Blog do Josias de Souza

Categoria : Vídeos

Tape o nariz pelo bem da República, pede o TSE
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Josias de Souza

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Ao empurrar os depoimentos dos delatores da Odebrecht para dentro do processo sobre a cassação da chapa vitoriosa nas eleições presidenciais de 2014, o relator do caso, ministro Herman Benjamin, ofereceu ao Tribunal Superior Eleitoral a oportunidade de fazer história. São eloquentes as evidências de que passaram pela caixa registradora da campanha de Dilma Rousseff e de Michel Temer verbas sujas saídas do departamento de propinas da maior empreiteira do país.

Pela lei, os ministros do TSE teriam duas providências a adotar. Primeiro, interromper a presidência-tampão de Michel Temer, cassando-lhe o mandato. Depois, decretar a inelegibilidade de Dilma Rousseff. Mas no Brasil, Deus às vezes dá toga a quem não tem coragem de julgar. Arma-se na Corte Eleitoral um conchavo para deixar tudo como está, para ver como é que fica.

Alguns ministros do TSE sustentam a tese de que é preciso aplicar às culpas que saltam do processo uma avaliação atenuatória que leve em conta as consequências danosas de uma eventual cassação de Temer. Por esse raciocínio, o país não suportaria uma segunda destituição de presidente em tão pouco tempo. A tese tem dois problemas: 1) Passa a impressão de que a lei é dura, mas estica. 2) Subestima a inteligência do brasileiro.

Inédito, o processo do TSE contra uma chapa presidencial poderia representar um marco saneador. Mas em vez de promover a limpeza, fixando novos parâmetros de assepsia, a turma do deixa-disso prefere acomodar o lixo sob o imenso tapete nacional. O TSE pede aos brasileiros que tapem o nariz em nome da estabilidade da República. O Brasil virou um país inusitado. Nele, todos vêem o problema. Mas ninguém quer enfrentá-lo. Apesar de tudo, o país tem saída. Ainda não roubaram o Aeroporto Internacional de Cumbica.


Integrado e apoiado por enrolados em escândalos, governo elevará impostos
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Josias de Souza

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Os economistas do governo são como ficcionitas que se deram bem na vida. A gestão de Michel Temer, que prometia adotar o realismo fiscal, tomou gosto pela ficção. A equipe de Henrique Meirelles dizia no ano passado que o buraco nas contas públicas de 2017 seria de inacreditáveis R$ 139 bilhões de reais. O ministro da Fazenda informa que o rombo cresceu em R$ 58 bilhões. Estamos falando agora de uma cratera de inaceitáveis R$ 197 bilhões. Para retornar da cratera inaceitável para o rombo inacreditável, o governo flerta com o aumento de impostos. Como se hábito, vão meter a mão no seu bolso.

Sempre que precisam dar lições à plateia ignorante, os economistas de Brasília recorrem à analogia doméstica. Dizem que o Orçamento da União é como o orçamento da sua casa, onde ninguém está autorizado a gastar mais do que ganha. O problema é que os ficcionistas do governo não seguem os próprios ensinamentos. No final do ano passado, por exemplo, aprovaram-se no Congresso pacotes milionários de reajustes salariais para servidores. Dizia-se que estava tudo na conta do déficit de R$ 139 bilhões. Era lorota. Para ficar na metáfora doméstica, é como se o governo guardasse café no pote de açúcar, sem se dar conta de que na frente está escrito sal.

Em troca do aumento de impostos, o brasileiro continuará recebendo do Estado uma segurança pública inexistente, um serviço de saúde fictício e uma educação ilusória. Bem ao gosto dos ficcionistas responsáveis pelo enredo. Tudo isso num momento em que a Lava Jato despeja diariamente no noticiário evidências de que o assalto aos cofres públicos tem dimensões amazônicas. Mas o pior de tudo é essa incômoda sensação de que o mesmo governo que prepara a mordida é integrado e apoiado por suspeitos de participação no assalto.


