Blog do Josias de Souza

Categoria : Vídeos

Brasília ganha ar de Bagdá entregue a Ali-Babá
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Josias de Souza

Ficou para agosto a votação da denúncia contra Michel Temer no plenário da Câmara. O governo entrou numa temporada de vale-tudo. O presidente apertou o botão de dane-se. Para se livrar de uma ação penal por corrupção, Temer negocia a entrega de mais cofres públicos aos partidos que o socorrem. Privilegia legendas como o PP, campeão no ranking de encrencados do petrolão. Ou o PR, feudo cartorial do mensaleiro Valdemar Costa Neto.

Temer exige que sua tropa seja leal. Se a política brasileira fizesse sentido, lealdade deveria pertencer ao mesmo grupo de palavras que inclui honradez e ética, não ao grupo de submissão e cumplicidade. Político confiável seria leal à sua consciência e correto com os seus eleitores. Mas no dicionário do governo honra e ética são outros nomes para deslealdade.

A Lava Jato às vezes parece um marco redentor. Passa a impressão de que o Brasil, maduro para punir a corrupção, jamais será o mesmo. No entanto, Temer sinaliza aos aliados que, para se salvar de uma investigação, está disposto a honrar as alianças espúrias que dão ao Brasil essa aparência de país das negociatas e dos trambiques. Aos poucos, o pedaço de Brasília onde pulsa o coração administrativo do governo vai ganhando a aparência de uma Bagdá entregue a Ali-Babá.


CCJ: uma mão lava outra, mas o resto fica sujo
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Josias de Souza

A pretexto de defender Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, o criminalista Antonio Cláudio Mariz disse estar “muitíssimo preocupado com o avanço da cultura punitiva no país.” Ele declarou: “Pau que mata Michel, mata Lula! Pau que matou Lula pode matar Michel!”

Falando para um colegiado apinhado de deputados investigados, o advogado de Temer disse que a cultura punitiva pode atingir qualquer cidadão. Foi como se o doutor avisasse: “Se aceitarem a denúncia conta o presidente, o pau que dá em Lula e Michel pode alcançar todos vocês.”

Lula, primeiro ex-presidente da história condenado por corrupção, disse em São Paulo que “o Estado democrático está sendo jogado no lixo”. O advogado de Temer, primeiro presidente da história a ser denunciado por corrupção no cargo, se queixou em Brasília da “cultura punitiva”. Mais um pouco e o papa Francisco vai acabar canonizando Lula e Temer, esse par de santos perseguidos pela sanha punitiva.

O PT de Lula e o PMDB de Temer comandaram a sociedade partidária que promoveu o maior assalto aos cofres públicos de que se tem notícia na história republicana. Lula, hoje, não consegue explicar os seus confortos. Temer pega em lanças para impedir que o Supremo Tribunal Federal o investigue.

O presidente já prevaleceu na Comissão de Justiça da Câmara. A maioria dos deputados se rende à máxima segundo a qual uma mão lava a outra. Eles se esquecem de que o resto continua sujo. E o pau que dá em Lula e Michel paira sobre suas cabeças.


Lula ficou mais perto da cadeia do que da urna
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Josias de Souza

A condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro é um marco do Brasil pós-Lava Jato. Lula poderia ter sido uma espécie de Nelson Mandela brasileiro. Mas optou por entrar para a história como parte do detrito que transformou a política numa gincana de ineditismos. No instante em que a Câmara analisa o caso de Michel Temer, o primeiro presidente da história denunciado por corrupção no exercíco do cargo, Moro empurra para dentro da biografia de Lula um título vergonhoso: primeiro ex-presidente da história sentenciado como corrupto.

A história brasileira brasileira parece ter pretensões literárias. No futuro, quando tiver que relatar o que ocorre agora, a posteridade certamente buscará paralelos na dramaturgia grega. A verdade estará no exagero. A trajetória de Lula será descrita como uma espantosa sequência de fatos extraordinários vividos por um mito que escolheu transformar-se num político ordinário, como tantos outros.

Houve um tempo em que os crimes de colarinho branco não acabavam em castigo. Acima de um certo nível de poder e renda no Brasil, nada era tão grave que justificasse uma reprimenda. A chegada da faxina à biografia do político mais popular do país, primeiro colocado nas pesquisas presidenciais, tem a aparência de uma virada de página. O impensável aconteceu. E continuará acontecendo. O PT organiza atos de desagravo que serão comícios disfarçados. Mas no momento Lula está mais próximo da cadeia, que virá se a sentença for confirmada na segunda instância, do que das urnas.


