Blog do Josias de Souza

Categoria : Vídeos

Rivais no poder, PSDB e PT se juntam no xadrez
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Josias de Souza

O PSDB foi enviado, finalmente, para a cadeia. Ficará preso junto com o ex-presidente nacional do partido, Eduardo Azeredo, transformado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais num corrupto de segunda instância.

O PSDB poderia ter concedido a si mesmo um habeas corpus preventivo se tivesse se livrado do filiado tóxico quanto teve a oportunidade. Ao proteger Azeredo, transformou a desmoralização de um político num processo de apodrecimento partidário.

Ao mandar Azeredo para o xadrez, a Justiça atenua a distorção da seletividade. Pode-se reclamar de que há poucos tucanos em cana. Mas logo já não se poderá dizer que não há nenhum tucano atrás das grades.

A fila ainda é grande. Nela, aguardam por veredictos Aécio Neves, José Serra, Aloysio Nunes e Geraldo Alckkmin. O que se exige é que essa fila continue a andar.

O PSDB sempre acusou o PT de mimar os seus corruptos. O PT sempre acusou o PSDB de blindar os seus corruptos. Por mal dos pecados, as investigações vão demonstrando que os dois lados têm razão.

A história ofereceu aos partidos que se revezaram no poder por mais de duas décadas inúmeras oportunidades de se unir. Preferiram se aliar ao que havia de pior na política, comprando apoio congressual. Tucanos e petistas acabaram se juntando na marra. Encontraram-se, primeiro, na lama. Agora, começam a se juntar na cadeia.


Brasil reage à crise na Venezuela sem método
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Josias de Souza

A diplomacia brasileira caducou. A principal evidência de sua senilidade está na forma atabalhoada que lida com o derretimento institucional da Venezuela. Sob Lula e Dilma, vigorou a diplomacia das empreiteiras, levadas a Caracas com o dinheiro barato do BNDES. Deu em calote. Sob Temer, um Itamaraty tucano dedica-se a bicar em público o regime bolivariano. Vai dando em vexame, pois quem briga com gambá, mesmo que ganhe, sai cheirando mal.

Ah, que saudade da diplomacia brasileira. Mesmo nos períodos em que a opinião do Brasil não interessava a ninguém no mundo, como agora, todos sabiam que, se acontecesse o pior, se tudo desse errado, sobrava a coerência da diplomacia brasileira. Num caso como o Venezuela, que mantém com o Brasil algo como 2.200 quilômetros de fronteiras, a antiga diplomacia brasileira não ignoraria que a divergência, quando é inevitável, deve ser exercida com muita calma.

Diante das fraudes que mantiveram Nicolas Maduro no poder, a diplomacia brasileira diverge sem método. Grita em notas oficiais no mesmo timbre dos Estados Unidos. Na base do grito, Brasília arrisca-se a perder o papel de moderador para Washington, que grita a esmo desde que Donald Trump assumiu o comando. Trump quer que a Venezuela se exploda. Sobram para Brasil os estilhaços: o buraco no orçamento do BNDES, coberto com dinheiro do seguro desemprego, e o êxodo dos venezuelanos que cruzam a fronteira em busca de oportunidades inexistentes.


Tecnicamente, o PT virou organização criminosa
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Josias de Souza

A prisão de José Dirceu pede uma avaliação técnica, não política. Tecnicamente, a volta do ex-chefão da Casa Civil para o xadrez consolida um quadro penal que faz do PT uma organização criminosa. Os petistas e seus devotos não gostam que se diga, mas isso não é uma opinião de repórter ou uma provocação dos inimigos da legenda. É o que diz a lei.

O parágrafo 1º do primeiro artigo da lei 12.850, de 2013, anota o seguinte: “Considera-se organização criminosa a associação de quatro ou mais pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a quatro anos…”

Além de Dirceu, estão em cana Lula, Antonio Palocci e o ex-tesoureiro petista João Vaccari. Todos colecionam condenações que, individualmente, ultrapassam em muito os quatro anos de cadeia. Não há muito o que discutir. Considerando-se a letra fria da lei, trata-se de uma organização criminosa. O PT não está só. Outras organizações partidárias bandidas estão sendo desmascadas. Um detalhe injeta ironia na conjutura: a lei 12.850, essa que traz a definição de organização criminosa, foi sancionada por Dilma Rousseff.


