão mais dificuldade para tratar a ferro e fogo os deputados que faltarem à votação. Sob pena de sofrerem uma debandada em março, quando se abre uma janela legal para a migração partidária.

Por ora, três partidos fecharam questão para forçar seus deputados a aprovarem a emenda constitucional que mexe na Previdência: PMDB, PTB e PPS. Alçado no sábado à presidência do PSDB, Geraldo Alckmin declara-se a favor de que os tucanos adotem a mesma providência. Arrisca-se a virar um presidente minoritário no alvorecer de sua gestão à frente do ninho.

Neste domingo, de passagem por Buenos Aires, Michel Temer declarou: “Falei com presidentes do PP, PSB e PRB. E todos estão entusiasmados com eventual fechamento de questão”. Indagou-se a Temer se está otimista com a possibilidade de aprovação da refoma ainda em 2017. E ele:  “Suponho que talvez seja possível, mas, se não for, essa matéria da Previdência não vai parar.” Deve-se a cautela à ausência de votos.

Por decisão de Rodrigo Maia, presidente da Câmara, abre-se na quarta-feira, a fase de discussão da proposta previdenciária no plenário. Mas a inanição de votos permanece. “Quem sabe, a gente consiga fechar na terça-feira”, declarou Temer, referindo-se à meta de aprovar a matéria até o dia 19. Se não der, fica para o ano eleitoral de 2018. Ou para as calendas.


Alckmin soou como cabo eleitoral de Bolsonaro
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Josias de Souza

“O povo está enojado, irritado com todos nós”, disse FHC na convenção nacional do PSDB. Em timbre professoral, ele indicou um caminho: “Nós temos que nos reconectar com a vida. É preciso enfrentar os temas tais como eles são.” O guru do tucanato enumerou meia dúzia de inquietações do brasileiro. O primeiro item de sua lista foi o seguinte: “Decência.” Geraldo Alckmin discursou na sequência. Guindado ao topo da hierarquia partidária, o presidenciável tucano despejou sobre o microfone 1.422 palavras. E não falou sobre “corrupção”. Nem sinal de “Lava Jato”. O discurso de Geraldo Alckmin pede uma tradução.

“Quero agradecer aos outros partidos que nos honram com suas presenças. O PPS, PSD, PSC, PR, PSB, PTB…”

(Ao citar os partidos que aceitaram o convite para enviar representantes à convenção tucana, Alckmin quis dizer que concorda que a política enoja e irrita. Mas vai à campanha presidencial atado à maior coligação partidária que for capaz de compor. Incluirá até o PR de Valdemar Costa Neto e o PTB de Roberto Jefferson. Sim, é verdade que Jeffersons, Valdemares e outros azares não cheiram bem. Mas o povo e FHC sempre poderão tapar o nariz.)

“Quero agradecer a generosidade de dois grandes líderes, o senador Tasso Jereissati e o meu colega Marconi Perillo. São esteios do nosso partido.”

(Alckmin quis dizer que seria ótimo reconectar o PSDB à vida, promovendo o sepultamento político Aécio Neves. Mas isso mergulharia o partido numa guerra fratricida entre a proposta de autocrítica de Tasso e a desconversa aecista de Perillo. Assim, é melhor valorizar a tradição tucana. Desde que a caciquia do PSDB deixou-se fotografar em 2006, numa mesa de restaurante, escolhendo Alckmin como candidato ao Planalto, os tucanos cultuam a tese de que mais vale um bom conchavo do que uma boa contenda.)

“O Brasil vive uma ressaca, descobriu que a ilha da fantasia petista nunca foi a terra prometida. A ilusão petista acabou em pesadelo na maior crise econômica e ética a história do nosso país. Agora é hora de olhar para frente com união e esperança renovada. Os brasileiros não são tolos e estão vacinados contra o modelo lulopetista de confundir para dividir, de iludir para reinar. Mas vejam a audácia dessa turma. Depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder, ou seja, quer voltar à cena do crime. Será que os petistas merecem uma nova oportunidade? Fiquem certos de uma coisa: nós os derrotaremos nas urnas.”

(Alckmin quis dizer que seria ótimo se o PSDB pudesse enfrentar os temas tal como eles são. Entretanto, é mais fácil para o sujo falar do mal lavado do que ter que explicar o pedido de inquérito criminal que corre no STJ contra si mesmo, ou os inúmeros processos que tramitam no STF contra companheiros do porte de Aécio e José Serra.)

“Registrem-se os esforços do atual governo que, pouco a pouco, começa a reversão da tragédia econômica em que o país foi colocado. O PSDB reitera sua disposição no âmbito do Congresso na aprovação de reformas necessárias ao nosso país. Temos compromisso com a nossa história, coerência das nossas atitudes.”

