Blog do Josias de Souza

Categoria : Vídeos

Presidente perfeito é um monstrengo improvável
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Josias de Souza

Conheça o presidente ideal, produzido por fusão de imagens a frio

No momento em que um Congresso Nacional sujo não consegue encontrar um personagem mal lavado para colocar no lugar de Michel Temer, surgiu o candidato perfeito à Presidência do Brasil. Foi criado num processo de fusão de imagens a frio.

É diferente de tudo o que se conhecia em matéria de presidenciável fora dos manuais de marketing: careca, olhar triste, orelhas miúdas, narigudo e boca desproporcional. Um monstrengo improvável.

O presidente perfeito jamais venceria um concurso de beleza. Em compensação, nunca seria deposto nem receberia voz de prisão. Sua estética é a ética.

Ou seja: em tempos de Lava Jato, o presidente perfeito não teria a menor chance de prevalecer numa eleição indireta no Legislativo. Conheça no vídeo acima o presidente que a República não terá.


Saída de Maria Silvia é um desastre para Temer
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Josias de Souza

Envolto há dez dias na mais grave crise do seu governo, Michel Temer rumava para o final de semana aliviado. Ele soou otimista em vídeo jogado nas redes sociais na noite de quinta-feira. Discutiu com auxiliares na manhã desta sexta os “anúncios importantes” que fará nos próximos dias. Em privado, dizia ter “recuperado o fôlego”. De repente, caiu-lhe sobre a cabeça carta de demissão da presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos —um desastre que devolveu Temer à realidade.

A logomarca do BNDES apareceu num dos trechos da gravação do diálogo do delator Joesley Batista com Temer. Nele, o dono da JBS expôs o que o presidente definiria depois como “reclamações contra o ministro da Fazenda, contra o Cade, contra o BNDES.” As queixas do empresário são uma “prova cabal de que meu governo não estava aberto a ele”, disse Temer há uma semana, evocando a atuação de Maria Silvia e de Pedro Parente, presidente da Petrobras, como evidências da seriedade de sua gestão.

O problema é que, se o trecho do áudio mencionado na autodefesa de Temer provou alguma coisa foi que um empresário corrupto, depois de se defrontar com a resistência de servidores como a presidente do BNDES, decidira cobrar do presidente da República a solidariedade de que se julgava credor. E foi correspondido.

Na gravação que fundamentou a abertura de inquérito contra Temer no STF, Joesley pediu ao presidente um “alinhamento” de posições que lhe permitisse ser mais direto nas cobranças para que o ministro Henrique Meirelles, seu interlocutor, fosse sensível aos seus pedidos. E Temer: “Pode fazer isso.”

Em depoimento à Procuradoria da República, Joesley declarou que Temer interveio pessoalmente a favor de sua empresa junto ao BNDES. “Eu tive informações que ele intercedeu no BNDES tentando me ajudar”, disse o delator aos procuradores. “Depois ele me confirmou e disse que esteve no Rio falando com a presidente” do banco. O esforço resultou “infrutífero”.

Maria Silvia tornara-se uma pedra no sapato dos chamados “campeões nacionais”. Ela irritara gente como o delator Joesley Batista, que havia se acostumado a aproveitar as facilidades da era petista para azeitar com dinheiro fácil e barato do BNDES a expansão internacional do seu conglomerado. Súbito, o cofre se fechou. Sob nova administração, o bancão oficial passou a ser mais criterioso na análise de suas operações de crédito.

Sobreveio a pressão para que o BNDES parasse de torcer o nariz dos grandes “empreendedores”. Os ataques a Maria Silvia não vinham apenas dos escritórios assentados nas avenidas Paulista, Faria Lima e Berrini. Um de seus críticos vira a maçaneta do gabinete presidencial na hora que quer e desfruta de acesso irrestrito aos ouvidos de Temer: o ministro Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência).

Equilibrando-se em meio ao entrechoque de forças antagônigas, Temer sempre pareceu mais dúbio do que Maria Silvia gostaria. Ela entregou os pontos. “Razões pessoais”, alegou. Depois de prevalecer, Moreira Franco abençoou a nomeação do novo mandachuva do BNDES: Paulo Rabello de Castro. Na semana em que Temer imaginava ter recuperado o fôlego, a água continua na altura do nariz.


Rodrigo Maia vira a principal alternativa a Temer
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Josias de Souza

Enquanto Michel Temer derrete, os partidos procuram uma pessoa para colocar no seu lugar caso o Tribunal Superior Eleitoral se anime a cassá-lo. O substituto seria escolhido pelo Congresso, em eleição indireta, para tocar o governo até as eleições de 2018. O recomendável seria promover um entendimento para a escolha de um nome respeitável. Mas talvez isso seja esperar demais de um sistema político apodrecido.