Corte de benefícios aproxima Lula da realidade
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Josias de Souza

As pessoas muitas vezes tropeçam no óbvio. Pedem deculpas e seguem adiante sem desconfiar que o óbvio é o óbvio. Provocado por uma ação popular, o juiz federal Haroldo Nader, de Campinas, enxergou o óbvio: preso em Curitiba desde 7 de abril, Lula já não faz jus aos benefícios que recebe por ser ex-presidente: dois carros e oito servidores públicos (dois motoristas, quatro seguranças e dois assessores). O juiz mandou suspender as benesses.

A defesa de Lula diz que a decisão do magistrado causa “perplexidade”. Será? De que servem dois automóveis oficiais para alguém que está preso? Por que um sujeito que está sob vigilância de agentes federais durante 24 horas por dia precisaria de quatro guarda-costas? De resto, Lula não precisa de assessores para ligar e desligar a televisão instalada em sua cela.

Lula descobriu que a empáfia não tem elevador. Despencou das alturas para o xadrez. Deveria aproveitar a câmara de descompressão de Curitiba para fazer a transição entre o que ele acha que é e aquilo que passou a ser. Sua ficha demora a cair. Preso por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula ainda brinca de candidatura presidencial. Tudo bem. A loucura tem razões que a sensatez desconhece. Mas não é justo que, além de pagar pela estadia do preso, o contribuinte ainda tenha que custear sua hospedagem no mundo da Lua.


Caso do INSS expõe linha de montagem do mal
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Josias de Souza

A demissão do presidente do INSS, Francisco Lopes, expõe a linha de montagem que transforma órgãos vitais da administração pública em antros de safadeza. Lopes foi ao olho da rua porque comprou programas de computador numa empresa que funcionava numa loja de bebidas. Esse negócio de bêbado foi orçado em R$ 8,8 milhões. Quem é Lopes? É um apadrinhado do líder do governo no Congresso, André Moura, um deputado do Partido Social Cristão que responde a oito processos —de improbidade até tentativa de homicídio.

O cristão André Moura é um fiel seguidor do irmão-presidiário Eduardo Cunha, que o impôs a Michel Temer. Moura e Cunha rezam pelo catecismo do centrão. Adotam o lema do “é dando que se recebe”, retirado da oração de São Francisco, para simbolizar a prática profana de exigir vantagens do governo em troca de apoio político no Congresso.

Flagrada pelo jornal O Globo, a compra de softwares na casa de vinhos forçou o Planalto a agir. O chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, denunciado por corrupção, consultou o multiprocessado André Moura, que tentou segurar seu afilhado na presidência do INSS. Moura só concordou com a demissão depois que Padilha lhe informou que Michel Temer, também denunciado por corrupção, o autorizou a indicar o substituto do demitido. Numa engrenagem assim, tão apodrecida, nada se cria, nada se transforma, tudo se corrompe.


Brasileiros sonham em viver no Brasil de Temer
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Josias de Souza

Michel Temer mandou confeccionar uma cartilha de 32 páginas para falar bem de si mesmo e do seu governo entusiasmante, que fez aniversário de dois anos. Organizou uma pajelança no Planalto para discursar sobre um Brasil hipotético presidido por um estadista presumido. Numa hora dessas, gastar dinheiro com celebrações destinadas a abafar a impopularidade presidencial não passa de uma variante do velho costume de jogar o suor do contribuinte pela janela.

Temer deveria fugir de balanços. Depois do grampo do Jaburu, a reforma da Previdência foi para as cucuias. Junto com ela, foi para o beleléu a perspectiva de recuperação pujante da economia, dos empregos e das finanças públicas. Denunciado duas vezes e investigado em dois inquéritos, Temer apodrece no cargo. Está cercado de auxiliares denunciados, seu sigilo bancário foi quebrado, os amigos estão na cadeia ou no banco dos réus… Mas Temer fala sobre seu governo radioso sem mencionar a corrupção.

Os 70% de brasileiros que gostariam de adiantar o relógio para abreviar o ocaso do governo, entre eles os 13,7 milhões de desempregados, depois de ler a cartilha do Planalto e ouvir as manifestações de Temer, poderiam pedir para viver no país que ele descreve com tanta euforia, seja ele onde for. Quem não gostaria de viver no Brasil da cartilha, um país onde estrume é um o outro nome de diamante?


Futuro do país está nas mãos dos desalentados
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Josias de Souza

Saiu a nova pesquisa CNT/MDA. O resultado consolida uma percepção triste: o futuro do Brasil está nas mãos dos eleitores desalentados. Esse grupo se divide em dois: 29,6%, desanimados, dizem que anularão o voto ou votarão em branco; 16,1%, desnorteados, declaram que estão indecisos. Juntos, desanimados e desnorteados somam, no cenário mais provável, sem Lula, 45,7% do eleitorado. Somando-se os três candidatos mais bem-postos na pesquisa —Bolsonaro, Marina e Ciro— chega-se a um percentual menor: 38,5%.