(Alckmin quis dizer que a decência é um princípio inviolável. Mas o rompimento com Michel Temer jogaria o tempo de propaganda eleitoral do PMDB no colo de Henrique Meirelles, na bica de entrar na briga sucessória. Portanto, às favas com as duas denúncias criminais contra o presidente e com o rastro pegajoso do seu governo.)

“Há quem duvide que possamos fazer uma campanha eleitoral à altura das expectativas do ano que vem. Pois bem, eu não concordo com esse diagnóstico. Prefiro ficar com a opinião de um militante tucano, dos mais brilhantes economistas brasileiros, Luiz Carlos Mendonça de Barros. Ele descreveu de forma exemplar o estilo, o jeitão do nosso PSDB. É uma grande escola de samba momentos antes do início do desfile, uma aparente desorganização e desencontro de seus membros. Parece que ninguém se entende. Soa o apito vigoroso e toda aquela multidão evolui organizada, entusiasmada. Quando chega a hora do desfile, a bateria começa a tocar e toda aquela multidão cantando o hino da escola sai dançando na sequência certa na avenida.”

(Alckmin quis dizer que ainda acredita que um milagre fará cair dos céus um samba-enredo capaz de interromper a Quarta-Feira de Cinzas hipertrofiada que o PSDB vive desde que deixou o Poder federal em 2002.)

“Termino minha fala com uma citação de Santo Agostinho: a esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão. A coragem nos ensina a mudá-las. Pois bem, nossa indignação e coragem, juntas, vão mudar o Brasil. Dá-lhe, tucanos!”

(O que Alckmin quis dizer com este arremate é que, se o santo não ajudar, talvez vote em Jair Bolsonaro no segundo turno.)


General pró-intervenção decide pendurar a farda
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Josias de Souza

Crítico de Michel Temer e partidário da intervenção militar como remédio contra o “caos” ou a impunidade de corruptos, o general Antonio Hamilton Mourão vai pendurar a farda. Ele passaria para a reserva apenas no final de março de 2018. Mas avisou ao comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, que decidiu adiantar o relógio. Formalizará o pedido de desligamento nos próximos dias. A informação foi repassada ao ministro Raul Jungmann (Defesa), que avisou ao presidente da República. Auxiliares de Temer suspeitam que o general tenha pretensões políticas.

Mourão tomou o rumo da saída de emergência após ser comunicado por Villas Bôas sobre seu desligamento do posto de secretário de Economia e Finanças do Exército. Foi uma resposta à palestra ministrada pelo general na quinta-feira. Nela, Mourão declarou que Temer se segura no cargo graças ao “balcão de negócios” (assista no vídeo acima). Também afirmou, pela segunda vez em menos de três meses, que a hipótese de intervenção militar não é carta fora do baralho (assista no rodapé).

O novo surto de loquacidade provocou o deslocamento de Mourão para a função de adido da Secretaria-Geral do Exército. Trata-se de uma espécie de geladeira administrativa. E o general preferiu dar no pé a enfrentar uma rotina glacial até março. Na palestra de quinta-feira, feita no Clube do Exército, em Brasília, a convite do grupo Terrorismo Nunca Mais, a plateia dirigiu apelos para que o orador participasse das eleições de 2018. E Mourão: “Eu apenas digo uma coisa: não há portas fechadas na minha vida.”

De resto, corre entre seus colegas de farda a informação de que Mourão disputará no ano que vem a presidência do Clube Militar. Em trajes civis, o general afasta-se da cadeia hierárquica que o obriga a bater continência para Temer. E sua língua ganha o direito de se expressar livremente, sem o inconveniente do risco de punição. Apeado da Secretaria de Economia e Finanças do Exército, Mourão não se deu por achado. “É uma movimentação normal dentro do Exército”, declarou em entrevista. Não é bem assim.

Em viagem ao Oriente Médio, o ministro da Defesa soube que Mourão havia reiterado suas críticas e repisado a tecla da intervenção militar. Pelo telefone, Raul Jungmann acertou com o general Villas Bôas o congelamento do general. O comandate do Exército comunicou aos generais que integram o Alto Comando da Força sobre o envio de Mourão à geladeira. Em seguida, conversou com o próprio Mourão.

Neste sábado, já de volta a Brasília, Jungmann foi ao Palácio do Jaburu, a residência oficial de Temer. Comunicou ao presidente sobre as providências que acertara com o comandante Villas Bôas. Temer avalizou as decisões. Foi a segunda punição anotada na ficha de Mourão. Em 2015, ainda sob Dilma Rousseff, críticas do general ao governo já haviam lhe custado o posto de comandante Militar do Sul.

Mourão migrou de uma vitrine sediada em Porto Alegre para Secretaria de Economia e Finanças do Exército. Agora, despejado também desse posto, Mourão foi enviado para os fundões da burocracia do Exército. Daí a decisão de antecipar o pijama. O novo traje pode liberar de vez a língua do general.