Brasília está mais surrealista do que o habitual
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Josias de Souza

Nas últimas horas, Brasília esteve mais surrealista do que o habitual. Em solenidade no Planalto, Michel Temer disse que a Câmara tem uma decisão importantíssima para tomar e que vai respeitar o resultado, seja ele qual for. Nos subterrâneos, Temer compra um resultado que lhe pareça respeitável. Com verbas e cargos, transformou uma derrota em perspectiva de vitória na Comissão de Constituição e Justiça. Deputados que votariam a favor da aceitação da denúncia contra Temer foram trocados na CCJ por colegas que querem enterrar o escândalo vivo.

No mesmo discurso em que fez pose de presidente respeitável, Temer repetiu que seu governo recolocou a economia nos trilhos. E celebrou antecipadamente a aprovação da reforma trabalhista. Horas depois, noutro surto de surrealismo, senadoras de oposição, entre elas a ré Gleisi Hoffmann, presidente do PT, tomaram de assalto a mesa do Senado. Sem votos, decidiram atrapalhar na marra a votação da reforma da CLT. Apagaram-se as luzes no plenário do Senado. Mas o principal apagão é político, não elétrico.

Em meio a uma conjuntura cada vez menos respeitável, Temer pede pressa aos aliados. Quer enterrar a denúncia que o acusa de corrupção o quanto antes. Acha que será uma demonstração de poder. Mas a verdade é que está cada vez mais impotente. Corre para fugir de novas delações. Mas será atropelado por duas novas denúncias da Procuradoria. Talvez não encontre mais deputados dispostos a se comportar como juízes que vendem a consciência três vezes. Como nunca viveu numa democracia antes, um adolescente pode se perguntar: “E se democracia for isso mesmo?”


Relator escancara o óbvio e constrange Temer
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Josias de Souza

O voto do relator Sérgio Zveiter na Comissão de Constituição e Justiça foi constrangedor para Michel Temer e desafiador para a Câmara. Zveiter constrangeu o presidente porque, mesmo sendo do PMDB, votou a favor da aceitação da denúncia em que Temer é acusado de corrupção. O relator desafiou a Câmara porque mostrou aos deputados que não há outra alternativa senão autorizar o Supremo Tribunal Federal a se debruçar sobre a denúncia.

O relator reconstituiu em seu voto os termos da acusação: o encontro do presidente com o delator Joesley Batista na noite do Jaburu, a conversa desqualificada, a indicação de um preposto, a filmagem desse preposto recebendo propina de R$ 500 mil… E a defesa de Temer reiterou que tudo não passa de ficção. O principal mérito do voto do relator foi o escancaramento do óbvio.

Sim, Sergio Zveiter disse obviedades. Mostrou que há uma denúncia contra o presidente. Os indícios de corrupção são fortes. A sociedade tem o direito de saber se a acusação procede. Para que isso ocorra, a Câmara precisa autorizar o Supremo a julgar a consistência jurídica da denúncia. A defesa de Temer, por sua vez, pede que a Câmara esbarre no óbvio, tropece no óbvio e feche os olhos, mandando o óbvio, junto com o interesse público, às favas.


Temer e Maia dançam o balé da enganação
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Josias de Souza

Ao perceber a intensificação dos movimentos de Rodrigo Maia, Michel Temer passou a desconfiar horrores do seu aliado. No momento, os dois dançam o balé da enganação. O presidente da República diz confiar plenamente na lealdade do deputado. E o presidente da Câmara, primeiro na linha sucessória, chama de especulação o noticiário sobre os acertos que já fez com o PSDB para consolidar sua condição de pretendente ao trono —não para uma substituição temporária de seis meses, caso Temer vire réu no Supremo Tribunal Federal, mas para uma transição completa, até 2018.

Temer derrubou sua blindagem de presidente ao receber o delator Joesley Batista para uma conversa desqualificada. Desde então, os aliados condicionam o apoio ao governo à ausência de fatos novos. E os tais fatos novos não param de desabar sobre a cabeça do presidente. O penúltimo foi a prisão do amigo Geddel Vieira Lima. Os próximos serão as delações de Eduardo Cunha e do doleiro Lúcio Funaro.

Ao permitir que sua língua fizesse um striptease diante do gravador de um delator, Temer ateou fogo às próprias vestes. Perdeu a autoridade para falar em conspiração. Rodrigo Maia teve um bom professor. Quando Dilma entrou em processo de autocombustão, Temer também tomou distância. A semana termina com o condomínio governista em chamas. A dúvida é saber quanto tempo o país resiste a mais esse incêndio. Se na segunda-feira você acordar, olhar em volta e só enxergar cinzas, é porque estamos mal.