Veja bem: se os 45,7% de eleitores sem candidato resolvessem se juntar para apoiar a candidatura de João dos Anzóis, esse presidenciável fictício entraria na disputa com mais votos do que Bolsonaro, Marina e Ciro somandos. O mais triste desse cenário é o seguinte: a cinco meses e alguns dias da eleição quase metade do eleitorado informa que não se sente representada por nenhum dos candidatos oferecidos pelos partidos.

Nelson Rodrigues, o velho cronista, escreveu que “a multidão tem algo de fluvial no seu lerdo escoamento.” E as últimas pesquisas eleitorais revelam que o eleitorado brasileiro escoa lentamente na direção do brejo. Quem acha que sabe o que está fazendo coloca no topo do ranking Lula, preso em Curitiba, e Bolsonaro, preso em algum lugar da era paleolítica. Quem não sabe o que fazer tranca-se em seus rancores, sonegando votos a candidatos incapazes de articular algo que se pareça com um rumo. Triste cenário.


Eleição para Legislativo desperta perigosa apatia
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Josias de Souza

Muitos imaginaram que a roubalheira revelada pela Lava Jato produziria um eleitor mais ligado. A menos de seis meses da eleição, o que se vê é o contrário. Disseminam-se entre os brasileiros o desinteresse e o desencanto. Na disputa presidencial 28% não têm candidato, indica o Datafolha. Na disputa pelas cadeiras do Congresso a alienação é ainda maior. Não há uma pesquisa pública. Mas, excluindo-se os pais e os filhos dos candidatos, 100% dos eleitores não devem ter a mais remota ideia do que fazer com os seus votos para o Legislativo.

Historicamente, o eleitor dá pouca importância à escolha de deputados e senadores. Esse desinteresse resultou no Congresso que aí está –meio balcão de negócios, meio templo de corporações, meio bordel. Não é fácil a vida do eleitor, é preciso reconhecer. Numa disputa para o Poder Legislativo, as caras são tantas que acabam não sendo nenhuma. É difícil escolher. Mas quem disse que a vida em democracia é fácil?

A democracia é o regime em que as pessoas têm ampla e irrestrita liberdade para exercitar a sua capacidade de fazer besteiras por conta própria. Mas é preciso fazer um mínimo esforço para que o voto não seja apenas um equívoco renovado de quatro em quatro anos. Tão importante quanto eleger um presidente é escolher os parlamentares que têm o poder de chantagear e até de derrubar o presidente. Se você acha que tem direito a um Estado moralmente sustentável, convém trocar a apatia pela raiva. A conjuntura cobra uma atitude. E já não basta a cara de nojo.


Sensação de superioridade do PSDB enferrujou
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Josias de Souza

Num instante em que o Supremo começa a tirar de dentro do foro os privilegiados com mandato, o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Gianpaolo Smanio, deseja devolver o privilégio a quem já não tem nem mandato nem foro. Ele retirou das mãos do promotor Ricardo Castro o inquérito que apura se Geraldo Alckmin cometeu improbidade administrativa no caso dos R$ 10,3 milhões que a Odebrecht diz ter repassado por baixo da mesa para as campanhas do tucano em 2010 e 2014.

O procurador-geral alega que precisa decidir com quem ficará o inquérito contra Alckmin. O doutor Ricardo se considera o “promotor natural” do caso. Enquanto perdurar a fratura no Ministério Público paulista, ficará anestesiada a investigação contra um candidato à Presidência da República. A única apuração disponível depois que o STJ enviou as acusações contra Alckmin para a Justiça Eleitoral, desviando o candidato da Lava Jato.

O chefe do Ministério Público de São Paulo tem a prerrogativa legal de cuidar dos casos cíveis envolvendo o governador do Estado. Mas Alckmin é ex-governador. Certas decisões são tão inexplicáveis que dispensam explicação. O PSDB governou São Paulo de 1995 até o último dia 6 de abril. Em 23 anos meteu-se em escândalos tão graves quanto mal investigados: Siemens, Alston, Odebrecht… Alckmin e seus companheiros de ninho dizem não ter nada a ver com nada. Mas sem pratos limpos, nada pode ser uma palavra que ultrapassa tudo. É por isso que a sensação de superioridade do tucanato enferrujou.