Janot e Gilmar brigam! Tire as crianças da sala.
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Josias de Souza

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Antes de qualquer coisa, um aviso: esse comentário contém linguagem rasteira. Convém tirar as crianças da sala. Duas das mais altas autoridades de Brasília —o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e o procurador-geral da República Rodrigo Janot— decidiram se engalfinhar em público. Gilmar usou uma notícia de jornal para acusar procuradores de vazar deliberadamente para a imprensa nomes de encrencados na lista da Odebrecht. O vazamento, disse ele, é crime previsto no Código Penal. Janot negou a notícia. E atribuiu as declarações de Gilmar à “decrepitude moral” do ministro, que sofre, segundo ele, de “disenteria verbal.”

Se essa troca de ataques evidencia alguma coisa é que Janot e Gilmar consideram-se um ao outro sujeitos desprezíveis. Um, responsável por processar a bandidagem engravatada, não conseguiria enxergar o crime de “violação de segredo funcional” praticado ao seu redor. Outro, responsável por julgar os delinquentes do poder, “corteja desavergonhadamente” os acusados, disse Janot, mantendo com eles uma “relação promíscua”.

Nesse ritmo, Janot e Gilmar vão acabar se despachando mutuamente para lugares desagradáveis. Um pode enviar o contendor ao excremento. Outro talvez mande o rival à presença da pessoa que, tendo lhe dado à luz e exercendo a profissão de prostituta, não sabe dizer ao certo quem é seu pai. Atônita, a plateia se pergunta: não seria melhor se autoridades como Janot e Gilmar se unissem para honrar o salário que recebem do contribuinte, punindo os corruptos? O ruim de duas autoridades se ofenderem em público é o pessoal que passa achar que ambas têm razão.


Governo é parte do problema na crise da carne
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Josias de Souza

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Desde que foi deflagrada a Operação Carne Fraca, o governo de Michel Temer corre para tentar reduzir os prejuízos que o setor agropecuário sofrerá, sobretudo no bilionário negócio da exportação de carne brasileira. Em privado, Temer trata a investigação da Polícia Federal como uma barbeiragem. Avalia que houve uma injustificável generalização de irregularidades que chama de pontuais. Em público, o presidente assegura que seu governo solucionará rapidamente todos os problemas. A questão é que o governo é parte do problema, não da solução.

No domingo, Temer reuniu-se com embaixadores de países que compram carne do Brasil. Tranquilizou-os. Horas depois, começaram a pipocar as notícias sobre a suspensão de importações. Hoje, Temer declarou em São Paulo: “O agronegócio, para nós no Brasil, é uma coisa importantíssima e não pode ser desvalorizado por um pequeno núcleo.” Ele se refere aos 33 servidores que estão sob investigação policial.

Não é que Temer não tenha enxergado uma solução. Ele é parte da encrenca porque ainda não enxergou o problema. Varejadas pela Polícia Federal, as superintendências do Ministério da Agricultura nos Estados são feudos políticos. Na superindência do Paraná, revezam-se o PMDB de Temer e o Partido Progressista. Na de Goiás, manda o PTB. Os prepostos desses partidos recebem voz de prisão. Ocorre na Agricultura o mesmo fenômeno que levou a Petrobras à breca: ingerência política.

O que Temer não percebeu é que vigora no Brasil não o presidencialismo, mas uma versão bem brasileira de monarquia. Quem reina é a esculhambação.


Lava Jato: ou o Brasil avança ou vira ratocracia
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Josias de Souza

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Em três anos de Lava Jato o Brasil experimentou sensações antagônicas. Depois de assistir a coisas inéditas, o país presencia um surto de mesmice. O que há de inédito no escândalo é que, pela primeira vez desde a chegada das Caravelas, o braço punitivo do Estado investigou e prendeu pessoas que, historicamente, se comportavam como se estivessem acima das leis. Esse ineditismo é agora ameaçado pelo que há de mais tradicional na política brasileira: o patrimonialismo se uniu ao oportunismo para restaurar a “normalidade”.

No Brasil, o combate à corrupção convive com uma ‘síndrome do quase’. O país quase conseguiu restaurar a moralidade quando escorraçou Fernando Collor do Planalto. Mas faltou punir as empreiteiras que engordaram o caixa do tesoureiro PC Farias. Os anões quase foram banidos do Orçamento da União. Mas as empreiteiras que compravam emendas orcamentárias foram novamente poupadas. A nação quase virou outra quando o Supremo Tribunal Federal condenou a turma do mensalão. Mas cuidou-se da máfia sem atentar para o capo.