Temer cavou sua cova ao dar as costas à ética
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Josias de Souza

Michel Temer está aborrecido. Um auxiliar do presidente conta que ele se considera injustiçado. Reclama da imprensa, que não reconhece os seus feitos. Queixa-se da Procuradoria, que atrapalha o seu sucesso. Temer diz que herdou de Dilma o caos. E, com coragem, tirou o país do buraco.

Mesmo reservadamente, o presidente fala de si mesmo como se fosse um ser especial. Não é o cinismo de Temer que espanta. O que assusta é que ele acredita mesmo que tem uma missão de inspiração divina e, portanto, indiscutível.

Com apenas 7% de popularidade, o presidente não dispõe do suporte da sociedade. E perde em ritmo preocupante o apoio do Congresso e do empresariado. Mas Temer fala do seu governo e de suas realizações, em público e entre quatro paredes, como se estivesse acometido do pior tipo de ilusão: a ilusão de que preside.

Antes de viajar para a reunião do G-20, na Alemanha, Temer jogou na internet um vídeo ufanista. Nele, enumerou as conquistas que se autoatribui. E disse que o Brasil já é outro. Tem razão.

Quando Temer assumiu, referia-se à Lava Jato como uma referência a ser protegida. Hoje, seus ministros e apoiadores estão presos ou sitiados por inquéritos. E o presidente foi denunciado por corrupção.

Temer cometeu o erro primário de imaginar que poderia governar de costas para a ética. E acha que não se deve comprometer a salvação do país por algo tão supérfluo como a moralidade.


Aliados discutem se vale a pena manter Temer
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Josias de Souza

A defesa que o advogado de Michel Temer, Antonio Claudio Mariz, entregou à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara não traz novidades nas suas quase 100 folhas. O criminalista repisa argumentos que o próprio Temer, sob sua orientação, vem despejando a esmo sobre o noticiário. Em essência, Mariz alega que o áudio que o delator Joesley Batista gravou às escondidas é duvidoso e ilegal. Mas ainda que fosse válido, não provaria que Temer cometeu crime.

A situação é espantosamente inusitada. Num instante em que os órgãos de controle do Estado travam uma guerra contra a corrupção, o presidente da República desqualifica, por meio do seu advogado, o trabalho da Polícia Federal. Pior: o presidente faz isso porque a investigação policial escora a denúncia em que ele é acusado de corrupto, destinatário da propina de R$ 500 mil que a JBS enfiou numa mala e entregou para seu preposto Rodrigo Rocha Loures.

Na coreografia que se desenrola em Brasília, a movimentação do advogado de Temer é o que menos interessa aos deputados. No momento, eles fazem uma análise do tipo custo-benefício. Perguntam aos seus botões: Vale a pena manter Temer na Presidência? Começa a se disseminar no Legislativo a tese de que o bloco governista não perde por esperar —ao contrário, só ganha!— se Temer for substituído por Rodrigo Maia, o presidente da Câmara. Se prevalecer o entendimento de que é possível mudar o status sem mexer no quo, o fisiologismo deixa de uma arma útil para Temer. A munição dos cargos e das verbas troca de mãos.


Ruína de Temer é continuação de Lula e Dilma
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Josias de Souza

A investigação que levou Geddel Vieira Lima para a cadeia envolve a Caixa Econômica Federal. Dinheiro do sacrossanto FGTS foi usado em empréstimos fraudulentos para empresas corruptas, entre elas a J&F do delator Joesley Batista. A encrenca que ameaça o mandato de Michel Temer é parte da roubalheira endêmica que transformou a rotina de Lula num tormento penal e levou a Presidência de Dilma ao abismo.

O PMDB da Câmara, coordenado por Michel Temer, aproximou-se do PT no segundo mandato de Lula. A exemplo do que já fazia o PMDB do Senado, de Renan Calheiros e José Sarney, o grupo de Temer plantou apadrinhados na máquina do Estado. Nessa época, Geddel virou ministro da Integração Nacional. Tocava a obra da Transposição do São Francisco.

No governo de Dilma, Geddel foi nomeado vice-presidente da área que lidava com empresas na Caixa Econômica. Eduardo Cunha nomeou um afilhado, Fábio Cleto, para a vice-presidência de loterias, FGTS e outras mumunhas. Hoje, Dilma silencia sobre a pilhagem. Lula diz em depoimento que não sabia. Temer faz pose de limpinho. E a plateia descobre o que Romero Jucá queria dizer quando declarou que era preciso estancar a sangria. Resta torcer para que a hemorragia seja levada às últimas consequências.