Inaugurou-se no Cogresso uma disputa autofágica. O PSDB empina o nome de Tasso Jereissati. O pedaço do PMDB que já trata Temer como página virada torce o nariz. E contrapõe a opção Nelson Jobim, que faz cara de nojo. Apoiado apenas por si mesmo, o ministro Henrique Meirelles se insinua como alternativa.

Aproveitando-se da atmosfera de desentendimento, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, se posiciona como pretendente ao trono. Se Temer cair, cabe a Rodrigo assumir a Presidência para convocar a eleição indireta em 30 dias. Ele quer permanecer no cargo. E sua candidatura, veja você, cresce, ganha adeptos, vira realidade.

Nas planilhas da Odebrecht, Rodrigo é o Botafogo. Na articulação que trama substituir um presidente sujo por um cúmplice mal lavado, Rodrigo é a prova de que política brasileira, com seu comportamento de alto risco, tem uma tendência para o suicídio.


Política surtou e Brasília virou centro terapêutico
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Josias de Souza


Depois de virar caso de polícia, a política brasileira entrou em sua fase psiquiátrica. Brasília tornou-se uma espécie de centro terapêutico para o tratamento das neuroses do sistema político.

Sindicatos e simpatizantes do PT marcharam pela queda de Temer e pela rejeição das reformas. Como o presidente está no chão e as reformas viraram pó, os manifestantes enlouquecem e quebram o próprio patrimônio.

A Câmara pediu ao Planalto reforço da Força Nacional. Temer acionou as Forças Armadas. Está previsto na Constituição. Aconteceu 29 vezes nos últimos sete anos. Mas no caso específico, foi como colocar o Anderson Silva para brigar com um recém-nascido.

O plenário da Câmara entrou em parafuso. Maníacos se desentenderam com depressivos. Todos de pé, na frente da mesa, num ambiente de boteco, que só pode acabar em palavrões e cutucões na barriga, nunca em legislação séria.

O sistema político pirou. Há dois caminhos. Uma parte pede internação no sistema prisional. E você pode dar alta para os demais em 2018.


Temer precisa decidir: ex-presidente ou estorvo?
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Josias de Souza

Brasília vive sob atmosfera de franca anormalidade. Não bastasse a crise política, sindicatos e movimentos sociais transformaram o que deveria ser um ato pacífico contra Michel Temer e suas reformas num quebra-quebra que resultou em danos físicos e ao patrimônio de todos os brasileiros. A anormalidade se reflete também no Congresso. Ali, os parlamentares oscilam entre o gritaria e o empurra-empurra. Contra esse pano de fundo conturbado, há em Brasília um governo que já não governa os acontecimentos, é governado pelos fatos.

A ideia de que Temer dirige o país nesta ou naquela direção é uma ilusão. A essa altura, o suposto presidente tem dificuldades até para exercer poder efetivo sobre o grupo de cerca de 50 pessoas que o assessoram mais diretamente. Do lado de fora, o Planalto ganhou o adorno de soldados do Exército, acionados para manter a ordem, evitando o incômodo de manifestantes arruaceiros.

Nesse contexto, aproxima-se o momento em que Michel Temer terá de decidir que papel deseja desempenhar. O núcleo central do seu governo apodreceu. Seus aliados lhe dão as costas. As lideranças políticas, ou o que restou delas depois da Lava Jato, negociam o pós-Temer. Dá-se de barato que o presidente já não consegue passar nem a impressão de que comanda. Restam a Temer dois papeis: o de ex-presidente ou o de estorvo.


Paulo Maluf, quem diria, virou corrupto amador
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Josias de Souza

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A condenação de Paulo Maluf pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal foi a notícia mais surpreendente do dia. Primeiro porque o país ficou sabendo que o Maluf está vivo. Segundo porque ficou constatado que ele continua solto. Pegou 7 anos, 9 meses e 10 dias de cana por desvios de verbas praticados entre 1993 e 1996. Já lá se vão mais de 20 anos. Bons tempos aqueles, em que o Maluf era uma espécie de corrupto oficial do Brasil.

Outro dia li um artigo do Luiz Fernando Verissimo sobre Maluf. Ele ficou atônito ao saber que havia um processo contra o Maluf no Supremo. Teve uma emoção parecida com a que sentiu ao descobrir que a cantora Wanderléa estava viva, ainda cantando como nos tempos da Jovem Guarda. Teve saudade da época em que ninguém era mais corrupto do que o Maluf no Brasil.

A chance de Maluf passar uma temporada na cadeia é próxima de zero. Ele vive aquela fase em que todos os crimes são prescritos, seguindo o entendimento de que ter 85 anos de idade já é castigo suficiente para qualquer um. Em plena era do juiz Sergio Moro, tempo de prisões alongadas e condenações rápidas, Maluf deve estar se sentindo desprezado. Jamais imaginou que a democracia brasileira viraria uma sociedade entre a Odebrecht e a JBS. Paulo Maluf, quem diria, virou corrupto amador.