Há uma forme de limpeza no ar. Mas a elite política, nivelada em perversão pela Odebrecht, providencia um dique de contenção. Os procuradores da força-tarefa de Curitiba tremem. Basta uma noite no Congresso e toda uma investigação pode cair por terra, disse um deles. De fato, quem olha para o Congresso põe em dúvida a Teoria da Evolução. A política brasileira parou de evoluir. E considera a hipótese de involuir. No futuro, quando os historiadores puderam falar sobre a Lava Jato sem precisar assistir a TV Câmara de madrugada, a mair operação anticorrupção da história será apresentada como um marco civilizatório ou como um fenômeno que consolidou o Brasil como uma ratocracia.


Em meio ao lodo, Temer cogita criar um Ministério do Saneamento para o PMDB
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Josias de Souza

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O silêncio do governo de Michel Temer diante da crise moral diz muito sobre o momento que o Brasil atravessa. O Planalto reage ao terremoto se escondendo em baixo da mesa. Finge-se de morto. E celebra o fato de que a Odebrecht jogou escombros na cabeça de tanta gente que ficou difícil distinguir um corrupto do outro. Assim, Temer sente-se mais à vontade para manter os seus suspeitos nos ministérios. E como há males que vêm para pior, o presidente pensa em criar um novo ministério para abrir outra frente de suspeição. Vem aí o Ministério do Saneamento Básico.

Há três semanas, o vice-presidente da Câmara, deputado Fábio Ramalho, do PMDB de Minas Gerais, subiu à tribuna para anunciar: ”Estou rompendo com o governo. Se Minas Gerais não tem ninguém capacitado para ser ministro, não devemos apoiar esse governo.” O correligionário de Temer disse que trabalharia para derrotar o governo em tudo, inclusive na estratégica reforma da Previdência. Foi uma cena de chantagem explícita. E parece ter funcionado.

Temer cogita entregar a nova pasta para a bancada do PMDB de Minas, a mesma que controlava a diretoria Internacional da Petrobras, um dos tumore$ lancetados pela Lava Jato. Fará isso para apagar um foco de descontentamento que ameaça a reforma da Previdência. É espantoso que Temer queira criar o Ministério do Seneamento num instante em que a Odebrecht expõe o lodo da corrupção a céu aberto. Apelar para o fisiologismo numa hora dessas é um atentado à inteligência. Vai ficando claro que, depois do déficit moral, o maior déficit do país localiza-se entre as orelhas dos governantes e de seus apoiadores.


Você paga o circo, mas não escolhe o palhaço
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Josias de Souza

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Acomodada pelos colaboradores da Odebrecht no mármore quente do inferno, a elite política do país se uniu em torno de um plano para criar uma porta de saída para o céu. Protegidos pelo foro privilegiado, os congressistas cuidam dos minutos porque sabem que as horas no Supremo Tribunal Federal passam mais lentamente. Os encrencados correm para aprovar até setembro uma reforma eleitoral para ser aplicada já nas eleições de 2018. Assim, a bancada dinheirista poderá se reeleger antes de ser julgada, mantendo o escudo do foro privilegiado do Supremo.

Trama-se uma reforma baseada no princípio de que nenhuma ilegalidade justifica a incivilidade de um castigo, muito menos a desonestidade com fins eleitorais. Não é porque as delações da Lava Jato transformaram um modelo bem-sucedido de rapinagem em escândalo que os rapinadores ficarão de braços cruzados. A autodepuração é suspeita e cheira mal.

Se tudo correr como planejado pelos reformadores, a reforma incluirá uma anistia do caixa dois (pode me chamar de perdão retroativo da propina). Incluirá também a criação de um fundo eleitoral para pagar com verbas públicas as campanhas políticas. Esse fundo virá acompanhado da instituição do voto em lista fechada. Nesse modelo, o eleitor vota no partido, não no candidato. Elegem-se os políticos acomodados numa lista pelos caciques de cada legenda.

Para resumir: você vai bancar a bilheteria do circo e não terá nem o direito de escolher o palhaço da sua preferência.