Aliados dão corda e Temer se enforca sozinho
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Josias de Souza

Michel Temer não precisa mais de acusadores. O presidente se tornou um caso raro de autoincriminação. Ele se complica cada vez que tenta se defender. Espremendo-se tudo o que disse em pronunciamentos e entrevistas, Temer produziu as seguintes evidências contra si mesmo: admitiu o diálogo com Joesley Batista, que ele próprio diz ser um empresário desqualificado. Validou trechos vexatórios da conversa gravada pelo pilantra. Entre eles o pedaço do áudio que trata de Eduardo Cunha e da compra de um procurador e de juízes. Temer confirmou ter indicado como seu interlocutor um deputado que depois seria filmado recebendo mala de propina: R$ 500 mil.

Temer também declarou que recebeu o delator Joesley por “ingenuidade”. Afirmou que “não sabia” que o amigo era investigado. Disse que o ex-assessor pilhado com a mala de R$ 500 mil tem “boa índole, muito boa índole”. Já que não pode mais realizar os seus sonhos, Temer tenta pelo menos impedir a realização do pesadelo do surgimento de um novo delator.

Por tudo isso, Temer tornou-se um presidente precário. Até a semana passada, sua prioridade era salvar o país, aprovando reformas no Congresso. Hoje, seu objetivo estratégico é salvar o próprio pescoço. Enquanto tenta desqualificar no STF a delação do corrupto que recebeu com toda fidalguia, Temer pede aos aliados que retomem as votações no Congresso. Os partidos dão corda ao presidente. E vão esboçando um Plano B à medida em que ele se enforca.


Temer se acha vivo, mas aliados mandam flores
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Josias de Souza

Menos de 24 horas depois de Michel Temer ter declarado diante das câmeras que não renunciará ao mandato, a palavra renúncia voltou a ser pronunciada nos diálogos entre o presidente, seus auxiliares e apoiadores. O governo acordou sonhando com a superação da crise. “Já passou a tempestade”, chegou a dizer o chefe da Casa Civil Eliseu Padilha. Na sequência, o Supremo Tribunal Federal trovejou sobre o noticiário a íntegra do inquérito aberto contra Temer e os vídeos da delação do Grupo JBS.

O cenário é de franca deterioração. É como se o presidente, convertido pelos fatos em cadáver político, testemunhasse os preparativos para o velório do seu governo. Temer grita que está vivo. Mas alguns de seus aliados já encomendam coroas de flores. E discutem sobre o melhor momento para atirar sobre a presidência de Temer a última pá de cal.

Numa metáfora feita por um dirigente do PSDB, Temer é um paciente na UTI. Os partidos monitoram a situação. A qualquer momento, podem desligar os aparelhos. A senha para o desfecho está no áudio da conversa vadia que Temer teve com o empresário Joesley Batista. A certa altura, Temer diz que o apoio congressual é o grande trunfo da sua administração. “Se eu não tenho o apoio do Congresso”, disse Temer, “eu tô ferrado”. É disso que se trata.


Temer não era refém, mas parte da banda podre
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Josias de Souza

Sejamos claros e diretos: Michel Temer tornou-se gestor de um governo terminal. Sua voz soou numa conversa vadia gravada por um delator. Aécio Neves, seu principal aliado no Congresso, foi pilhado num pedido de propina. Temer anunciou ao país que não renuncia. Mas seus ministros e apoiadores já começaram a renunciar ao presidente. Temer logo perceberá que há um déficit de apoiadores ao seu redor. Ele também notará que precisa não de aliados políticos, mas de uma boa banca de advogados. Temer migrou da condição de presidente para a posição de investigado em inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal.

Por ironia, Temer escolheu o seu próprio caminho para o inferno. Fez isso ao imaginar que poderia governar dando de ombros para a Lava Jato, a maior investigação de corrupção já realizada na história da República. Quis reformar o país abraçado ao entulho. Verificou-se que ele não era apenas refém da banda podre, mas parte da podridão.

Temer assumiu prometendo virar a página. E virou. Só que para trás. As consequências da crise serão duras. As reformas que corriam no Congresso foram ao freezer. A economia, que dava sinais de recuperação, voltará a deslizar. Enquanto Temer finge que ainda preside, o sistema político busca uma porta de incêndio, qualquer coisa que se pareça com uma saída. Seja qual for a solução, sempre parecerá um remendo. A eleição de 2018 será o melhor remédio. Que pode virar um purgante. Depende de você, caro eleitor. As ruas voltaram a ser protagonistas.